TANGARÁ DA SERRA
Pesquisar
Close this search box.

Agronegócio & Produção

Entre o clima atípico e a soberania dos insumos: os desafios do agro em Mato Grosso

Publicado em

O agronegócio mato-grossense encerra o mês de junho sob o impacto de dois temas que, embora distintos, convergem para a mesma preocupação: a segurança e a previsibilidade da produção. De um lado, chuvas atípicas em pleno mês de junho ameaçam a qualidade da colheita do algodão; do outro, o anúncio de estudos da Petrobras para dobrar a produção nacional de fertilizantes reacende o debate sobre a histórica dependência externa brasileira de insumos estratégicos.

Os temas são abordados na coluna “Circuito Rural”, do jornalista mato-grossense especializado em agronegócio Olmir Cividini, de Tangará da Serra.  

Chuvas em junho: o alerta na colheita do algodão

Mato Grosso, que cultivou cerca de 1,4 milhão de hectares de algodão nesta safra, foi surpreendido por episódios climáticos fora do padrão para esta época do ano. Antes dessas chuvas, a expectativa de produtividade média era de 304 arrobas por hectare, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA). No entanto, acumulados superiores a 20 milímetros em diversas regiões produtoras colocam em risco a qualidade da fibra e dificultam a entrada de maquinário em campo.

Leia mais:  Chuva irregular e possível estiagem antecipada deixam produtor em alerta no MT

A colheita do algodão é uma fase extremamente sensível à umidade. O excesso de chuva não apenas atrasa o cronograma, mas pode provocar o escurecimento da fibra e a proliferação de doenças, impactando diretamente o valor de mercado do produto. Levantamentos técnicos ainda estão sendo realizados para mensurar o tamanho real do prejuízo, mas o alerta já está ligado para o produtor, que vê no clima um fator que foge completamente ao seu controle.

Fertilizantes: dependência que preocupa

Enquanto o campo lida com o clima, em Brasília e no Rio de Janeiro, a pauta é a soberania nacional. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou recentemente que solicitou estudos para dobrar a capacidade nacional de produção de fertilizantes. Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes utilizados em sua agricultura, uma vulnerabilidade estratégica que ficou evidente com as recentes crises globais.

A análise histórica é reveladora: nas últimas cinco décadas, a produção brasileira de soja saltou de 9 milhões para 180 milhões de toneladas — um crescimento de quase 2.000%. Se o país sabia que sua agricultura crescia nesse ritmo, por que optou por importar a maior parte dos insumos em vez de ampliar sua própria capacidade produtiva? A resposta passa por investimentos elevados, necessidade de gás natural a preços competitivos e infraestrutura logística. Por muito tempo, foi economicamente mais vantajoso importar do que fabricar internamente.

Leia mais:  MT completa 30 anos sem febre aftosa; sanidade do rebanho é fundamento de mercado

Soberania vs. custo imediato

O problema é que a lógica econômica nem sempre coincide com a lógica estratégica. O Brasil já alcançou a autossuficiência na produção de petróleo bruto em 2006, mas ainda importa combustíveis porque a capacidade de refino não acompanhou a demanda. Com os fertilizantes, o desafio é semelhante. Até que ponto determinadas cadeias produtivas devem ser analisadas apenas pela ótica do custo imediato? Em casos de insumos estratégicos, a segurança de abastecimento e a soberania nacional podem justificar investimentos que, à primeira vista, não parecem os mais rentáveis, mas que garantem a sustentabilidade da maior potência agrícola do planeta.

Olmir Cividini é jornalista e colunista do Enfoque Business em Tangará da Serra.

(*) Ouça o Circuito Rural na íntegra no áudio abaixo:

Comentários Facebook
Advertisement

Agronegócio & Produção

Chuva irregular e possível estiagem antecipada deixam produtor em alerta no MT

Published

on

Cenário de El Niño pode atrasar a soja 2026/27 e reduzir a janela para milho safrinha e algodão em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis

O plantio da soja 2026/27 avança lentamente em Mato Grosso, enquanto produtores aguardam maior segurança climática para colocar as sementes no solo. Na edição de 30 de setembro da coluna Circuito Rural, o jornalista Olmir Cividini informou, com base em dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), que pouco mais de 4% da área prevista, de aproximadamente 13 milhões de hectares, havia sido semeada até o fim de setembro. O índice está cerca de dois pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.

A cautela está relacionada à atuação do El Niño e à possibilidade de períodos de estiagem. Embora as chuvas estejam retornando a Mato Grosso, a distribuição ainda é irregular e nem todas as regiões receberam volume e sequência suficientes para garantir a germinação e o estabelecimento das lavouras.

O cenário merece atenção especial em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis, onde estão importantes polos agrícolas, como Campo Novo do Parecis e Sapezal. Para essas áreas, o último trimestre de 2026 pode combinar calor acima da média, precipitações mal distribuídas e maior risco nas decisões de início da safra.

Melhoras na segunda metade de outubro

Os institutos meteorológicos indicam pancadas de chuva nos próximos dias, inclusive com possibilidade de precipitações mais fortes em algumas localidades. Os volumes, porém, podem variar significativamente entre municípios e propriedades.

A expectativa apontada na coluna é de que a regularidade das chuvas apresente sinalização mais confiável somente na segunda metade de outubro. Ainda assim, os modelos climáticos indicam possibilidade de um último trimestre com precipitações abaixo da média em Mato Grosso.

Outubro aparece como mês de transição e irregularidade. A umidade começa a retornar, mas as pancadas da primeira quinzena podem ser isoladas, enquanto as temperaturas permanecem elevadas, com máximas entre 38°C e 40°C em vários pontos. Em novembro, o período chuvoso tende a se firmar, embora ainda possam ocorrer falhas. Dezembro deve concentrar volumes mais consistentes, mas com temperaturas acima do padrão histórico.

Leia mais:  Chuva irregular e possível estiagem antecipada deixam produtor em alerta no MT

Calor intenso e baixa umidade aumentam a evapotranspiração, o estresse térmico das plantas e o risco de queimadas e incêndios florestais, além de dificultarem o estabelecimento inicial das lavouras.

Escalonamento como solução

O principal risco para o produtor é iniciar o plantio após uma chuva isolada e enfrentar, em seguida, um período de sol forte e ausência de precipitações. O chamado veranico pode reduzir a umidade do solo, prejudicar a germinação, provocar a morte de sementes e comprometer o desenvolvimento das plântulas.

O escalonamento da semeadura pode reduzir essa exposição. Em vez de concentrar toda a operação após a primeira chuva, o produtor pode distribuir o plantio e acompanhar a consolidação da umidade no perfil do solo, com apoio de orientação técnica e das atualizações dos órgãos de pesquisa e monitoramento.

A estratégia ganha importância em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis, onde perdas de estande ou necessidade de replantio podem pressionar o calendário e elevar os custos de produção.

Pressão na segunda safra

A coluna também chamou atenção para a possibilidade de a estiagem começar mais cedo em 2027, especialmente entre o fim de março e o início de abril.

A hipótese está associada a determinados comportamentos do El Niño e não constitui uma previsão fechada. Em anos com esse padrão climático, abril, normalmente marcado pela transição entre o período chuvoso e o seco em Mato Grosso, pode apresentar comportamento mais seco.

No campo, a data de 30 de abril também representa o encerramento da janela ideal de plantio do milho safrinha,

“Clima não é relógio e não permite previsões tão simples”, ponderou Cividini. Ainda assim, a possibilidade precisa entrar no planejamento, principalmente porque um eventual atraso na soja pode empurrar a colheita e estreitar a janela de plantio do milho safrinha e do algodão.

Uma segunda safra implantada mais tarde ficaria mais exposta à redução das chuvas no outono, com possíveis reflexos sobre produtividade, replantio, custos e cumprimento de contratos de comercialização.

Leia mais:  MT completa 30 anos sem febre aftosa; sanidade do rebanho é fundamento de mercado

Logística interfere

O desempenho do agronegócio regional não depende apenas da produção dentro da porteira. A coluna também destacou o trabalho da Comissão de Logística da Aprosoja Mato Grosso, que percorreu mais de 8 mil quilômetros pelo Estado para identificar pontos críticos, acompanhar obras e verificar as condições das rodovias, inclusive das concedidas à iniciativa privada.

Entre os problemas relatados estão falhas na conservação do pavimento, sinalização deficiente, drenagem inadequada e excesso de vegetação nas margens, comprometendo a visibilidade em acessos e trechos de circulação.

A comissão produziu dez relatórios, encaminhados à Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), conforme a responsabilidade de cada trecho.

Para regiões produtoras como Tangará da Serra e o Chapadão dos Parecis, a combinação de clima irregular e estradas problemáticas pode ampliar os riscos. Atrasos no plantio, colheita concentrada, transporte de grãos e chegada de insumos exigem planejamento logístico.

Como resumiu Cividini na coluna, “no campo, a produção começa com a semente, mas o resultado econômico termina na estrada”.

Monitoramento será decisivo

O cenário para o último trimestre de 2026 recomenda planejamento, não paralisação. O produtor deverá acompanhar previsões atualizadas, umidade do solo e condições locais, considerando que chuvas de verão podem apresentar diferenças significativas mesmo entre áreas próximas.

A organização de máquinas, sementes, insumos e mão de obra será importante para aproveitar as janelas de umidade quando elas se confirmarem. Práticas de conservação do solo e manejo que favoreçam a retenção de água também podem reduzir os efeitos de períodos curtos de estiagem.

Para o agronegócio de Tangará da Serra e do Chapadão dos Parecis, o ponto central é não confundir a primeira chuva com o início definitivo da estação. Com o El Niño no radar, o plantio escalonado, a leitura das condições do solo e a atenção ao calendário da segunda safra podem ajudar a limitar perdas e preservar o potencial produtivo.

Ouça o Circuito Rural na íntegra:

Comentários Facebook
Continue Reading

Envie sua sugestão

Clique no botão abaixo e envie sua sugestão para nossa equipe de redação
SUGESTÃO

Empresas & Produtos

Economia & Mercado

Contábil & Tributário

Governo & Legislação

Profissionais & Tecnologias

Mais Lidas da Semana