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Alimentação pode transformar comportamento de crianças autistas

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(*) Por: Carla de Deus

As políticas públicas voltadas às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) serão discutidas, nesta terça-feira, 8 de julho, na Câmara Municipal de Cuiabá em uma audiência pública. A iniciativa é um passo relevante diante da necessidade urgente de ampliar o olhar sobre os cuidados com autistas — entre elas, a alimentação, que ainda é tratada de forma secundária por muitos, apesar de seu impacto direto no comportamento, na saúde e na qualidade de vida.

A alimentação adequada pode e deve ser uma aliada no cuidado, principalmente com crianças autistas. A terapia nutricional é uma abordagem fundamental para o gerenciamento de sintomas do TEA, não apenas no aspecto físico, mas também emocional e comportamental. Essa prática envolve a definição de estratégias nutricionais personalizadas, sempre com base em uma abordagem humanizada e em princípios comportamentais. É preciso levar em consideração seletividade alimentar, introdução de novos alimentos, trocas inteligentes, educação alimentar e prevenção de carências nutricionais.

Nutricionista Carla de Deus.

É preciso entender que cada funcionamento cerebral é diferente. Por isso, o cuidado nutricional no TEA não pode ser padronizado. A equipe multidisciplinar precisa estar atenta ao comportamento da criança e avaliar, com sensibilidade, antes de aumentar medicações, por exemplo. É importante o mapeamento precoce de crises, hábitos alimentares e deficiências bioquímicas que pode fazer a diferença. Embora o autismo tenha uma base genética forte (em torno de 80%), há fatores ambientais que modulam a expressão desses genes — e a alimentação está entre os principais.

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Dados clínicos e relatos de famílias mostram que muitas crianças com TEA enfrentam carências importantes de vitaminas e minerais — entre eles, as vitaminas do complexo B, vitamina D, ferro, zinco e magnésio. Esses nutrientes são fundamentais para o funcionamento cerebral, a regulação do sono, do humor e da cognição. A deficiência de vitamina B12, por exemplo, pode causar apatia, irritabilidade e até atrasos na linguagem, enquanto a baixa de vitamina D está relacionada à piora de quadros inflamatórios, crises mais intensas e baixa imunidade. Exames laboratoriais são, portanto, indispensáveis para identificar essas deficiências e traçar estratégias nutricionais seguras e eficazes.

É importante destacar que a alimentação no TEA precisa ser individualizada e baseada em exames que indiquem com clareza como está o funcionamento metabólico da criança. Existem casos em que a dieta SGSC (sem glúten e sem caseína) pode ser indicada, especialmente quando há intolerâncias alimentares ou quadros inflamatórios associados. No entanto, essa dieta não deve ser adotada indiscriminadamente, sem orientação e monitoramento profissional, porque pode trazer prejuízos nutricionais se mal conduzida.

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Outro ponto fundamental é o apoio às mães atípicas, que muitas vezes enfrentam momentos de esgotamento emocional e dificuldade para lidar com a resistência alimentar dos filhos. O que começa como um cuidado pode facilmente se transformar em um campo de batalha à mesa. Por isso, é necessário acolher as famílias, propor metas viáveis e trabalhar com educação alimentar de forma lúdica, prática e afetuosa.

Ainda há muito desconhecimento sobre o autismo. Muitos insistem em tratá-lo como uma doença, quando, na verdade, trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento — que não exige cura, mas respeito, compreensão e suporte adequado.

A expectativa é que a audiência pública em Cuiabá seja um marco para a construção de políticas públicas mais eficientes, com foco na atenção multidisciplinar, inclusão de terapias nutricionais nos serviços públicos e acesso a exames e orientações nutricionais especializadas. Com acolhimento e estratégias certas, a alimentação pode deixar de ser um desafio diário e se tornar uma poderosa aliada no desenvolvimento e bem-estar de crianças autistas.

(*) Carla de Deus é nutricionista especializada em Transtorno do Espectro Autista (TEA)

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Conta de luz: a conta da má gestão chega ao consumidor

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O brasileiro trabalha, paga uma das maiores cargas tributárias do planeta e, mesmo assim, continua sendo chamado a cobrir os custos da ineficiência do Estado. Agora, a fatura vem mais uma vez pela conta de luz.

Levantamento da Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) estima que decisões adotadas entre janeiro de 2023 e maio de 2026 acrescentarão cerca de R$ 985 bilhões às tarifas de energia até 2050. O número impressiona não apenas pelo seu tamanho, mas pelo que representa: quase R$ 1 trilhão que sairá do bolso de famílias, produtores rurais, comerciantes, indústrias e prestadores de serviços.

O estudo aponta que esses custos decorrem de medidas provisórias, leis, leilões de energia, acordos administrativos e alterações legislativas aprovadas no período. Em outras palavras, não são despesas inevitáveis impostas pela natureza ou pelo mercado, mas consequências de decisões tomadas dentro da máquina pública.

A maior responsabilidade pela condução da política energética cabe ao Governo Federal. É o Executivo quem formula as políticas do setor, edita medidas provisórias, conduz o planejamento energético e negocia acordos que acabam repercutindo diretamente na tarifa. Quando esse planejamento produz sucessivos encargos repassados ao consumidor, é legítimo questionar a eficiência da gestão e a prioridade dada à modicidade tarifária.

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O Congresso Nacional também tem sua parcela de responsabilidade. Ao aprovar dispositivos estranhos ao tema original das propostas — os conhecidos “jabutis” — ou ao manter medidas que elevam custos permanentes do sistema, contribui para ampliar uma conta que, no fim, será paga por quem não participou dessas decisões.

O resultado é perverso. O consumidor financia subsídios, contratações compulsórias, acordos administrativos e novas obrigações do setor elétrico sem ter qualquer poder de escolha. A conta simplesmente chega.

A própria FNCE alerta que o modelo atual compromete a sustentabilidade do setor e exige uma reforma estrutural. O diagnóstico é claro: a sucessão de medidas pontuais, adotadas sem uma visão sistêmica, aumenta encargos, reduz a eficiência e pressiona continuamente as tarifas.

As consequências vão muito além da conta de energia. Energia mais cara significa produção mais cara. A indústria perde competitividade, o comércio repassa custos aos preços, o agronegócio vê sua estrutura operacional encarecer e as famílias reduzem ainda mais seu poder de compra. No fim da cadeia, a inflação encontra mais um combustível.

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O aspecto mais preocupante é a naturalização desse processo. Sempre que surge um novo custo no setor elétrico, a solução parece ser a mesma: transferi-lo ao consumidor. Pouco se discute a revisão de gastos, a melhoria da gestão, a eliminação de distorções regulatórias ou o aumento da eficiência administrativa. É muito mais simples transformar a conta de luz em instrumento de financiamento de decisões governamentais.

Governar também significa fazer escolhas difíceis, estabelecer prioridades e administrar recursos com responsabilidade. Quando quase R$ 1 trilhão em custos adicionais é projetado para as próximas décadas, a discussão deixa de ser meramente técnica e passa a ser uma questão de gestão pública.

O cidadão já cumpre sua parte ao pagar impostos. Não é razoável que continue sendo chamado, repetidamente, a financiar, por meio da tarifa de energia, decisões que poderiam ter sido evitadas ou conduzidas com maior rigor, planejamento e responsabilidade. A conta da luz não pode continuar sendo o destino automático da conta da má gestão.

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