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1º Fórum aponta caminho para organização do etnoturismo na “Grande Chapada dos Parecis”

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Evento reuniu lideranças indígenas, gestores públicos e representantes do setor para discutir a estruturação de uma atividade que envolve sete etnias e 33 aldeias em cinco municípios da região

O potencial do etnoturismo que existe entre Tangará da Serra, Barra do Bugres, Campo Novo do Parecis, Sapezal e Brasnorte começa a ganhar um contorno regional. Reunindo representantes de povos indígenas, gestores públicos, lideranças políticas, empreendedores e profissionais ligados ao turismo, o 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra, realizado nessa quinta-feira (20), colocou em debate um desafio que vai além da divulgação de destinos: organizar uma atividade que reúna cultura, território, natureza e geração de oportunidades sob princípios de planejamento, responsabilidade e sustentabilidade.

Grande Chapada dos Parecis: Nos cinco municípios, são sete etnias e 33 aldeias com potencial ou já habilitadas para a visitação.

A discussão parte da consolidação de um vasto território turístico identificado como Grande Chapada dos Parecis. Nos cinco municípios, são sete etnias e 33 aldeias com potencial ou já habilitadas para a visitação, formando um conjunto de atrativos cuja dimensão ainda é pouco conhecida pela própria sociedade regional.

O fórum foi realizado pelo Sebrae/MT, em parceria com a Prefeitura de Tangará da Serra e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e teve como local o auditório da 10ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Com mediação dos debates pela consultora credenciada do Sebrae-MT, Tatiane Fernandes, a programação reuniu número considerável de lideranças indígenas e representantes de comunidades localizadas nos municípios envolvidos, além de representantes dos poderes públicos e do setor empresarial, em especial do trade turístico. O prefeito de Tangará da Serra, Vander Masson, secretários municipais e vereadores marcaram presença no evento.

A coordenadora da Agência do Sebrae em Tangará da Serra, Sílvia Fraga de Souza, situou o encontro numa perspectiva de integração regional, conforme a proposta original do evento. “Todos ganham no desenvolvimento regional”, resumiu. Para ela, a própria lógica do turismo favorece a cooperação entre os territórios e os segmentos interrelacionados. “No turismo não existe concorrência, existem parcerias”, observou, ao destacar o etnoturismo como uma atividade de grande potencial e compatível com estratégias de desenvolvimento sustentável.

A percepção de que o fortalecimento de um destino pode beneficiar os demais municípios apareceu como um dos pontos centrais do debate. A proposta não é criar iniciativas isoladas, mas estabelecer conexões entre aldeias, municípios, rotas, empresas e serviços que possam, progressivamente, dar consistência à atividade.

Leia mais:  Fórum define prioridades para transformar potencial em etnoturismo organizado na região

Território em construção

A Grande Chapada dos Parecis reúne realidades distintas, mas conectadas por patrimônios culturais e ambientais relevantes e já reconhecidos. Em Barra do Bugres, são seis aldeias da etnia Umutina-Balatipone que podem receber visitação. Tangará da Serra, por sua vez, possui oito aldeias com potencial para a atividade, sendo cinco delas já habilitadas e outras três em processo de organização. Nestas, há predominância da cultura Haliti-Paresi.

Já Campo Novo do Parecis concentra seis aldeias voltadas à visitação e reúne presença das etnias Paresi, Nambikwara, Rikbaktsa e Myky. Os atrativos mais conhecidos são Ponte de Pedra e Utiariti. Sapezal conta com seis aldeias para visitação, incluindo comunidades da etnia Manoki, enquanto em Brasnorte são quatro aldeias com visitação autorizada, com destaque para a etnia Irantxe.

Essas estruturas, somadas, formam uma base inicial de 33 aldeias e sete etnias. O potencial, porém, não está restrito a um inventário de localidades. Os atrativos incluem rios preservados e de grande beleza cênica, territórios ancestrais, conhecimentos transmitidos entre gerações, manifestações culturais, histórias, sabores e saberes.

Rios e cachoeiras são apenas algumas das atrações nas aldeias na região da Grande Chapada dos Parecis.

É justamente essa diversidade que exige cautela na estruturação da atividade. O etnoturismo não pode ser compreendido simplesmente como a abertura de comunidades à visitação. Envolve regras próprias, participação das comunidades nas decisões e mecanismos capazes de assegurar que o turismo seja desenvolvido de acordo com os interesses e limites estabelecidos pelos próprios povos indígenas.

A chefe da Coordenação Técnica Local (CTL) da Funai, Ivanilde Bezerra do Nascimento, chamou atenção para esse aspecto ao abordar as normas que disciplinam o ingresso e a permanência de visitantes em terras indígenas. Entre as referências está a Instrução Normativa nº 03/2020 da Funai, além de outras normas e legislações aplicáveis às atividades desenvolvidas nesses territórios.

Na prática, a organização do etnoturismo passa pela necessidade de autorização, respeito aos procedimentos institucionais e, principalmente, participação e consulta às comunidades envolvidas.

A voz de quem vive no território

A presença das lideranças indígenas deu ao Fórum uma dimensão que ultrapassou a discussão econômica. O cacique Salomão Nezokemazokemae, uma das personalidades representativas das etnias presentes, defendeu maior participação dos povos indígenas nos espaços de decisão e de representação política.

Leia mais:  Fórum define prioridades para transformar potencial em etnoturismo organizado na região

Nesse pensamento, ele projeta que “um dia o índio vai poder falar por ele mesmo”. No debate sobre o turismo, essa afirmação ganhou significado direto. Segundo Salomão, os povos indígenas querem transmitir uma mensagem sobre “quem somos, o que fazemos e o que queremos com o etnoturismo”.

Cacique Salomão Nezokemazokemae, defende maior participação dos povos indígenas nos espaços de decisão e de representação política.

A observação toca em um dos pontos mais sensíveis da atividade. O patrimônio cultural que desperta interesse no visitante não pode ser separado das pessoas e comunidades que o produzem e preservam. Portanto, a estruturação do turismo exige que os povos indígenas ocupem posição de protagonismo na definição das experiências oferecidas, dos limites da visitação e dos resultados esperados com a atividade.

Da intenção à organização

Para Wesley Granella Oenning, secretário de Desenvolvimento Econômico, Meio Ambiente e Turismo de Barra do Bugres e presidente da Associação Caminho das Nascentes, o fortalecimento do etnoturismo depende de uma visão integrada.

“O fortalecimento é para todos os municípios, pois quando um município se fortalece, todos da região saem fortalecidos”, afirmou.

A organização das atrações e do setor em microrregiões foi apontada como um dos caminhos para tornar essa integração mais eficiente. A lógica é estruturar destinos e serviços de forma conectada, permitindo que o visitante encontre informações, roteiros, hospedagem, alimentação, transporte e experiências organizadas em escala regional.

A participação do empresário Ricardo Gonzales, representando o setor hoteleiro, também evidenciou que o desenvolvimento da atividade poderá produzir reflexos para além das aldeias. Para ele, uma rota turística estruturada movimenta hospedagem, alimentação, transporte, comércio e diferentes serviços, abrindo espaço para pequenos negócios e novos empreendimentos.

Desafio regional

Ao final do encontro, o desafio apresentado foi transformar o potencial existente em um processo de desenvolvimento organizado. Para isso, não basta possuir atrações. É necessário estabelecer regras, preparar pessoas, estruturar serviços e construir uma identidade regional capaz de apresentar a Grande Chapada dos Parecis como um território de experiências culturais e ambientais singulares.

A palestra de encerramento foi ministrada pelo jornalista e turismólogo Cristiano Lopes, que abordou o turismo como oportunidade.

O Fórum não encerrou o debate. Ao contrário, indicou o início de uma agenda regional. A existência de sete etnias e 33 aldeias cria uma base de potencial rara, mas sua transformação em atividade econômica dependerá da capacidade de organização dos municípios, da iniciativa privada e, sobretudo, do protagonismo dos povos indígenas.

O primeiro passo, nesse sentido, foi dado: a região começa a discutir não apenas o que tem para mostrar, mas como pretende organizar, proteger e compartilhar esse patrimônio.

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Fórum define prioridades para transformar potencial em etnoturismo organizado na região

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Capacitação, tecnologia, políticas públicas regionais e aproximação entre sociedade e povos indígenas estão entre os encaminhamentos debatidos em Tangará da Serra

O levantamento de sete etnias e 33 aldeias com potencial ou estrutura para visitação revela uma oportunidade regional. Mas o 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra também deixou claro que potencial, por si só, não constitui um destino turístico.

Para transformar os recursos culturais e naturais da Grande Chapada dos Parecis em uma atividade organizada, planejada e sustentável, será necessário enfrentar uma série de desafios. Entre os encaminhamentos debatidos no encontro estão a capacitação de gestores e empresários, a implantação de tecnologias de controle, a definição de políticas públicas regionais e a redução do distanciamento entre a sociedade e os povos indígenas.

Sommavilla: Informação e capacitação podem contribuir para reduzir esse “abismo” de conhecimento cultural e social.

O secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico de Tangará da Serra, Silvio José Somavilla, destacou a necessidade de avançar na organização do setor em escala regional. A estruturação do etnoturismo, segundo as discussões realizadas no Fórum, dependerá de planejamento capaz de integrar diferentes atores e organizar demandas que hoje podem estar dispersas entre municípios, comunidades e empresas.

Um dos primeiros desafios é a capacitação. A atividade exige preparo dos gestores públicos, empreendedores e profissionais que atuam diretamente com o visitante. O conhecimento necessário não se limita à operação convencional do turismo. Envolve também compreensão cultural, legislação, sustentabilidade, segurança e respeito às especificidades de cada território.

Organizar antes de crescer

A preocupação central é evitar que o aumento da procura aconteça antes da existência de mecanismos adequados de organização.

Entre as propostas debatidas está a implantação de tecnologias de controle voltadas à gestão das visitas e à estruturação de rotas seguras e sustentáveis. Ferramentas desse tipo podem contribuir para organizar informações sobre os destinos, orientar visitantes, acompanhar fluxos e auxiliar na definição de limites para determinadas atividades.

A lógica é substituir a improvisação por planejamento.

Isso se torna especialmente importante em uma região onde as experiências turísticas envolvem territórios indígenas e áreas naturais preservadas. O crescimento da atividade precisa estar acompanhado de critérios que protejam tanto o patrimônio ambiental quanto os interesses das comunidades.

A chefe da Coordenação Técnica Local da Funai, Ivanilde Bezerra do Nascimento, destacou as normas que regulamentam o ingresso e a permanência de visitantes em terras indígenas, incluindo a Instrução Normativa nº 03/2020.

Leia mais:  Fórum define prioridades para transformar potencial em etnoturismo organizado na região

As regras existentes demonstram que o etnoturismo não pode ser tratado como uma atividade sem condicionantes. A visitação depende de procedimentos específicos e deve respeitar as decisões e a participação das comunidades envolvidas.

A construção de um modelo regional, portanto, precisará conciliar desenvolvimento econômico, legislação, sustentabilidade e autonomia dos povos indígenas.

Políticas públicas de escala regional

Outro encaminhamento foi a necessidade de políticas públicas capazes de enxergar o etnoturismo para além dos limites administrativos de cada município.

A Grande Chapada dos Parecis envolve Barra do Bugres, Tangará da Serra, Campo Novo do Parecis, Sapezal e Brasnorte. A existência de destinos distribuídos por cinco municípios torna necessária uma articulação que permita estabelecer prioridades comuns.

Para Wesley Granella Oenning, secretário de Desenvolvimento Econômico, Meio Ambiente e Turismo de Barra do Bugres e presidente da Associação Caminho das Nascentes, o fortalecimento de um município repercute em toda a região.

“O fortalecimento é para todos os municípios, pois quando um município se fortalece, todos da região saem fortalecidos”, afirmou.

Sua defesa da organização das atrações e do setor em microrregiões aponta para um modelo no qual os destinos não atuariam isoladamente. A ideia é que a estruturação das rotas possa conectar diferentes experiências e, ao mesmo tempo, distribuir os benefícios econômicos entre as localidades.

Essa articulação poderá envolver desde a identificação e qualificação das atrações até a formação de roteiros, integração da rede de hospedagem e alimentação, preparação de condutores e desenvolvimento de canais confiáveis de informação.

Reduzir o abismo de conhecimento

Talvez um dos desafios menos visíveis seja justamente o distanciamento cultural existente entre parte da sociedade e os povos indígenas.

Silvio Somavilla defendeu que informação e capacitação podem contribuir para reduzir esse “abismo” de conhecimento cultural e social. A proposta é que a aproximação promovida pelo etnoturismo ocorra com base no respeito e no conhecimento, e não em estereótipos.

Esse ponto pode ter efeitos que vão além da atividade econômica. Uma sociedade que conhece melhor os povos que fazem parte de seu próprio território tende a compreender com maior profundidade a diversidade histórica e cultural da região.

História na aldeia: Inscrições rupestres na região do Formoso contam histórias do povo indígena da região.

Para o cacique Salomão Nezokemazokemae, a questão do protagonismo é fundamental. Ao afirmar que espera o dia em que “o índio vai poder falar por ele mesmo”, ele também sintetizou a necessidade de ampliar os espaços de representação dos povos indígenas.

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No etnoturismo, esse princípio significa assegurar que as comunidades não sejam apenas objeto de visitação, mas participantes das decisões e protagonistas na construção dos roteiros e das experiências oferecidas.

A mensagem que os povos indígenas desejam transmitir, segundo Salomão, envolve “quem somos, o que fazemos e o que queremos com o etnoturismo”.

Uma possível Carta do Etnoturismo

Entre as sugestões apresentadas por Somavilla está a elaboração de um documento que reúna as principais discussões e diretrizes surgidas no Fórum, em uma espécie de Carta do Etnoturismo.

A iniciativa poderia registrar uma agenda comum para os próximos passos, estabelecendo princípios e prioridades capazes de orientar a atuação regional.

A ideia é relevante porque o Fórum reuniu diferentes setores. Estiveram presentes lideranças indígenas, representantes da Funai, gestores municipais, empresários e profissionais ligados ao desenvolvimento turístico. A continuidade dessa articulação será determinante para que o encontro não se limite a um diagnóstico do potencial existente.

A mediadora do Fórum, Tatiane Fernandes (foto acima), consultora credenciada do Sebrae Mato Grosso, conduziu as discussões que aproximaram essas diferentes perspectivas. Ao final, os encaminhamentos indicaram uma agenda baseada em quatro grandes eixos: qualificação, tecnologia e controle, políticas públicas regionais e aproximação entre a sociedade e os povos indígenas.

O desafio agora será converter os debates em ações.

Destino turístico regional estruturado

A Grande Chapada dos Parecis já possui uma base territorial expressiva para o etnoturismo. O próximo estágio é mais complexo: identificar demandas, organizar atrações, definir responsabilidades, preparar empresas e gestores e estabelecer modelos de visitação compatíveis com as decisões das comunidades.

Nesse processo, a principal estratégia não parece ser crescer rapidamente. É crescer de forma organizada.

Como destacou Sílvia Fraga de Souza, coordenadora da Agência do Sebrae em Tangará da Serra, “no turismo não existe concorrência, existem parcerias”. Para uma região formada por cinco municípios, sete etnias e dezenas de aldeias, essa cooperação poderá ser justamente o elemento capaz de transformar potenciais dispersos em um destino regional estruturado.

O 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra deixa, assim, uma agenda que começa pela organização. A oportunidade econômica existe, mas seu aproveitamento dependerá da capacidade de construir um turismo responsável, seguro e sustentável — com os povos indígenas no centro das decisões sobre seus territórios, suas culturas e suas experiências.

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