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Boteco do "Seo Pedro"

Superstição, título no futebol e mendigo bêbado: as histórias por trás da origem da Cachaça 51

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A cachaça, mais importante destilado brasileiro, acumula ao longo de seus mais de 500 anos uma coleção de histórias e lendas. Muitas dessas narrativas são passadas de geração em geração — sempre acompanhadas de uma boa prosa e uma dose da bebida.

É o que destaca o historiador e cachacista mato-grossense Nelson Alves, residente em Nova Olímpia. Apaixonado pela história da cachaça, Nelson compartilha versões curiosas e pitorescas sobre a origem de uma das mais icônicas marcas do país: a Cachaça Pirassununga 51, sinônimo de “Uma Boa Ideia”.

Como tudo começou

De acordo com Nelson, a história da Cachaça 51 teve início em 1951, na cidade de Santa Cruz das Palmeiras, interior de São Paulo. Foi ali que os irmãos Piccolo começaram a comprar cachaça de pequenos alambiques da vizinha Pirassununga, engarrafando o produto em garrafas de 600 ml e revendendo na região.

O nome “51”, no entanto, está cercado de versões lendárias:

  • Uma delas conta que os irmãos, supersticiosos a ponto de evitarem até gatos pretos, sempre armazenavam a melhor aguardente da safra no barril número 51.
  • Outra versão afirma que um mendigo de Pirassununga teria tomado 51 doses num único dia — sendo 50 para ele e uma “para o santo”.
  • Há ainda quem diga que os Piccolo eram torcedores fanáticos do Palmeiras e que o nome “Palmeiras 51” foi uma homenagem ao título internacional conquistado pelo clube na Taça Rio de 1951. (Veja foto do topo)

Nelson, com um exemplar histórico da 51.

Mas há também explicações mais técnicas: estudiosos indicam que era comum, naquela época, marcas de aguardente levarem o nome da cidade seguido de um número — como “Pirassununga 1”, “Pirassununga 5”, “Pirassununga 21” e assim por diante. O número 51, segundo essa teoria, era apenas o número do telefone da empresa dos Piccolo.

A virada: nasce a Pirassununga 51

Oito anos depois, em 1959, a pequena empresa foi comprada por Guilherme Müller Filho, brasileiro de origem alemã. Müller assumiu o negócio, que estava praticamente desativado, e rebatizou oficialmente o produto como Pirassununga 51.

A produção usava garrafas de cerveja de 600 ml adaptadas e equipamentos rudimentares, como tonéis de madeira, envasadoras simples e tampadores manuais. A partir dali, a marca começava sua jornada de sucesso.

Hoje, a 51 é a cachaça mais vendida do Brasil, com uma produção diária de 500 mil litros, respondendo por 40% do mercado nacional de cachaça e 50% do volume de destilados consumidos no país. São cerca de 104 doses vendidas por segundo no Brasil. Em consumo, perde apenas para a cerveja, superando em 10 vezes o consumo de vodca e em 13 vezes o de uísque.

Exportações e reconhecimento internacional

A Cachaça 51 está presente em 56 países, com destaque para Portugal, Espanha, Itália e Estados Unidos. Um levantamento da revista The Millionaire’s Club (2017) colocou a marca na 12ª posição mundial em volume de vendas, à frente de bebidas renomadas internacionalmente.

Linha de produtos da Companhia Müller de Bebidas

Hoje, o portfólio da empresa inclui:

  • 51 Caipirinha Mix
  • 51 Ouro
  • 51 Mel
  • 51 Ice
  • 51 Internacional
  • 51 Gold
  • 51 Assinatura
  • Reserva 51 Única
  • Reserva 51 Rara
  • Reserva 51 Singular
  • Reserva 51 Carvalho Americano

Curiosidades sobre a Cachaça 51

  • Primeira exportação: Japão, na década de 1990.
  • 2004: Durante a Eurocopa, a marca espalhou 7.897 painéis e 132 outdoors em Portugal, com o slogan em inglês “51, The Brazilian Spirit”.
  • 2009: Lançamento da Reserva 51, cachaça extra premium envelhecida em carvalho.
  • 2013: Reconhecimento oficial nos EUA como produto tipicamente brasileiro pelo Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau.
  • 2016: Ação promocional durante os Jogos Olímpicos do Rio.
  • SPFW: Participação nas edições de 2005, 2006 e 2007 da São Paulo Fashion Week.
  • 2020: Redesign do rótulo, com destaque para elementos como cana-de-açúcar, barris e a volta do nome “Pirassununga”.
  • Product placement em Hollywood: A Cachaça 51 apareceu em três cenas da série Big Bang Theory e em episódios da temporada final de Two and a Half Men.

Os slogans da Cachaça 51

  • 2019 – Você é uma Boa Ideia.
  • 2015 – Brasil é uma boa ideia.
  • 2014 – Boa ideia do Bra51l.
  • 2008 – Uma boa ideia puxa outra.
  • 2007 – Boa ideia é ser brasileiro.
  • 1978 – Uma boa ideia.

Sobre o lendário slogan

Criado em 1978 pela agência Lage Stabel & Guerreiro, o slogan “51 – Uma Boa Ideia” tornou-se um dos mais memoráveis da publicidade brasileira. O diferencial da campanha foi valorizar o hábito de consumo da bebida, em vez de seus atributos tradicionais como sabor ou preço. A estratégia transformou consumidores em personagens de uma boa escolha — como se pedir uma 51 fosse, por si só, uma atitude inteligente.

O resultado foi extraordinário: a marca, que tinha apenas 0,5% de participação no mercado, saltou para 45% em pouco tempo, expandindo-se de São Paulo para todo o Brasil. A frase se transformou em ditado popular e referência cultural, sendo lembrada até mesmo por quem não consome bebidas alcoólicas.

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Boteco do "Seo Pedro"

Amada e difamada, cachaça ostenta tradição e conquista espaço entre destilados de qualidade

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Desde o início de sua longa história, tão longa quanto a própria história do Brasil, há um enorme preconceito rondando a nossa querida cachaça, desde as falsas noções de ‘bebida de baixa qualidade’ até preconceitos de classe e gênero.

A discriminação é grande, mas a pergunta é simples: Você já ouviu alguém ser chamado ou acusado pejorativamente de uisqueiro, vodkeiro, cervejeiro ou, tampouco, alcoólatra quando comete algum ato/ação movido pelo consumo de álcool?

Entretanto, estava com a ‘cara cheia de cachaça’ ou então, é um cachaceiro e assim por diante. Essa depreciação ao mais brasileiro dos destilados é maleficamente comum e está arraigado na cultura popular desde do Brasil colônia.

História da cachaça remonta ao Brasil Colônia, com o avanço do ciclo da cana-de-açúcar.

Nelson Alves, conhecido ‘cachacista’, servidor público residente em Nova Olímpia, detentor de inúmeros rótulos de cachaças das mais diversas regiões de Mato Grosso e do Brasil, é um estudioso da cachaça e cita que a questão também está ligada à semântica da palavra. Segundo o dicionário: “que, ou aquele que se embriaga habitualmente com cachaça ou outras bebidas” e dessa forma, remete a características como desleixo, vagabundagem e irresponsabilidade, historicamente dirigidas às classes populares, situando-se fora da redoma de quem tem dinheiro para comprar um produto direcionado às altas rodas sociais.

“No contexto histórico, há de se lembrar que a cachaça esteve associada à escravidão, foi moeda de troca para a compra de africanos escravizados e por ser consumida à época por escravizados e pessoas de baixa renda; enquanto a elite brasileira, fomentada pela coroa portuguesa consumia o vinho (do Porto) e a bagaceira (aguardente vínica)”, destaca o historiador.

Segundo Nelson, a cachaça tem conquistado espaços relevantes no universo dos destilados de qualidade.

Nelson usa um termo bastante conhecido quando se fala da discriminação sofrida pela cachaça: a ‘síndrome ou complexo de vira-lata’, um termo popularizado pelo jornalista e escritor Nelson Rodrigues (1912/1980), referindo-se à ideia daqueles que se sentem inferiores aos estrangeiros, tendendo a desvalorizar a cultura e o país de origem.

“Enquanto na França, o vinho é uma instituição, assim como o whisky na Escócia, a tequila no México e o pisco, no Peru, no Brasil o tratamento à cachaça não é nada bom e isso devemos as narrativas e interesses comerciais que vem desde o Brasil Império, quando a coroa portuguesa passou a sentir a concorrência que a cachaça fazia aos produtos importados do reino, o vinho e a bagaceira. Tentando manter a primazia no mercado de bebidas, começou a taxar com altos impostos a produção de cachaça e a difundir o conceito de que ela era uma bebida de baixa qualidade e destinada aos socialmente desfavorecidos e aos escravos.

“Desde então, nossa cachaça segue estigmatizada”, observa Nelson, lembrando um episódio histórico ocorrido no Rio de Janeiro entre 1660 e 1661: a Revolta da Cachaça. Esse movimento foi motivado pelo aumento de impostos sobre a produção e comércio de aguardente, popularmente chamada de cachaça. Os produtores de cana-de-açúcar e os fabricantes de cachaça se rebelaram contra o governo colonial, considerando a medida abusiva e ilegal.

Nelson também destaca que, com o declínio do Ciclo do Açúcar em meados do Século XVIII, o Brasil teve o Ciclo da Cachaça, pois, conforme lembra o antropólogo e historiador Luiz da Câmara Cascudo, ‘onde moi o engenho, destila o alambique’, a produção de cana, inviável para a produção de açúcar, foi destilada, tornando-se cachaça. “Isso os livros de história não contam”.

Reconhecimento

Entretanto, alguém disse, certa feita: “Se a cachaça é boa, o tira-gosto sobra”. Por mais estigmatizada que seja, muito movimentos já colocaram a cachaça no seu devido lugar. Um exemplo foi a Semana da Arte Moderna de 1922, em São Paulo, que escolheu a cachaça como bebida oficial, assim como o brinde aos 200 anos da Independência do Brasil, em 2022.

Como símbolo da cultura brasileira, a cachaça está protegida pelo Decreto 4.062, de 21 de dezembro de 2001. O Decreto estabelece como Indicação Geográfica do Brasil a aguardente de cana exclusivamente produzida no território brasileiro e produto típico da nossa cultura e técnica (já reconhecida pelo Chile, México, Estados Unidos e Colômbia).

A bebida é celebrada em 13 de setembro, denominado Dia Nacional da Cachaça. A data foi escolhida em homenagem ao dia em que a cachaça passou a ser oficialmente liberada para a fabricação e venda no Brasil, em 13 de setembro de 1661.

Segundo Nelson, a cachaça tem conquistado espaços relevantes no universo dos destilados de qualidade. Lojas de bebidas finas, bares e restaurantes de elevado padrão manifestam segurança quanto à qualidade e às valorizadas características sensoriais da cachaça. Assim como, nos botecos, a cachaça prossegue apreciada, eternizada culturalmente no gosto popular.

E ainda, existem termos que servem exatamente para trazer à tona significados de maior exatidão ao ‘cachaceiro’, indicando as especificidades e nuances que se quer imprimir e comunicar com clareza, tais como: mestre alambiqueiro, mestre de adega, cachacista, apreciador de cachaça (no sentido genérico de gostar do produto), historiador da cachaça, especialista em produção de cachaça, consultor de produção de cachaça, sommelier de cachaça.

Produção e exportação

O Anuário da Cachaça (2025) apresentou números bastante interessantes. O Brasil ganhou 1.225 registros de cachaças e 49 estabelecimentos elaboradores da bebida. Agora, o país conta com 7.223 produtos e 1.217 produtores. O volume de produção atingiu mais de 292,4 milhões de litros e o  volume exportado foi de pouco mais de 6,6 milhões de litros.

O Sudeste concentra a maior parte dos estabelecimentos elaboradores da bebida, com 828 registros, o que corresponde a 65,4% do total de todo o país.

O estado que lidera o número de produtores é Minas Gerais, com 501 estabelecimentos, reunindo quase 40% de todos os registros do país. Em seguida aparece São Paulo, com 179, e Espírito Santo, com 81. O top cinco é completado por Santa Catarina, com 73 estabelecimentos, e Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, empatados com 67.

A bebida tem um bom mercado no exterior. No ano passado, o Brasil exportou cachaça a 74 países. Somente a Europa importou mais de 3 milhões de litros.

Os 10 países que mais importaram cachaça em 2024, por volume, foram: Paraguai (1.313.405 litros), Alemanha (1.223.310), Estados Unidos (824.091), Portugal (660.708), França (508.580), Holanda (263.473), Espanha (236.988), Itália (232.210), Cuba (183.878) e Bolívia (133.992 litros). E uma curiosidade: Trinidad e Tobago, no Caribe, foi o país que adquiriu a menor quantidade de cachaça, com registro de apenas um litro do produto.  (Fonte: CBRC- Centro Brasileiro de Referência da Cachaça)

#cachaça exportação; #cachaça;

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