Estado deve semear cerca de 13 milhões de hectares na safra 2026/27, mas produtores enfrentam custos elevados, crédito restrito e maior risco climático
O plantio da soja da safra 2026/27 estará autorizado em Mato Grosso a partir da próxima segunda-feira (7), um dia após o encerramento oficial do vazio sanitário no estado. A nova temporada começa com expectativa de cultivo de aproximadamente 13 milhões de hectares, mas também sob cautela diante da possibilidade de chuvas irregulares, períodos de estiagem e temperaturas acima da média.
O cenário foi destacado pelo jornalista Olmir Cividini, de Tangará da Serra, na edição desta sexta-feira (04.09) da coluna Circuito Rural. Segundo ele, o calendário agrícola abre espaço para uma nova safra de soja, mas não elimina a necessidade de avaliar cuidadosamente as condições de umidade do solo antes da semeadura.
A projeção do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) aponta área de 13,05 milhões de hectares para a soja em Mato Grosso, com produtividade estimada em 62,44 sacas por hectare. Caso essas estimativas se confirmem, a produção estadual poderá alcançar 48,88 milhões de toneladas, abaixo do recorde registrado no ciclo anterior.
No âmbito nacional, a Agroconsult estima uma área próxima de 49 milhões de hectares para a soja em 2026/27, praticamente estável em relação à temporada passada. A desaceleração interrompe, ao menos temporariamente, o ritmo de expansão observado em anos anteriores e reflete um ambiente mais pressionado para o produtor, marcado por custos elevados, crédito mais caro e restrito, endividamento e margens menores.
“A conta do produtor ficou mais apertada”, observa Olmir Cividini na coluna Circuito Rural, ao avaliar os fatores que reduziram o ritmo de crescimento da área cultivada.
El Niño amplia a incerteza sobre a safra
Além da situação financeira das propriedades, o comportamento do clima aparece como um dos principais fatores de risco para o novo ciclo. Boletim divulgado em 1º de setembro pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em conjunto com instituições como INPE, ANA e Cemaden, indica probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte no trimestre formado por setembro, outubro e novembro.
Combinação de calor e estiagem também pode prolongar o período de transição entre a estação seca e a chuvosa, mantendo o solo mais seco e aumentando o risco de queimadas.
De acordo com o documento, a influência do fenômeno tende a favorecer volumes de chuva acima da média no Sul do país, enquanto partes do Centro-Norte, incluindo Mato Grosso, apresentam maior probabilidade de precipitações abaixo do normal e temperaturas elevadas. A combinação de calor e estiagem também pode prolongar o período de transição entre a estação seca e a chuvosa, mantendo o solo mais seco e aumentando o risco de queimadas.
Na avaliação apresentada por Cividini, as pancadas de chuva registradas nos últimos dias, especialmente no oeste de Mato Grosso, melhoram temporariamente a umidade do solo e reduzem o risco de incêndios. No entanto, não devem ser interpretadas automaticamente como o início consolidado da estação chuvosa.
A meteorologia prevê novas pancadas na primeira quinzena de setembro, mas também alerta para a possibilidade de retorno da seca no restante do mês e nos períodos seguintes. Esse comportamento pode favorecer o chamado veranico, quando uma sequência de dias quentes e secos ocorre logo após o início das chuvas.
Umidade será decisiva
O risco para o agricultor está na possibilidade de a semente germinar após uma chuva isolada e, em seguida, enfrentar falta de água durante os primeiros estágios de desenvolvimento. Nessa fase, a irregularidade das precipitações pode comprometer o estabelecimento das plantas e reduzir o potencial produtivo das lavouras.
O próprio Imea reforçou que mais importante do que o volume acumulado de chuva será a regularidade e a distribuição das precipitações ao longo do ciclo. Em análise publicada às vésperas do início do plantio, o instituto destacou que as condições de umidade do solo deverão orientar o avanço da semeadura e que a intensidade do El Niño já está incorporada às estimativas da nova safra.
Para Olmir Cividini, o principal desafio da temporada é conciliar uma área extensa a ser plantada com um ambiente climático menos previsível. “Não se pode simplesmente olhar para o calendário e dizer: chegou setembro, então é hora de colocar a semente no chão. Não é tão simples”, afirmou o jornalista na edição desta sexta-feira da coluna Circuito Rural.
A recomendação implícita no alerta é que o produtor acompanhe a evolução das chuvas e evite decisões baseadas apenas em uma precipitação pontual. Em uma safra marcada por margens mais estreitas e maior custo financeiro, o momento de plantio e a capacidade de atravessar eventuais períodos de restrição hídrica serão determinantes para o resultado econômico das propriedades.
O agronegócio mato-grossense encerra o mês de junho sob o impacto de dois temas que, embora distintos, convergem para a mesma preocupação: a segurança e a previsibilidade da produção. De um lado, chuvas atípicas em pleno mês de junho ameaçam a qualidade da colheita do algodão; do outro, o anúncio de estudos da Petrobras para dobrar a produção nacional de fertilizantes reacende o debate sobre a histórica dependência externa brasileira de insumos estratégicos.
Os temas são abordados na coluna “Circuito Rural”, do jornalista mato-grossense especializado em agronegócio Olmir Cividini, de Tangará da Serra.
Chuvas em junho: o alerta na colheita do algodão
Mato Grosso, que cultivou cerca de 1,4 milhão de hectares de algodão nesta safra, foi surpreendido por episódios climáticos fora do padrão para esta época do ano. Antes dessas chuvas, a expectativa de produtividade média era de 304 arrobas por hectare, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA). No entanto, acumulados superiores a 20 milímetros em diversas regiões produtoras colocam em risco a qualidade da fibra e dificultam a entrada de maquinário em campo.
A colheita do algodão é uma fase extremamente sensível à umidade. O excesso de chuva não apenas atrasa o cronograma, mas pode provocar o escurecimento da fibra e a proliferação de doenças, impactando diretamente o valor de mercado do produto. Levantamentos técnicos ainda estão sendo realizados para mensurar o tamanho real do prejuízo, mas o alerta já está ligado para o produtor, que vê no clima um fator que foge completamente ao seu controle.
Fertilizantes: dependência que preocupa
Enquanto o campo lida com o clima, em Brasília e no Rio de Janeiro, a pauta é a soberania nacional. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou recentemente que solicitou estudos para dobrar a capacidade nacional de produção de fertilizantes. Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes utilizados em sua agricultura, uma vulnerabilidade estratégica que ficou evidente com as recentes crises globais.
A análise histórica é reveladora: nas últimas cinco décadas, a produção brasileira de soja saltou de 9 milhões para 180 milhões de toneladas — um crescimento de quase 2.000%. Se o país sabia que sua agricultura crescia nesse ritmo, por que optou por importar a maior parte dos insumos em vez de ampliar sua própria capacidade produtiva? A resposta passa por investimentos elevados, necessidade de gás natural a preços competitivos e infraestrutura logística. Por muito tempo, foi economicamente mais vantajoso importar do que fabricar internamente.
Soberania vs. custo imediato
O problema é que a lógica econômica nem sempre coincide com a lógica estratégica. O Brasil já alcançou a autossuficiência na produção de petróleo bruto em 2006, mas ainda importa combustíveis porque a capacidade de refino não acompanhou a demanda. Com os fertilizantes, o desafio é semelhante. Até que ponto determinadas cadeias produtivas devem ser analisadas apenas pela ótica do custo imediato? Em casos de insumos estratégicos, a segurança de abastecimento e a soberania nacional podem justificar investimentos que, à primeira vista, não parecem os mais rentáveis, mas que garantem a sustentabilidade da maior potência agrícola do planeta.
Olmir Cividini é jornalista e colunista do Enfoque Business em Tangará da Serra.
(*) Ouça o Circuito Rural na íntegra no áudio abaixo: