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Opinião

As eleições e a urgência em se entender o que são fake news

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Autoria: Luciana Oliveira Pereira – Cuiabá/MT

Estamos há menos de sete meses das eleições e hoje já sabemos como o uso de notícias falsas pode impactar o resultado das urnas, além disto, muitos comportamentos têm sido alterados a partir da adesão da população à desinformação, notadamente nesta pandemia que ainda nos atropela.

Estudos mostraram que o uso de medicamentos ineficazes, estimulados por fake news, geraram uma falsa proteção levando milhares de pessoas a adoecerem e até mesmo morrer pela contaminação da covid-19.

Vivemos num país com reconhecimento mundial pelo sucesso de suas campanhas de vacinação, mas que hoje apresenta baixa adesão à imunização, principalmente infantil, mesmo diante das provas de segurança e eficácia das vacinas.

Pais e até mesmo médicos defendem que as crianças não sejam vacinadas porque acreditam que elas correm perigo, depois que seus aplicativos de mensagem foram inundados de notícias falsas, alegando que as vacinas são “experimentais” e estão matando crianças. Mesmo diante da realidade que mostra essas vacinas sendo utilizadas por milhares de crianças e adolescentes no mundo todo, sem efeitos mais graves ou a morte de alguma delas.

A utilização de notícias mentirosas ou distorcidas não é um fenômeno novo, remonta ao final do século XIX, mas com as novas tecnologias de comunicação e sua capacidade vertiginosa de propagação, as fake news ganharam maior popularidade. Aliada a isso, temos que ressaltar que o modo atual de fazer política, a partir da destruição de reputações, vem ganhando cada vez mais espaço.

O debate de ideias e à apresentação de propostas, que buscam transformar ou solucionar os problemas sociais, perdeu espaço para a desqualificação pessoal, para a criação de um vilão x herói e, para isso, as fake news são as principais armas. Com as redes sociais como caminho, elas são as ferramentas que possibilitam que milhares de pessoas, em espaços geográficos muito distantes, recebam a mesma mensagem – mentirosa, distorcida ou descontextualizada, de forma eficaz e sem precedentes.

Experiências em diversos países mostram que a utilização de fake news para manipular comportamentos e destruir reputações, altera a disputa política e isto tem contribuído para que essa estratégia seja cada vez mais utilizada.

Em levantamento realizado pela agência de checagem “Aos Fatos”, divulgado em janeiro, foi contabilizado que o presidente do nosso país emitiu uma média de sete declarações falsas ou distorcidas por dia, só no ano passado. Foram 2.516 falas com informações sem base na realidade, sendo mais da metade relacionadas à covid-19, além daquelas relacionadas à economia e as eleições, inclusive, fomentando o voto impresso e desacreditando a eficiência das urnas eletrônicas. Isso mostra a institucionalização do uso de fake news como uma política de comunicação do governo. E, vindo da maior instância, serve de exemplo para toda a população. Então, o que podemos esperar nas próximas eleições?

É relevante ressaltar que o estrago imediato gerado por uma notícia falsa demanda tempo para ser sanado, inclusive, mesmo quando as notícias são desmentidas, o tempo de resposta é mais lento porque exige apuração de fatos e trabalho jornalístico especializado, e, como as fake news operam através da mobilização de emoções primitivas, como o medo e a raiva, elas plantam dúvidas e insegurança nas pessoas, mobilizam suas crenças e geram uma alteração de comportamento, que dificulta a mudança rápida no estado íntimo delas.

As fake news normalmente são construídas com sensacionalismo e buscam chocar o leitor, mandando que ele a compartilhe. Elas são divulgadas em aplicativos de mensagem sem apresentação de fonte ou autoria, normalmente têm erros de português e quando se utilizam de links de site, estes não são os já estabelecidos, muitas vezes se utilizam de logomarcas parecidas com as de sites de notícias para enganar o leitor.

As milícias digitais, termo que designa os criadores e propagadores de fake news, também se utilizam de sites criados especialmente para disseminar desinformação, sítios que normalmente só mostram uma abordagem “ideológica” ou ponto de vista, não apresentando o fato de forma imparcial ou isento, como o trabalho jornalístico exige, ou seja, sem pontos de vista de fontes confiáveis e nem apresentando o contraditório, para a formação de opinião pelo leitor.

Mas as fake news não tem apenas objetivos políticos, elas também podem criar boatos e disseminar determinados pensamentos para prejudicar empresas, pessoas, formadores de opinião, celebridades, além disto, há que se analisar o aspecto comercial delas, pois muitas são criadas para atrair acessos e faturar com publicidade digital.

Importante destacar também que além de trabalhar com a emoção das pessoas, as notícias falsas são criadas com elementos de verdade, ou seja, usam um fato real, mas descontextualizado, algo antigo ou modificado para que obtenha o resultado esperado. Isso dificulta a leitura correta da “vítima” – porque as pessoas se tornam vítimas das mentiras, elas são enganadas, de toda forma os dados sempre acabam sendo contraditórios e, é importante que as pessoas consigam fazer essa leitura.

Se observarmos, por exemplo, as notícias falsas contra as vacinas da covid-19: elas alegam que não há “evidências científicas” para sua utilização ou mostram “dados” de que houve pessoas que morreram ou tiveram problema com seu uso, mas essa contestação é normalmente feita através de dados científicos – falsos, alterados ou com depoimento de médicos, que foram tecnicamente formados por arcabouço científico. Assim as fake news contestam a ciência, utilizando-se da própria ciência para desqualificá-la, veja a contradição!

E por que é preciso detalhar isso? Porque é essencial que a população tenha capacidade de distinguir entre uma notícia real e uma falsa para não continuar sendo manipulada.

Enquanto as pessoas brigas e se dividem, criando separação e mesmo isolamento em bolhas, com as quais se identificam através de seus medos, inseguranças, preconceitos, crenças e frustrações, servem ao estabelecimento de poderes políticos e grupos econômicos que as manipulam.

E essa manipulação é possível devido ao conhecimento de seus perfis, através do uso de suas próprias informações pessoais, disponibilizadas em suas páginas pessoais, através de seus likes, comportamentos de compra, entre outras ações realizadas no ambiente virtual, que são facilmente monitorados por aplicativos virtuais e utilizadas pelas milícias digitais.

Por tudo isso é tão importante que as pessoas entendam o que são as fake news e como elas são operadas; como detectar mentiras em seus aplicativos de mensagem; ou reconhecer sites confiáveis antes de sair compartilhando e divulgando mentiras.

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT) um dos principais pesquisadores dos fenômenos digitais, sediado nos Estados Unidos, mostra que a chance de uma notícia falsa ser compartilhada é 70% maior que uma notícia verdadeira. Isso sempre gera um grande prejuízo social.

Com vistas a uma eleição democrática, limpa e com maior equidade, recentemente o TSE firmou parceria com as agências de checagem que existem atualmente no Brasil e elaborou um planejamento estratégico que inclui monitoramentos, compromissos dos aplicativos e também divulgação de mensagens que ajudem a população a entender quando uma notícia é falsa ou não. Mas essa deve ser uma luta de toda sociedade, inclusive, dos partidos políticos e da própria imprensa, para que haja uma disputa eleitoral em níveis civilizatórios e, que de fato, o resultado das urnas, nas diferentes esferas de poder, represente a “vontade” da população e não a sua manipulação.

(*) A autora é jornalista em Cuiabá 

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Opinião

A Ômicron e a volta das crianças às aulas presenciais em Mato Grosso

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Autoria: Luciana Oliveira Pereira – Cuiabá/MT

Após o arrefecimento da pandemia, quando o número de contaminações pela Covid-19 havia diminuído drasticamente no mundo e também no Brasil, assistimos a uma explosão de casos em janeiro, formando um verdadeiro paredão no número de novos casos diários, com a chegada da variante Ômicron.

A variante já vinha gerando mudanças na condução da pandemia por toda Europa, inclusive, dando ao Brasil a oportunidade de preparar-se melhor para o que veria, uma vez que estamos num mundo em conexão, contudo, não houve maior atenção do poder público e nem um alerta à população. As festas de réveillon, viagens e aglomerações aconteceram sem maiores cuidados.

Mas as consequências estão ai, segundo dados do painel de monitoramento da Universidade Jonhs Hopkins (JH), que avalia a Covid pelo mundo, no Brasil saímos de 10.285 casos de contaminação em 30 de novembro de 2021, antes do “apagão de dados” do Ministério da Saúde, para 48.562 em 15 de janeiro e, 171.251 em 01 de fevereiro, um número até então jamais alcançado na pandemia.

E os números não param de subir, o positivo nisso tudo é que até agora a imunização vem freando o número de óbitos, mesmo ainda não atingindo uma taxa ideal, o que mostra sem equívocos a eficácia das vacinas, apesar do número de pessoas que ainda insiste em questionar a proteção que elas oferecem.

Aqui em Mato Grosso a situação não é diferente. Saímos de 220 casos de contaminação em 30 de novembro, para 1.453 em 15 de janeiro deste ano, e 5.327 novos casos em 01 de fevereiro, ou seja, estamos em uma escalada crescente.

Segundo o Boletim Epidemiológico N° 701, da Secretaria de Estado de Saúde neste ultimo dia 07 de fevereiro, 869 pessoas estão internadas, sendo 348 pacientes em enfermaria e 305 em UTI. O informe não traz o número de óbitos, mas pelo monitoramento JH foram 25 mortes.

Os dados da SES também não trazem especificamente o número de crianças internadas, mas podemos tentar contabilizá-las pelo gráfico de sexo e faixa-etária, que separa crianças até 5 anos; de 6 a 10 anos e, de 11 a 20 anos, com uma somatória de 53 internações. Já o número de crianças em UTI é sete, sendo que temos apenas 10 leitos pediátricos no sistema, ou seja, a taxa de ocupação está em 70%. É importante que haja mais transparência nestes dados infantis.

E por que elencamos todos estes dados? Porque o retorno ás aulas totalmente presenciais exigem muito cuidado de pais e da comunidade escolar. Estando num momento de maior contaminação pandêmica; apenas iniciamos a vacinação de crianças; há muita resistência por parte dos pais para levá-las para a primeira dose e, sabendo que as crianças não estão isentas de desenvolverem sequelas da Covid, ao mesmo tempo, serem vetores da doença, há que se repensar essa retomada de aulas em grande escala.

No último dia 27 de janeiro, o Conselho Nacional de Educação (CNE) emitiu Nota de Esclarecimento considerando a necessidade de retorno à presencialidade para as atividades de aprendizado, contudo, ela recomendou que nas localidades com elevadas taxas de contágio, as redes e instituições de ensino decidam pelo adiamento da volta às aulas ou pela continuidade de oferta de aprendizado remoto. Não há uma “obrigatoriedade” de ensino presencial para todos, como alguns têm propagado.

Fica a cargo de cada município a decisão, observadas as taxas de transmissão e números de caso de Covid-19.

“Os sistemas de ensino estabelecerão critérios para a tomada de decisão acerca da necessidade de suspensão temporária da presencialidade, mesmo que de forma parcial, bem como de eventual realização de nova gestão do calendário, sobretudo no que concerne à sua forma de organização, realização ou reposição de atividades acadêmicas e escolares“, explica o documento. Inclusive, para crianças infectadas ou do grupo de risco há que se ofertar o ensino remoto.

E por que isso está em pauta? Porque se observarmos os dados de um ano atrás (2021), quando as restrições e, não só as escolares estavam sendo utilizadas, tínhamos em Mato Grosso, no dia 07 de fevereiro, 416 casos, contra os 3.341 atuais.

Eram 529 pessoas em enfermaria (taxa de 22,39% de ocupação), mas haviam 2.363 leitos; 434 pessoas em UTI (taxa de ocupação de 58.73%), sendo 756 leitos UTI e, nove crianças em UTI, mas haviam 15 leitos pediátricos disponíveis, segundo dados do Boletim Epidemiológico N° 336. Agora são apenas 10 leitos.

Apesar do número de internações atual ser menor do que há um ano, o número das contaminações segue alto e em crescimento e, os leitos disponíveis para ambas as situações, foi diminuído. Não sabemos como essa combinação vai acabar! Outro dado importante de um ano atrás, é que somavam 7.625 pessoas em isolamento, um contraste enorme com as mais de 28 mil em monitoramento agora. São praticamente quatro vezes mais casos!

Ademais, de acordo com dados das Secretarias de Estado de Saúde do país, disponibilizadas ontem (07), sobre o ranking de vacinação infantil, Mato Grosso aparece entre os três últimos estados na corrida vacinal, com apenas 2% das crianças com a primeira dose, o que é um absurdo!

De acordo com especialistas o momento não é para o retorno. Em recente entrevista o Dr. Miguel Nicolelis, médico e neurocientista, professor da Universidade de Duke, nos EUA, declarou:

“Não há risco aceitável com crianças. Ninguém sabe como sequelas crônicas deixadas pela Ômicron podem afetar crianças infectadas. É um absurdo sem precedentes reabrir escolas. Com transmissão muito menor na primeira onda, elas foram fechadas. Qual a lógica de permitir sua reabertura agora?“.

Segundo um estudo do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo43% das crianças internadas com Covid-19 continuam sofrendo efeitos prolongados da Covid, por pelo menos três meses, após a alta hospitalar.

Ninguém questiona a importância da educação e da socialização escolar, mas diante de tal situação, há que se ter bom senso. Cabe os gestores públicos darem a opção às famílias, que assim quiserem e puderem, de manter seus filhos em casa através do sistema híbrido. Isso contribuiria sobremaneira para a diminuição da circulação de crianças e o aumento do número de casos, pelo menos até que a onda de casos esteja em patamares menores. O nível de internações dos mais idosos está alto, assim como um salto nunca visto, entre as crianças.

Os municípios de Alta Floresta e Rondolândia optaram por suspender o retorno. Na última sexta-feira (04) o município de Tangará da Serra, também fez essa opção já que o número de profissionais nas escolas está reduzido, pois um grande contingente está infectado e afastado. Em Cuiabá também há relatos de professores afastados nas escolas privadas.

Além disso, cabe aos pais levarem seus filhos para vacinar. Infectados pela desinformação, apesar das diversas demonstrações da eficácia e segurança das vacinas, muitos ainda resistem em proteger seus filhos. As vacinas não chipam ninguém, não transformam as pessoas em animais ou mudam seu DNA, isso são fake news – um desserviço à sociedade que já matou muitas pessoas nesta pandemia. A Ômicron tem afetado profundamente os “não vacinados” e não podemos deixar as crianças engrossando essa fila.

Assim como todas as outras vacinas, as de agora são aprovadas e estão sendo utilizadas pelo mundo com sucesso e mais, estão disponíveis aqui para a Saúde da população. Quanto mais pessoas imunizadas, menos espaço à circulação do vírus.

Estamos cansados da pandemia, mas é preciso encará-la com maturidade e assumir a responsabilidade individual pelo seu término. As pessoas querem que ela acabe, mas o que estão fazendo para que isso ocorra? A Covid-19 é uma doença coletiva, depende da atuação de cada pessoa, somente quando todos tiverem comportamentos de auto cuidado, incluindo a vacinação e senso coletivo, sairemos desse estado de coisas.

(*) Luciana Oliveira Pereira é jornalista em Cuiabá

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