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Momento Agrícola

Inadimplência cresce, renegociação emperra, crédito trava, fertilizantes atrasam e safra encolhe

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O produtor brasileiro chega ao início do plantio da safra de verão diante de uma combinação que exige cautela: crédito caro, fertilizantes atrasados, margens apertadas e uma renegociação de dívidas que ainda não saiu do papel. Na edição deste sábado (5) do Momento Agrícola, Ricardo Arioli avalia que a dificuldade de acesso a recursos já está influenciando a decisão de compra de insumos e pode aparecer nos números de produtividade da próxima safra .

As vendas de fertilizantes, que alcançaram 49 milhões de toneladas no ano passado, podem recuar para uma faixa entre 42 milhões e 45 milhões de toneladas. O impacto é maior nos fosfatados, pressionados pela alta do enxofre usado na produção de ácido sulfúrico e disputado também pela indústria de baterias para veículos elétricos. Ureia e cloreto de potássio recuaram de preço, mas não compensam totalmente o custo dos fosfatados. Em julho, o Brasil importou 600 mil toneladas de ureia, volume recorde para o mês, em grande parte destinado à segunda safra de milho.

O atraso nas entregas também não é uniforme. No Centro-Oeste, chega a 10% em relação ao mesmo período do ano passado; no Rio Grande do Sul, alcança pelo menos 45%. A consequência é um dilema agronômico e financeiro: reduzir a adubação aumenta a vulnerabilidade da lavoura ao clima, mas plantar áreas marginais sem capacidade de resposta pode desperdiçar o pouco fertilizante disponível. A recomendação implícita é transformar o conhecimento de cada talhão em critério de investimento, priorizando as áreas com maior potencial produtivo.

Autor do Momento Agrícola, Ricardo Arioli: “O calendário agrícola não espera a burocracia”.

Santa Catarina expõe outra face do problema. O Estado produz menos de 3 milhões de toneladas de milho e consome cerca de 8,5 milhões, sobretudo para aves e suínos. A diferença é coberta por compras de outras regiões, a mais de 1.500 quilômetros, e cada vez mais pelo Paraguai. Pela rota que passa pela Argentina e chega à fronteira de Dionísio Cerqueira, o frete pode ser até 15% mais barato. Em 2025, o milho respondeu por 15% das importações catarinenses vindas do Paraguai, somando US$ 70 milhões .

Essa dependência, porém, não elimina o potencial de produção local. Estudos citados por Arioli indicam que ajustes relativamente simples — como semear em setembro, corrigir a acidez, adequar a população de plantas e melhorar a adubação — poderiam acrescentar pelo menos 1 milhão de toneladas à colheita catarinense. O obstáculo é que tecnologia e manejo também exigem capital, justamente quando o crédito está mais seletivo.

O quadro financeiro ajuda a explicar a retração. A inadimplência do crédito rural para pessoas físicas chegou a 8,8% em julho, novo recorde e praticamente o dobro do registrado um ano antes. O saldo problemático — que reúne operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas — atingiu R$ 207,4 bilhões, ou 23,5% de uma carteira de R$ 881,6 bilhões . Não se trata apenas de uma estatística bancária: é recurso que deixa de financiar custeio, investimento e a próxima decisão de plantio.

A Medida Provisória 1.376/2026, publicada em 15 de julho, deveria abrir caminho para a repactuação, mas produtores continuam encontrando exigências e dificuldades operacionais. Mais de 40 entidades do agro pediram ao Congresso, nesta semana, ajustes, segurança jurídica, critérios uniformes e urgência na implementação. A comissão mista criada para acompanhar a medida ainda não avançou, enquanto o prazo de validade termina em 12 de novembro .

O alerta de Ricardo Arioli é que o calendário agrícola não espera a burocracia. Se a renegociação continuar atrasada, a inadimplência tende a pressionar ainda mais o custeio, e a redução de fertilizantes poderá cobrar seu preço em produtividade. Para o produtor, a ordem é proteger caixa, concentrar investimento nos melhores talhões e evitar decisões que convertam economia imediata em perda maior na colheita. Para governo, Congresso e sistema financeiro, a urgência é fazer a política anunciada chegar ao campo antes que a janela de plantio se feche.

Ouça o Momento Agrícola na íntegra:

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Momento Agrícola

Subsídio ao diesel, atraso do B-16 e desafios financeiros são os destaques da semana

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Programa de Ricardo Arioli também aborda mercado de farelo de soja, etanol na navegação, investimentos em armazenagem, cooperativismo e endividamento rural

O subsídio ao diesel, a demora na elevação da mistura de biodiesel e os desafios financeiros do setor produtivo estão entre os destaques da edição deste sábado (10) do Momento Agrícola, apresentado por Ricardo Arioli. O programa também aborda oportunidades para o etanol no transporte marítimo, investimentos em armazenagem e o papel do cooperativismo no desenvolvimento regional.

Veiculado pela Rede de Rádios do Agro e repercutido pelo Enfoque Business, o programa ouviu Frederico Azevedo, superintendente da Organização das Cooperativas Brasileiras em Mato Grosso (OCB-MT); Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea); e Nilson Leitão, consultor da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Subsídio ao diesel e impasse do biodiesel

Arioli comentou a prorrogação, por mais 30 dias, do subsídio de R$ 2,12 por litro de diesel, com término previsto para 26 de outubro, um dia após o segundo turno das eleições. Segundo ele, o benefício ameniza os custos do produtor durante o plantio da safra de verão, mas não elimina a diferença entre a paridade do diesel importado e os preços internos.

Outro questionamento foi a demora na adoção do B16. A mistura obrigatória permanece em 15%, embora a elevação para 16% estivesse prevista desde março. Lideranças do setor defendem avanço até o B17, medida que reduziria a dependência de diesel importado e ampliaria o processamento nacional de soja.

Segundo os cálculos apresentados por Arioli, a adoção do B17 exigiria cerca de 1,4 bilhão de litros adicionais de biodiesel por ano e o esmagamento de mais 4,6 milhões de toneladas de soja. O Brasil, avaliou, dispõe de matéria-prima, capacidade industrial e mercado para absorver o aumento.

Brasil se aproxima da Argentina no farelo de soja

A expansão do biodiesel também influencia a disputa pelo mercado internacional de farelo de soja. A Argentina continua na liderança das exportações, mas a diferença em relação ao Brasil teria recuado de 86% em 2021 para 8% em 2026.

O Brasil consome internamente cerca de 21,4 milhões de toneladas de farelo, destinadas principalmente à produção de carnes, ovos e leite, enquanto a Argentina utiliza aproximadamente 2 milhões de toneladas. O aumento do processamento de soja para biocombustíveis tende a ampliar a oferta brasileira de óleo e farelo. O B18, previsto para 2028 pela Lei do Combustível do Futuro, poderá reduzir ainda mais a distância entre os países.

Etanol pode avançar na navegação

O transporte marítimo surge como novo mercado potencial para o etanol. Empresas como Vale e Maersk já testam o biocombustível em embarcações para reduzir emissões de gases de efeito estufa.

Arioli estimou que uma participação de 10% do etanol no combustível utilizado pela navegação mundial poderia gerar demanda de aproximadamente 30 bilhões de litros. A concretização desse mercado, porém, dependerá de investimentos em produção, logística e infraestrutura portuária.

Sukup avalia instalação em Mato Grosso

A norte-americana Sukup, fabricante de equipamentos para secagem, armazenagem e movimentação de grãos, avalia instalar uma indústria em Lucas do Rio Verde. Os valores do investimento e eventuais incentivos públicos ainda não foram divulgados.

Mato Grosso possui capacidade estática de armazenagem estimada em 64,2 milhões de toneladas, pouco mais da metade de sua produção de grãos. O déficit evidencia espaço para novos investimentos no segmento.

Cooperativismo movimenta a economia regional

Na entrevista, Frederico Azevedo apresentou dados de estudo contratado pela OCB-MT que apontam redução média de 10% no número de inscritos no Cadastro Único e queda próxima de 40% nos repasses do Bolsa Família em municípios com maior presença de cooperativas.

Segundo Azevedo, o cooperativismo gera efeitos econômicos e sociais em áreas como agropecuária, crédito, saúde e transporte. No campo, favorece ganhos de escala na compra de insumos, comercialização, armazenagem e industrialização. Cooperativas mato-grossenses teriam reduzido em cerca de 18% o custo médio de produção dos associados, enquanto a movimentação do setor no Estado avançou de aproximadamente R$ 47 bilhões para R$ 56 bilhões.

Ele também defendeu a diversificação para a industrialização de grãos, o biodiesel, o etanol e a biomassa, além da profissionalização da gestão e do planejamento financeiro para ampliar o acesso ao crédito privado.

Plantio avança, mas endividamento preocupa

Cleiton Gauer avaliou que o plantio da soja começou de forma irregular e mais lenta em Mato Grosso, mas ganhou ritmo com a regularização das chuvas. A manutenção do calendário é importante para preservar a janela de plantio do milho e do algodão de segunda safra.

A expectativa inicial de produtividade é de 62 sacas por hectare, abaixo das 65 a 66 sacas registradas em anos recentes. A distribuição das chuvas entre outubro e dezembro será decisiva para o resultado.

Segundo os dados apresentados pelo superintendente do Imea, a inadimplência rural atingiu 5,85% do crédito total no Estado. Considerando também contratos renegociados e prorrogados, o comprometimento chega a 21% do crédito, equivalente a cerca de R$ 22,5 bilhões.

Gauer alertou que a pressão financeira pode reduzir o uso de tecnologia e comprometer a continuidade das propriedades. Por isso, recomendou atenção à comercialização e ao fluxo de caixa.

Congresso terá desafios para o agro

Encerrando a edição, Nilson Leitão analisou a formação do próximo Congresso e o fortalecimento da bancada ligada à FPA. Entre as prioridades para 2027, citou segurança jurídica nas questões indígenas e fundiárias, regularização de áreas, políticas para a Amazônia Legal e uma agenda ambiental permanente.

Leitão também defendeu mudanças no seguro rural, no crédito agrícola e no tratamento do endividamento dos produtores. Para ele, o Plano Safra deveria adotar planejamento de dois ou três anos, em vez de depender exclusivamente de ciclos anuais, ampliando a previsibilidade para o financiamento e a gestão das propriedades.

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