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Agronegócio & Produção

Ureia boliviana surge como alternativa para o agro em Mato Grosso na crise global de fertilizantes

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As tensões no Oriente Médio, somadas ao conflito entre Rússia e Ucrânia, no Leste Europeu, tem provocado efeitos em cadeia na economia global. Entre os reflexos mais imediatos estão a escalada dos preços do petróleo e os sinais de instabilidade nos mercados internacionais.

Em maio de 2026, o petróleo tipo Brent oscila entre US$ 106,55 e US$ 118,35 por barril, enquanto o WTI (West Texas Intermediate) se mantém próximo de US$ 98,88. A valorização da commodity impacta diretamente os custos logísticos e a produção de fertilizantes nitrogenados, insumos essenciais para a agricultura.

Instabilidade no Oriente Médio reflete diretamente na economia mundial, em especial no agronegócio brasileiro.

Embora distante dos epicentros dos conflitos, o Brasil sente os efeitos, especialmente no agronegócio. O país depende fortemente da importação de fertilizantes — cerca de 95% dos nitrogenados consumidos são adquiridos no exterior. Tradicionalmente, Rússia, Oriente Médio e, em menor escala, a Ucrânia figuram entre os principais fornecedores. No atual cenário, entretanto, restrições comerciais agravam o quadro:

  • A Rússia prorrogou limites de exportação de fertilizantes minerais até novembro de 2026 e suspendeu licenças para nitrato de amônia em março;
  • A China adotou, em abril, novas restrições à exportação de ureia e NPK, priorizando o abastecimento interno;
  • No Oriente Médio, a instabilidade regional afeta rotas logísticas e a produção, comprometendo a oferta de nitrogenados.

Com isso, os fertilizantes — que podem representar até 40% do custo total de produção — pressionam ainda mais a rentabilidade do produtor.

Bolívia como alternativa logística

Diante desse cenário, ganha relevância uma alternativa regional: a ureia produzida na Bolívia. Em sua coluna “Circuito Rural”, o jornalista Olmir Cividini destacou recentemente a proximidade geográfica como fator estratégico.

Na região de Cochabamba, a Bolívia mantém uma planta industrial com capacidade de produção de cerca de 2.100 toneladas diárias de ureia. A distância aproximada de 1.300 quilômetros até Cáceres (MT) representa vantagem logística significativa frente às rotas marítimas tradicionais.

MT e Bolívia: Integração em pauta

A viabilidade dessa alternativa tem avançado com iniciativas de integração regional. Em abril de 2026, a visita do governador eleito do departamento de Santa Cruz, Juan Pablo Velasco, marcou o início de uma nova etapa nas relações comerciais com Mato Grosso, com foco na estruturação de corredores logísticos.

Dois eixos se destacam:

  • Vila Bela da Santíssima Trindade (MT) – San Ignacio de Velasco (Bolívia): prevê a pavimentação de aproximadamente 150 km da MT-199, conectando o estado a portos do Pacífico, como Arica e Iquique (Chile) e Ilo (Peru).
  • Cáceres (MT) – San Matías (Bolívia): proposta de pavimentação de cerca de 300 km, consolidando Cáceres como hub logístico, favorecido pela presença de estrutura aduaneira e de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE).

Esses corredores bioceânicos, integrados ao projeto “Corazón de Sudamérica”, podem reduzir custos de transporte rodoviário em até 40%, além de encurtar prazos logísticos.

Produção, custos e rentabilidade da safra 2026

Para a safra 2025/26, Mato Grosso deve manter sua posição de liderança nacional na produção de grãos. Projeções baseadas em dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) indicam produtividade média da soja entre 62 e 66 sacas por hectare, dependendo das condições climáticas ao longo do ciclo.

Considerando preços médios projetados na faixa de R$ 115 a R$ 125 por saca, o faturamento bruto por hectare pode variar entre R$ 7.100 e R$ 8.200.

Por outro lado, os custos totais de produção (COE + COT), ainda segundo o IMEA, devem permanecer elevados, situando-se entre R$ 5.800 e R$ 6.500 por hectare antes do escoamento da produção. Nesse cenário, a margem operacional tende a ficar entre R$ 1.300 e R$ 2.000 por hectare, evidenciando compressão frente a ciclos anteriores, principalmente em função dos fertilizantes e defensivos.

Custo do frete pressiona resultado

Além dos custos de produção, o frete segue como variável crítica. Levantamentos recentes do IMEA apontam que o transporte rodoviário da soja de regiões produtoras do médio-norte de Mato Grosso até portos como Santos (SP) ou Miritituba (PA) deve variar entre R$ 350 e R$ 500 por tonelada em 2026, dependendo da rota, da sazonalidade e do preço do diesel.

Esse valor pode representar entre 15% e 25% do valor bruto da produção, reduzindo significativamente a margem líquida do produtor. A adoção de rotas mais curtas e integradas, como as alternativas via Bolívia e corredores bioceânicos, tende a ganhar importância estratégica.

Perspectivas

A ampliação da relação comercial entre Mato Grosso e a Bolívia, somada aos investimentos em infraestrutura, aponta para um novo arranjo logístico regional. Nesse contexto, a ureia boliviana surge como alternativa para reduzir custos, aumentar a previsibilidade no abastecimento e mitigar os efeitos da instabilidade global.

A consolidação desses corredores poderá redefinir a competitividade do agronegócio mato-grossense nos próximos anos, especialmente em um cenário de custos elevados e margens mais estreitas.

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Agronegócio & Produção

Entre o clima atípico e a soberania dos insumos: os desafios do agro em Mato Grosso

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O agronegócio mato-grossense encerra o mês de junho sob o impacto de dois temas que, embora distintos, convergem para a mesma preocupação: a segurança e a previsibilidade da produção. De um lado, chuvas atípicas em pleno mês de junho ameaçam a qualidade da colheita do algodão; do outro, o anúncio de estudos da Petrobras para dobrar a produção nacional de fertilizantes reacende o debate sobre a histórica dependência externa brasileira de insumos estratégicos.

Os temas são abordados na coluna “Circuito Rural”, do jornalista mato-grossense especializado em agronegócio Olmir Cividini, de Tangará da Serra.  

Chuvas em junho: o alerta na colheita do algodão

Mato Grosso, que cultivou cerca de 1,4 milhão de hectares de algodão nesta safra, foi surpreendido por episódios climáticos fora do padrão para esta época do ano. Antes dessas chuvas, a expectativa de produtividade média era de 304 arrobas por hectare, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA). No entanto, acumulados superiores a 20 milímetros em diversas regiões produtoras colocam em risco a qualidade da fibra e dificultam a entrada de maquinário em campo.

A colheita do algodão é uma fase extremamente sensível à umidade. O excesso de chuva não apenas atrasa o cronograma, mas pode provocar o escurecimento da fibra e a proliferação de doenças, impactando diretamente o valor de mercado do produto. Levantamentos técnicos ainda estão sendo realizados para mensurar o tamanho real do prejuízo, mas o alerta já está ligado para o produtor, que vê no clima um fator que foge completamente ao seu controle.

Fertilizantes: dependência que preocupa

Enquanto o campo lida com o clima, em Brasília e no Rio de Janeiro, a pauta é a soberania nacional. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou recentemente que solicitou estudos para dobrar a capacidade nacional de produção de fertilizantes. Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes utilizados em sua agricultura, uma vulnerabilidade estratégica que ficou evidente com as recentes crises globais.

A análise histórica é reveladora: nas últimas cinco décadas, a produção brasileira de soja saltou de 9 milhões para 180 milhões de toneladas — um crescimento de quase 2.000%. Se o país sabia que sua agricultura crescia nesse ritmo, por que optou por importar a maior parte dos insumos em vez de ampliar sua própria capacidade produtiva? A resposta passa por investimentos elevados, necessidade de gás natural a preços competitivos e infraestrutura logística. Por muito tempo, foi economicamente mais vantajoso importar do que fabricar internamente.

Soberania vs. custo imediato

O problema é que a lógica econômica nem sempre coincide com a lógica estratégica. O Brasil já alcançou a autossuficiência na produção de petróleo bruto em 2006, mas ainda importa combustíveis porque a capacidade de refino não acompanhou a demanda. Com os fertilizantes, o desafio é semelhante. Até que ponto determinadas cadeias produtivas devem ser analisadas apenas pela ótica do custo imediato? Em casos de insumos estratégicos, a segurança de abastecimento e a soberania nacional podem justificar investimentos que, à primeira vista, não parecem os mais rentáveis, mas que garantem a sustentabilidade da maior potência agrícola do planeta.

Olmir Cividini é jornalista e colunista do Enfoque Business em Tangará da Serra.

(*) Ouça o Circuito Rural na íntegra no áudio abaixo:

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