Desde o início de sua longa história, tão longa quanto a própria história do Brasil, há um enorme preconceito rondando a nossa querida cachaça, desde as falsas noções de ‘bebida de baixa qualidade’ até preconceitos de classe e gênero.
A discriminação é grande, mas a pergunta é simples: Você já ouviu alguém ser chamado ou acusado pejorativamente de uisqueiro, vodkeiro, cervejeiro ou, tampouco, alcoólatra quando comete algum ato/ação movido pelo consumo de álcool?
Entretanto, estava com a ‘cara cheia de cachaça’ ou então, é um cachaceiro e assim por diante. Essa depreciação ao mais brasileiro dos destilados é maleficamente comum e está arraigado na cultura popular desde do Brasil colônia.

História da cachaça remonta ao Brasil Colônia, com o avanço do ciclo da cana-de-açúcar.
Nelson Alves, conhecido ‘cachacista’, servidor público residente em Nova Olímpia, detentor de inúmeros rótulos de cachaças das mais diversas regiões de Mato Grosso e do Brasil, é um estudioso da cachaça e cita que a questão também está ligada à semântica da palavra. Segundo o dicionário: “que, ou aquele que se embriaga habitualmente com cachaça ou outras bebidas” e dessa forma, remete a características como desleixo, vagabundagem e irresponsabilidade, historicamente dirigidas às classes populares, situando-se fora da redoma de quem tem dinheiro para comprar um produto direcionado às altas rodas sociais.
“No contexto histórico, há de se lembrar que a cachaça esteve associada à escravidão, foi moeda de troca para a compra de africanos escravizados e por ser consumida à época por escravizados e pessoas de baixa renda; enquanto a elite brasileira, fomentada pela coroa portuguesa consumia o vinho (do Porto) e a bagaceira (aguardente vínica)”, destaca o historiador.

Segundo Nelson, a cachaça tem conquistado espaços relevantes no universo dos destilados de qualidade.
Nelson usa um termo bastante conhecido quando se fala da discriminação sofrida pela cachaça: a ‘síndrome ou complexo de vira-lata’, um termo popularizado pelo jornalista e escritor Nelson Rodrigues (1912/1980), referindo-se à ideia daqueles que se sentem inferiores aos estrangeiros, tendendo a desvalorizar a cultura e o país de origem.
“Enquanto na França, o vinho é uma instituição, assim como o whisky na Escócia, a tequila no México e o pisco, no Peru, no Brasil o tratamento à cachaça não é nada bom e isso devemos as narrativas e interesses comerciais que vem desde o Brasil Império, quando a coroa portuguesa passou a sentir a concorrência que a cachaça fazia aos produtos importados do reino, o vinho e a bagaceira. Tentando manter a primazia no mercado de bebidas, começou a taxar com altos impostos a produção de cachaça e a difundir o conceito de que ela era uma bebida de baixa qualidade e destinada aos socialmente desfavorecidos e aos escravos.
“Desde então, nossa cachaça segue estigmatizada”, observa Nelson, lembrando um episódio histórico ocorrido no Rio de Janeiro entre 1660 e 1661: a Revolta da Cachaça. Esse movimento foi motivado pelo aumento de impostos sobre a produção e comércio de aguardente, popularmente chamada de cachaça. Os produtores de cana-de-açúcar e os fabricantes de cachaça se rebelaram contra o governo colonial, considerando a medida abusiva e ilegal.
Nelson também destaca que, com o declínio do Ciclo do Açúcar em meados do Século XVIII, o Brasil teve o Ciclo da Cachaça, pois, conforme lembra o antropólogo e historiador Luiz da Câmara Cascudo, ‘onde moi o engenho, destila o alambique’, a produção de cana, inviável para a produção de açúcar, foi destilada, tornando-se cachaça. “Isso os livros de história não contam”.
Reconhecimento
Entretanto, alguém disse, certa feita: “Se a cachaça é boa, o tira-gosto sobra”. Por mais estigmatizada que seja, muito movimentos já colocaram a cachaça no seu devido lugar. Um exemplo foi a Semana da Arte Moderna de 1922, em São Paulo, que escolheu a cachaça como bebida oficial, assim como o brinde aos 200 anos da Independência do Brasil, em 2022.

Como símbolo da cultura brasileira, a cachaça está protegida pelo Decreto 4.062, de 21 de dezembro de 2001. O Decreto estabelece como Indicação Geográfica do Brasil a aguardente de cana exclusivamente produzida no território brasileiro e produto típico da nossa cultura e técnica (já reconhecida pelo Chile, México, Estados Unidos e Colômbia).
A bebida é celebrada em 13 de setembro, denominado Dia Nacional da Cachaça. A data foi escolhida em homenagem ao dia em que a cachaça passou a ser oficialmente liberada para a fabricação e venda no Brasil, em 13 de setembro de 1661.
Segundo Nelson, a cachaça tem conquistado espaços relevantes no universo dos destilados de qualidade. Lojas de bebidas finas, bares e restaurantes de elevado padrão manifestam segurança quanto à qualidade e às valorizadas características sensoriais da cachaça. Assim como, nos botecos, a cachaça prossegue apreciada, eternizada culturalmente no gosto popular.
E ainda, existem termos que servem exatamente para trazer à tona significados de maior exatidão ao ‘cachaceiro’, indicando as especificidades e nuances que se quer imprimir e comunicar com clareza, tais como: mestre alambiqueiro, mestre de adega, cachacista, apreciador de cachaça (no sentido genérico de gostar do produto), historiador da cachaça, especialista em produção de cachaça, consultor de produção de cachaça, sommelier de cachaça.
Produção e exportação
O Anuário da Cachaça (2025) apresentou números bastante interessantes. O Brasil ganhou 1.225 registros de cachaças e 49 estabelecimentos elaboradores da bebida. Agora, o país conta com 7.223 produtos e 1.217 produtores. O volume de produção atingiu mais de 292,4 milhões de litros e o volume exportado foi de pouco mais de 6,6 milhões de litros.
O Sudeste concentra a maior parte dos estabelecimentos elaboradores da bebida, com 828 registros, o que corresponde a 65,4% do total de todo o país.
O estado que lidera o número de produtores é Minas Gerais, com 501 estabelecimentos, reunindo quase 40% de todos os registros do país. Em seguida aparece São Paulo, com 179, e Espírito Santo, com 81. O top cinco é completado por Santa Catarina, com 73 estabelecimentos, e Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, empatados com 67.
A bebida tem um bom mercado no exterior. No ano passado, o Brasil exportou cachaça a 74 países. Somente a Europa importou mais de 3 milhões de litros.
Os 10 países que mais importaram cachaça em 2024, por volume, foram: Paraguai (1.313.405 litros), Alemanha (1.223.310), Estados Unidos (824.091), Portugal (660.708), França (508.580), Holanda (263.473), Espanha (236.988), Itália (232.210), Cuba (183.878) e Bolívia (133.992 litros). E uma curiosidade: Trinidad e Tobago, no Caribe, foi o país que adquiriu a menor quantidade de cachaça, com registro de apenas um litro do produto. (Fonte: CBRC- Centro Brasileiro de Referência da Cachaça)
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