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ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO

Dr. Dorjival Silva: Um advogado com graduação em Teologia, Pedagogia e Ciências Sociais

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O Enfoque Business dá prosseguimento à série de reportagens sobre a advocacia, celebrando o dia do Advogado, celebrado no último domingo, dia 11. Desta vez, o entrevistado é o Dr. Dorjival.

Dorjival da Silva nasceu no município de Patu, estado do Rio Grande do Norte. Tem 59 anos de idade, sendo casado, pai e avô. É graduado em Teologia, Pedagogia, Ciências Sociais e Direito. Pós-graduado em Criminologia, Direito Penal e Processual Penal. Concluinte de Mestrado em Comunicação pela Uneatlântico (Universidade Europeia do Atlântico), Santander/Espanha. Em Tangará da Serra, onde tem seu próprio escritório, atua na seara da advocacia criminal.

É muito dedicado no que faz e procura sempre se superar. Atuou por muitos anos no jornalismo, com destaque para a Rádio Pioneira – Hoje Gazeta FM, em reportagens e apresentação em estúdio. Tem ideias firmes sobre a atualidade da advocacia.

O diálogo

Enfoque Business – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda tem reagido. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que isso proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como o senhor avalia esse momento para a advocacia?

Dr. Dorjival – Verdade. A polarização no ambiente político brasileiro, especialmente após 2018, tem de fato provocado um impacto significativo na advocacia. Situação que impõe uma avaliação cuidadosa das demandas, considerando seus vários aspectos. Faço referência, por exemplo, ao crescimento de litígios, uma vez que disputas ideológicas frequentemente acabam nos tribunais.

Tem-se, também, os desafios éticos e morais, no momento em que os advogados estão em defesa de seus clientes cujos ideais políticos são profundamente polarizados. Diante desse cenário, acredito ser inteligente que os profissionais do Direito mantenham a integridade da profissão, sendo crucial a imparcialidade, apesar de suas convicções pessoais.

Para minha pessoa, o compromisso com a justiça e o estado de direito deve prevalecer sobre qualquer influência ideológica. Registro ainda, com otimismo, que o atual cenário está proporcionando aos advogados oportunidades para se especializarem em áreas específicas que têm ganhado destaque, como direito eleitoral, direitos humanos, e questões de mídia e internet. O aumento da polarização também pode fortalecer a advocacia de interesse público, onde advogados se dedicam a causas que buscam promover o bem comum e proteger direitos fundamentais, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa.

Por fim, vejo que a polarização política no Brasil após 2018 trouxe desafios e oportunidades para a advocacia. Cabe aos advogados navegarem esse cenário com profissionalismo, ética e compromisso com a justiça, utilizando suas habilidades para promover um debate jurídico equilibrado e contribuir para o fortalecimento do estado de direito.

EB – Outra característica da atualidade que envolve o exercício da advocacia é o ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado de maneira contundente as redes sociais e até mesmo os noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. O advogado precisa estar atento a isso e saber fazer a leitura dessa condição cotidiana, já que uma falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?

Dr. Dorjival – A questão das fake news é um dos grandes desafios contemporâneos para o exercício da advocacia. A disseminação de informações falsas nas redes sociais e até mesmo em veículos de comunicação tradicionais tem consequências significativas, tanto para a sociedade quanto para o sistema judicial. É evidente que as fake news têm potencial para gerar um aumento significativo de litígios. Informações falsas podem dar origem a processos por difamação, calúnia, danos morais e materiais, além de questões relacionadas à responsabilidade civil e criminal.

A rápida disseminação de fake news e a dificuldade em rastrear sua origem podem complicar a coleta de provas. Dessa forma, vejo que nós advogados precisamos estar preparados para utilizar ferramentas tecnológicas e técnicas forenses digitais para identificar e comprovar a veracidade das informações.

A questão das fake news tem levado a um debate sobre a necessidade de regulação e legislação específica. Vejo que nós advogados devemos estar atualizados sobre as mudanças legais e regulamentares que buscam combater a desinformação, a fim de melhor orientar nossos clientes e atuar de maneira eficaz.

Nossa classe também tem a responsabilidade ética de não contribuir para a disseminação de fake news e de combater ativamente a desinformação. A manutenção da integridade e da credibilidade da profissão depende da atuação responsável e ética de cada profissional. A luta contra as fake news é essencial para a proteção dos direitos individuais, a integridade do sistema judicial e a saúde da democracia.

EB – O Ministério Público tem como função constitucional a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Porém, seus componentes (os Promotores de Justiça) são, muitas vezes, interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?

Dr. Dorjival –  Colegas que estão na advocacia há muito mais tempo que eu, poderiam responder com mais propriedade essa indagação. No entanto, nunca vivi momento conflituoso, além do limite, com qualquer promotor de justiça. O que tenho visto, em muitos casos, é que há uma colaboração saudável entre advogados e promotores, visando a justiça e o cumprimento da lei.

No entanto, em situações de conflito, especialmente quando há percepções de ativismo ou ideologia, essa relação pode se tornar tensa. Defendo que a manutenção de um diálogo aberto e profissional é essencial. Advogados que estabelecem boas relações de trabalho com promotores tendem a conseguir melhores resultados para seus clientes, através de negociações e acordos mais eficazes.

Do meu ponto de vista, a advocacia e o Ministério Público precisam manter um respeito mútuo, reconhecendo o papel crucial de cada um no sistema de justiça. Isso inclui a compreensão das funções e limites institucionais de ambos os lados.

Já sobre o relacionamento entre o Ministério Público e a Polícia Militar (PM) não há porque esconder que afeta a advocacia. A indisposição entre essas instituições, especialmente em contextos de confrontos e operações policiais, pode complicar o trabalho dos advogados. Conflitos entre MP e PM podem resultar em investigações mais tensas e difíceis de navegar para advogados, que precisam lidar com diferentes versões e interpretações dos fatos.

Acrescento que a advocacia desempenha um papel crucial em equilibrar o poder entre o Estado (MP e PM) e os direitos individuais dos cidadãos. Advogados devem estar bem preparados para defender os direitos de seus clientes em face de possíveis excessos por parte das autoridades.

EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?

Dr. Dorjival – A situação do Judiciário brasileiro, marcada pelo acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada, é um desafio significativo para a administração da Justiça. Atualmente, o Brasil possui aproximadamente 84 milhões de processos em tramitação no Judiciário. Esse número representa um recorde histórico, impulsionado por uma alta demanda e aumento de 10% na produtividade dos magistrados em 2023. No ano de 2022, foram registrados mais de 31,5 milhões de novos processos, um aumento significativo em relação ao ano anterior. Comparativamente, o Judiciário brasileiro julga um número de processos quatro vezes maior que o de países europeus​ (Portal CNJ)​​ (Portal TRF2)​​ (TRF1 – TRF1)​.

Apesar de todo esforço, o grande volume de processos tem sobrecarregado o sistema judiciário, resultando em atrasos na tramitação e na resolução dos casos. Isso compromete a eficiência e a efetividade da Justiça, prejudicando os cidadãos que dependem dela. Com tantos processos para analisar, juízes podem não ter o tempo necessário para avaliar cada caso com a profundidade e a atenção que ele merece, o que pode afetar a qualidade das decisões judiciais. Meu ponto de vista é que a situação do Judiciário brasileiro, com seu acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada, requer atenção urgente e soluções inovadoras. Investimentos em infraestrutura, modernização tecnológica, métodos alternativos de resolução de conflitos e a contratação e capacitação de novos juízes são passos essenciais para melhorar a eficiência e a eficácia do sistema judicial, garantindo assim o acesso à Justiça de forma mais rápida e equitativa para todos os cidadãos.

EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?

Dr. Dorjival – Como disse, meu tempo na advocacia é bem curto. Mas, após décadas atuando como jornalista, pedagogo, cientista social, e por último, como advogado, tenho opinião formada sobre o papel da OAB na atualidade. E assim, expresso que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) desempenha um papel crucial e multifacetado na sociedade contemporânea. Pelo menos em nossa 10ª Subseção, honrosamente presidida pelo ilustre Doutor Jonas Coelho, a Ordem tem sido vigilante na defesa das nossas prerrogativas, sempre nos garantindo o exercício da profissão com independência e segurança. Quanto ao seu papel na sociedade e na política, a OAB tem uma longa tradição de defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito. Em momentos de crise política e social, a OAB frequentemente se posiciona em defesa dos valores democráticos e dos direitos fundamentais. No entanto, como qualquer instituição, enfrenta desafios que requerem uma constante adaptação e inovação.

EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?

Dr. Dorjival –  O advogado enfrenta diversos entraves no exercício de sua profissão, que podem variar desde questões estruturais e sistêmicas até desafios pessoais e profissionais. Cito as seguintes situações como exemplos: o grande volume de processos no Judiciário brasileiro que tem resultado em longos prazos de tramitação, dificultando a obtenção de decisões rápidas e eficazes para os clientes e a falta de magistrados suficientes para atender à demanda crescente tem contribuído para a morosidade judicial, prejudicando a celeridade na resolução dos casos.

Outro ponto diz respeito aos desafios que os advogados frequentemente enfrentam para garantir o respeito às suas prerrogativas profissionais, como o direito ao amplo acesso aos autos do processo e à comunicação com seus clientes. Percebo também que sendo a legislação brasileira extensa e complexa, requer dos advogados um conhecimento aprofundado e constante atualização para lidar com as diversas áreas do direito. Importante destacar ainda que a relação com o Ministério Público e a Polícia pode ser desafiadora, especialmente em casos onde há percepções de ativismo ou conflitos de interesse, exigindo dos advogados uma postura firme e bem fundamentada.

O relacionamento com juízes e servidores judiciais também pode ser complexo, especialmente em situações onde há divergências interpretativas ou de entendimento sobre a legislação e os direitos processuais. Por fim e com experiência própria, afirmo que a expectativa dos clientes por resultados rápidos e favoráveis pode gerar pressão adicional, exigindo dos advogados uma gestão eficaz do tempo e das expectativas.

Superar esses obstáculos requer não apenas competência técnica e conhecimento jurídico, mas também resiliência, ética profissional e capacidade de adaptação às mudanças. A advocacia, como pilar fundamental da Justiça, deve estar sempre em busca de aprimoramento e inovação para superar os desafios e garantir a defesa eficaz dos direitos e interesses de seus clientes.

EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?

Dr. Dorjival – A presença de diferentes ideologias no ambiente acadêmico pode enriquecer o debate e a formação dos futuros advogados. A exposição a diversas perspectivas ajuda a desenvolver a capacidade crítica e a compreensão de múltiplos pontos de vista.

Entretanto, se a ideologia predomina de maneira desequilibrada, pode comprometer a imparcialidade e a objetividade na formação acadêmica. É essencial que as instituições de ensino incentivem a análise crítica e a apresentação de argumentos baseados em fatos, em vez de doutrinas.

A ideologia presente na educação pode moldar os valores e princípios dos futuros advogados. Esses valores influenciam suas práticas profissionais, decisões éticas e a forma como eles defendem os interesses de seus clientes. Em nosso ponto de vista, advogados formados em ambientes ideologicamente carregados podem enfrentar conflitos de interesse ao lidar com casos que desafiem suas crenças pessoais.

É crucial que os advogados desenvolvam a habilidade de separar suas convicções pessoais de suas responsabilidades profissionais. Dessa forma, independente da orientação ideológica, a formação acadêmica deve garantir uma sólida capacitação técnica. Conhecimentos práticos e habilidades jurídicas são essenciais para o sucesso no mercado de trabalho.

EB – O senhor acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?

Dr. Dorjival – Sim, creio. A inteligência artificial (IA) tem um potencial significativo para influenciar a advocacia nos próximos anos, trazendo tanto oportunidades quanto desafios. Vejo como pontos importantes, por exemplo, a IA automatizando tarefas repetitivas e administrativas, como a revisão de documentos, a pesquisa jurídica e a gestão de casos. Isso pode liberar os advogados para se concentrarem em atividades mais estratégicas e complexas. Ferramentas de IA podem analisar grandes volumes de dados de forma rápida e precisa, ajudando advogados a identificar padrões, prever resultados de casos e elaborar estratégias mais eficazes.

Por outro lado vejo também a questão da automação de tarefas que poderá levar à redução de postos de trabalho para advogados juniores e estagiários, que tradicionalmente realizam essas atividades. Isso pode impactar negativamente as oportunidades de entrada na profissão.

Imagino ainda que a IA poderá transformar o papel dos advogados, exigindo que desenvolvam novas habilidades, como a interpretação de análises de IA e a integração de tecnologias avançadas em suas práticas. No entanto, é fundamental que os advogados se preparem para essas mudanças, desenvolvendo novas habilidades e garantindo que a utilização da IA respeite os princípios éticos e a privacidade dos dados dos clientes. A adaptação à IA será essencial para o futuro da advocacia, transformando a profissão e as maneiras de se fazer justiça.

EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como o senhor vê o futuro da advocacia?

Dr. Dorjival –  Considerando a profundidade da pergunta, respondo sob a perspectiva de que o futuro da advocacia será desafiador e dinâmico. A polarização e os posicionamentos ideológicos presentes na sociedade podem se refletir na prática jurídica, criando desafios para a manutenção da imparcialidade e da ética profissional. Dessa forma, nós advogados precisaremos desenvolver habilidades para navegar em ambientes polarizados, garantindo que nossas ações sejam baseadas na lei e nos melhores interesses dos nossos clientes, e não em ideologias pessoais.

Como já disse, a politização no ensino superior pode influenciar a formação dos advogados, impactando suas perspectivas e abordagens jurídicas. No entanto, essa influência também pode ser positiva se promovida de forma equilibrada, incentivando uma formação crítica e diversificada.

Com relação a IA, creio que ela poderá promover a inovação no setor jurídico, levando ao surgimento de novos modelos de negócio e formas de prestação de serviços. Advogados e escritórios que se adaptarem a essas mudanças estarão melhor posicionados para competir no mercado.

Por derradeiro diria que a capacidade de inovação, a ética profissional e a constante busca por capacitação serão essenciais para garantir que a advocacia continue a desempenhar seu papel crucial na promoção da justiça e na defesa dos direitos dos cidadãos. A adaptação a esses novos contextos exigirá um equilíbrio cuidadoso entre tradição e modernidade, assegurando que a advocacia permaneça relevante e eficaz no futuro.

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ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO

Drª Gisela Cardoso: Representação feminina em defesa da advocacia e pela interiorização da OAB

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A advogada Gisela Alves Cardoso é a entrevistada desta quarta-feira (21) do Enfoque Business, fechando com estilo a série de reportagens alusiva ao Dia do Advogado, celebrado em 11 de agosto.

Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de Mato Grosso da (OAB-MT) – Drª Gisela desponta como nova liderança mato-grossense, reunindo várias virtudes à frente de uma entidade que atua em defesa da sua categoria, da sociedade e da Constituição Federal.

Ela traduz em sua trajetória de vida o que disse, recentemente, a executiva Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil: “Não acreditem em quem não acredita em vocês (…). Se o resultado for a sua felicidade, abrace a oportunidade”.

Dinâmica e à frente de seu tempo, Gisela Alves Cardoso sempre foi inspiração em sua família, antes mesmo de se projetar na advocacia e na sociedade. Filha do caminhoneiro Augusto Cardoso e da dona de casa Ana Maria Alves Cardoso, é a primeira da família a conquistar o diploma universitário e se diz uma apaixonada pelo Direito.

Veio ainda pequena, com sua família, de São Paulo para Colíder, norte de Mato Grosso. Estudiosa e dedicada, começou dando aula de inglês. Na juventude, trabalhou em diversos empregos até iniciar carreira como bancária. Mudou-se para Capital e estudou Direito. Formou-se em 2001, e trocou a carreira de bancária pela advocacia.

Foi professora universitária por 10 anos, de 2007 a 2018. Tem enorme carinho pela docência, tendo contribuído para a formação de jovens advogados.

É especialista em Direito Empresarial e sócia no escritório Cardoso e Cardoso Advogados.

Há duas décadas na advocacia, faz parte da diretoria da OAB-MT há seis anos. Já foi Secretária Geral Adjunta e vice-presidente da Seccional. Também conduziu a Comissão da Mulher Advogada e participou da Comissão Nacional de Estudos Constitucionais. Atualmente, junto ao CFOAB é a coordenadora adjunta do Colégio de Presidentes Seccionais da OAB no triênio 2022-2024.

Em março do ano passado, recebeu a insígnia de Comendadora da Ordem São José Operário do Mérito Judiciário do Trabalho de 2023. A distinção é concedida pelo Tribunal Regional do Trabalho 23ª Região (MT), a cada dois anos, a personalidades e entidades que prestaram relevantes serviços à Justiça do Trabalho.

Orgulha-se de presidir a Seccional de Mato Grosso neste momento em que a Ordem dos Advogados instituiu a política de paridade de gênero nas eleições de todo o sistema OAB, ampliando a sua representação feminina.

Sua gestão tem sido marcada pela forte atuação na qualificação da advocacia, no combate à violência contra a mulher, no apoio ao jovem advogado, na qualificação da advocacia e na interiorização da Ordem dos Advogados.

Reside em Cuiabá e é casada com o também advogado Marlon Hudson Machado e mãe de João Pedro.

 

O diálogo

 

Redação EB – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda tem reagido. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que isso proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como a senhora avalia esse momento para a advocacia?

Drª Gisela Cardoso – Advogados e advogadas são cidadãos e cidadãs e, sendo assim, em ambiente democrático, têm todo o direito de se expressar politicamente e, na democracia, é salutar a diversidade ideológica, mas assevero que a Ordem dos Advogados, como instituição, apesar de acompanhar todos os movimentos da sociedade, não pode e nem deve ter ligação política com este ou aquele, com A ou com B, este é um paradigma que deve ser respeitado, porque a nossa instituição pertence à toda a advocacia e não a um partido político ou outro. Em todo o curso da história a forma da Ordem dos Advogados agir socialmente é cumprindo importante papel de ser voz da sociedade. No momento, saliento todo o envolvimento da nossa Seccional com o combate ao feminicídio. Então, em que pese os imbróglios das fases políticas, a OAB segue sendo farol, na defesa do Estado Democrático de Direito e da nossa Constituição vigente.

Redação EB – Outra característica da atualidade que envolve o exercício da advocacia é o ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado de maneira contundente as redes sociais e até mesmo os noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. O advogado precisa estar atento a isso e saber fazer a leitura dessa condição cotidiana, já que uma falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?

Drª Gisela Cardoso – O fenômeno das fake news é recente, mas já mostrou seus efeitos nocivos. A OAB-MT tem falado sobre isso, através das comissões temáticas envolvidas com o tema, reprovando a prática em quaisquer âmbitos. E tem também inserido esta temática em eventos, para que a advocacia se informe, a cada dia mais, e saiba como agir, caso esteja diante desta questão. 

Redação EB – O Ministério Público tem como função constitucional a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Porém, seus componentes (os Promotores de Justiça) são, muitas vezes, interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?

Drª Gisela Cardoso – O que preconizamos sempre é atuação técnica, seja em qualquer âmbito do sistema de administração de justiça, do qual todos fazemos parte, Judiciário, Ministério Público, Advocacia. E a relação da advocacia com o Ministério Público é, via de regra, muito respeitosa.

Redação EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?

Drª Gisela Cardoso – O juiz, o magistrado, é um pacificador social muito importante, especialmente nos municípios menores. Quanto mais distantes do eixo das capitais, mais aumenta potencialmente essa responsabilidade. Então, garantir os juízes nas Comarcas, em todas elas, despachando com a advocacia, influenciando na paz social, é uma das pautas permanentes da OAB-MT.

 

Redação EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?

Drª Gisela Cardoso – A OAB é a maior entidade da sociedade civil brasileira e a Seccional de Mato Grosso acaba de completar 91 anos de história, defendendo a advocacia e, com isso, defendendo também a democracia, o Estado de Direito, o respeito à legislação, à Constituição Federal. Como voz da sociedade, a OAB-MT discute as grandes questões sociais e contribui apontando saídas. Foi assim o trabalho feito pela OAB-MT para resolver os problemas com a concessão da BR-163, é assim com toda a luta que trava para combater o feminicídio. São 69 comissões temáticas. Então a OAB-MT está em muitos espaços da nossa sociedade atuando. Costumo dizer que a OAB-MT é incansável para defender a advocacia e a sociedade.

Redação EB – Quais os principais destaques da sua gestão na presidência da OAB-MT nesses dois anos e meio de gestão?

Drª Gisela Cardoso – Acredito que um dos principais destaques na minha gestão é o acolhimento ao Jovem Advogado, para que chegue ao mercado de trabalho com apoio, porque os primeiros passos não são fáceis. Quando me formei, sem nenhum outro advogado na família, nenhum parente para me indicar para nada, tive que enfrentar a vida profissional com bastante obstinação e busquei a Ordem dos Advogados, para me dar suporte. Então, agora como presidente, tenho um carinho muito especial por aqueles que estão chegando, para que tenham todo apoio e suporte. Também cito o projeto OAB Presente, que é uma forma da instituição Ordem dos Advogados ir até à advocacia onde quer que esteja, ouvir o que ela tem a dizer. Então, saímos em comitiva da Seccional e vamos aos escritórios, na Capital e em diversas cidades de Mato Grosso.

Outro destaque acredito que seja minha luta contra a violência de gênero, seja em ambiente doméstico, o que no limite nos apresenta como o feminicídio, seja no processo eleitoral, em razão de que, nós, mulheres, podemos votar há 100 anos, mas ainda temos muitas dificuldades para ser votadas, para ocuparmos esses cargos eletivos. A luta é grande também contra o assédio moral e sexual, em razão de que esta ainda é uma realidade a ser combatida, com muita coragem. Mais um destaque é a nossa Escola Superior de Advocacia, já entregamos 14 cursos de pós graduação, nesses dois anos e meio, isso nunca aconteceu, isso é histórico. Acreditamos muito em qualificação, atualização, para fortalecer o advogado, a advogada, porque o conhecimento pavimenta o exercício profissional, é o caminho mais profícuo para o sucesso.

Quanto à infraestrutura do Sistema OAB, atuamos junto com as subseções e foram entregues importantes obras para a advocacia do interior, como as novas sedes das subseções de Sinop e Juara e a primeira etapa da nova sede da subseção de Lucas do Rio Verde, entre outras reformas e ampliações em Barra do Garças, Cáceres, Campo Novo do Parecis, Colíder, Juína, Nova Mutum, Peixoto de Azevedo, Primavera do Leste, Rondonópolis e Sorriso. Trabalhamos diariamente para devolver à advocacia, em investimentos, obras e serviços, tudo o que é arrecadado com as anuidades. Essas inaugurações são reflexo desse trabalho. Espaços que vão atender aos advogados e advogadas, com estrutura, sustentabilidade e muita qualidade. Outra coisa importante é a autonomia da gestão financeira das Subseções. Neste período de dois anos e meio de gestão, os investimentos financeiros efetivados pela Seccional às subseções superaram o valor arrecadado em anuidades. Em números, a arrecadação foi de mais de R$ 9 milhões e a entrega que a Seccional fez às subseções de Mato Grosso superou os R$ 12 milhões. O aumento foi de 184% na comparação com o que as subseções recebiam anteriormente, indicando a preocupação da gestão com o fortalecimento e autonomia da gestão financeira da advocacia do interior. Precisamos devolver para a advocacia aquilo que recebemos. E é isso que estamos fazendo. A começar pela advocacia do interior. Outra prioridade e conquista da atual gestão da OAB-MT está no avanço da tecnologia. Hoje, 100% dos processos que tramitam na instituição são eletrônicos. E por aí vai!

Redação EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?

Drª Gisela Cardoso – A advocacia é uma profissão desafiadora, então os desafios são muitos, diários, agora entraves acredito que um deles seja o próprio mercado de trabalho que é muito competitivo. Por isso incentivamos a qualificação continuada e a atualização constante, para que o advogado e a advogada estejam plenamente aptos a dar as respostas que seus clientes esperam.

 

Redação EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?

Drª Gisela Cardoso – Temos uma grande preocupação em acompanhar a qualidade do ensino superior, os cursos de Direito. A OAB-MT preconiza o ensino técnico, a devida análise de conjuntura e as percepções sobre a atualidade. Temos ainda o Exame da Ordem.

Redação EB – A senhora acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?

Drª Gisela Cardoso – Inclusive já está influenciando e sendo usada também em escritórios, pelo Judiciário, demais atores da administração de Justiça. O debate ético sobre o uso da IA é amplo, tem sido feito com a sociedade, porque atinge diversos setores. Então, estamos atentos a este tema, discutindo em diversos eventos, como já disse incluindo o tema na programação e sabendo que há muitas formas da advocacia se beneficiar sim com a IA, com limites.

Redação EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como a senhora vê o futuro da advocacia?

Drª Gisela Cardoso – A advocacia tem seu passado, está viva, ativa, atuante, em destaque, em seu presente e assim estará no futuro,  é a única profissão reconhecida constitucionalmente como essencial para a administração da Justiça. Transformações são naturais do processo de evolução. Estaremos mudados, mas ainda assim essenciais.

Redação EB – Mais alguma consideração, Drª Gisela?

Drª Gisela Cardoso – Agradeço pelo espaço e por contribuir com as reflexões aqui propostas.

(Crédito das fotos: Divulgação)

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