Entre tomates, pamonhas, pastéis, conversas e reencontros, a Feira do Centro é mais do que um lugar de compras: é um retrato vivo da cidade
Domingo tem cheiro de café passado na hora, de caldo de cana, de pastel frito e de terra trazida da roça junto com a mandioca, a couve, a alface e o rabanete.
Em Tangará da Serra, domingo também tem cheiro de Feira. E quem quiser entender um pouco da alma desta cidade talvez devesse acordar cedo neste domingo (6) e dar uma volta pela Feira do Produtor do Centro. Não para fazer compras apenas. Para ver Tangará.
A Feira começa a ganhar movimento quando boa parte da cidade ainda dorme. Às cinco da manhã, os feirantes já estão por lá. Naquele vai-e-vem, chegam com hortaliças recém-colhidas. Outros trazem frutas, queijos, doces, embutidos, ovos, carnes, peixes, flores, temperos, compotas e uma infinidade de produtos que fazem da agricultura familiar uma espécie de supermercado sob um grande pavilhão — só que muito mais humano.

Feira abre neste domingo a partir das 05h00 da manhã.
Nesta época do ano, o tomate aparece bonito e com preço melhor. Há abobrinha, couve, alface, rabanete, mandioca, couve-flor e aquelas pimentas vistosas que parecem ter sido escolhidas uma a uma pela natureza para enfeitar a banca.
Tem abacaxi, melancia, mamão, laranja e limão.
Tem queijo colonial, leite natural, doces, banha de porco, frango caipira e semi-caipira, ovos e carnes para o churrasco do domingão. Tem peixe grande e pequeno, de rio ou de tanque. Tem flores e folhagens, roupas e artigos importados. Tem praticamente de tudo.
Só não se vende alegria e bom-humor. Esses são de graça.
A cidade cabe na Feira
A Feira do Produtor do Centro é realizada às quartas-feiras e aos domingos. Mas é no domingo que ela se transforma em uma espécie de grande praça pública de Tangará da Serra.

Feira do Centro aguarda bom público neste domingo.
Segundo a Associação dos Feirantes de Tangará da Serra (ASFET), a estimativa é de que seis mil pessoas ou mais passem pelo local em um domingo.
Se o número impressiona, mais interessante ainda é observar quem são essas pessoas.
Famílias inteiras ocupam a praça de alimentação. Amigos se reencontram. Gente que não se vê durante a semana encontra-se diante de um pastel, de uma pamonha ou de um cafezinho. O cidadão que saiu da balada ainda de madrugada passa por ali antes de ir para casa. O trabalhador que levantou cedo chega para comprar os produtos da semana. A família chega com as crianças. E todos circulam pelo mesmo espaço.

Na Feira, as diferenças sociais parecem perder importância por algumas horas.
Não existe o “doutor” de um lado e o trabalhador do outro. Não existe o empresário, o servidor público, o produtor rural, o comerciante, o aposentado ou o estudante.
Existe, tão somente, o tangaraense.
Ou, melhor dizendo, existe o cidadão que faz parte da vida de Tangará da Serra.
É ali, entre uma banca de hortaliças e uma mesa da praça de alimentação, que a cidade conversa consigo mesma.
Discute-se política. Comenta-se futebol. Fala-se de negócios.

Conta-se uma novidade. Pergunta-se pela saúde de alguém.
E, quando ninguém sabe exatamente como a história começou, ela já está circulando pela Feira. É a velha e eficiente “rádio-peão”.
Aliás, talvez nenhuma tecnologia tenha conseguido superar a velocidade de uma boa conversa de feira.
Pamonha, pastel e conversa fiada
A gastronomia também ajuda a explicar esse fenômeno.
Tem pamonha. Tem tapioca. Tem pastel. Tem bolinho de carne. Tem esfirra. Tem risole de carne e queijo. Tem enroladinho de salsicha. Tem café. Tem caldo de cana. Tem suco de laranja.
E tem aquela decisão difícil diante da barraca: “Vou só tomar um café.”
Minutos depois, aparece o pastel. Depois, a pamonha. E talvez mais um caldo de cana.
Porque (com licença) domingo é domingo!
A praça de alimentação é quase um laboratório de convivência social. Gente que chegou apenas para comprar tomate acaba ficando para conversar. Quem veio tomar café encontra um amigo. Quem encontrou um amigo encontra outro.
E a Feira vai ficando cheia.
Para quem vem de fora, a cena costuma causar surpresa. Quem visita a Feira pela primeira vez talvez imaginasse que encontraria apenas um mercado popular. Não encontrou! Encontrou um dos lugares onde Tangará da Serra mais se reconhece.
A Feira muda, mas não perde sua essência
E enquanto a cidade compra, conversa, come e circula, a própria Feira está mudando.
O espaço passa por uma obra de reforma e modernização. A nova sede administrativa já avançou para uma etapa bastante visível: a laje foi concretada, inclusive com a solução de isolamento térmico e acústico, e agora a estrutura se prepara para receber o segundo pavimento.

A obra faz parte de um projeto de modernização do espaço, que prevê uma nova estrutura administrativa, recepção, salas, auditório, elevador, sanitários acessíveis, modernização da rede elétrica, iluminação em LED e uma nova praça de alimentação. A primeira etapa tem investimento de R$ 1,9 milhão.
“É uma transformação necessária”, observa o presidente da Asfet, Valdeci Ferraz Aquino.
Mas há algo que nenhuma reforma deveria mudar: a essência da Feira.
Porque pode mudar o prédio. Pode mudar o piso. Podem mudar os boxes.
Pode ganhar uma nova administração, uma nova rede elétrica, uma nova praça de alimentação e uma estrutura mais moderna.
Mas o que faz a Feira ser a Feira não está no concreto. Está nas pessoas. Está no produtor que chega cedo. Na dona da banca que conhece pelo nome o cliente antigo. No cheiro da pamonha. Na pimenta recém-colhida. No queijo colonial. No cafezinho servido quente.
Na família que chega cedo. No boêmio que ainda não foi dormir. Na conversa atravessada entre uma compra e outra. No amigo que aparece depois de meses sem ser visto. Na notícia que chega antes pela boca de alguém do que pelas redes sociais.
E, claro, naquela sensação de que, por algumas horas, todo mundo pertence ao mesmo lugar.
Um retrato de Tangará
Tangará da Serra cresceu. Tornou-se uma cidade grande do interior, polo regional, com novos bairros, novos empreendimentos, novos hábitos e uma economia cada vez mais diversificada.
Mas há coisas que o crescimento não deveria (e nem vai) levar embora.
A Feira é uma delas.

Porque ela mantém viva uma ligação que está na própria origem de Tangará: a relação entre cidade e campo, entre quem produz e quem consome, entre a agricultura familiar e a vida urbana.
É também um daqueles raros lugares em que a cidade consegue se olhar no espelho sem maquiagem.
Ali está o Tangará trabalhador. O Tangará empreendedor. O Tangará rural. O Tangará urbano. O Tangará que acorda cedo e o que vai dormir tarde.
Está o Tangará que fala de política com convicção, mesmo quando não entende muito do assunto. O Tangará que sabe de tudo um pouco. O Tangará que sempre conhece alguém que conhece alguém que sabe o que realmente aconteceu.
É o Tangará das histórias, dos encontros e dos sabores.
Por isso, a Feira do Produtor do Centro é muito mais do que um ponto de comercialização da agricultura familiar.
É um ponto de encontro. É um espaço de convivência.
É tradição. É memória. É presente.
E, de certa forma, é também uma fotografia em movimento da cidade.
Uma fotografia que começa a ser revelada ainda no escuro, quando os primeiros feirantes chegam. E que ganha todas as cores quando o sol aparece sobre Tangará da Serra.
Neste domingo, a Feira estará lá novamente.
E, sobretudo, estará lá aquilo que nenhum projeto de engenharia consegue colocar em uma planta baixa:
a cara de Tangará da Serra.