ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO
Valter Caetano Locatelli: O conhecimento e a autoridade de um advogado com mais de 600 juris
Publicado em
12/08/2024 - 07:37por
Sergio Roberto
O Enfoque Business abre esta série de entrevistas sobre o Dia do Advogado – celebrado no domingo, 11/08 – com uma personalidade que conquistou com talento, trabalho e conhecimento um carinho especial em Tangará da Serra. Por isso, é indispensável começar contando um pouco da história desta celebridade tangaraense.
Trajetória e pioneirismo
O pioneiro Valter Caetano Locatelli é um ícone da advocacia em Tangará da Serra e região. É Reconhecido em todo o Mato Grosso e em outros estados do Brasil pelos trabalhos emblemáticos que exerceu (e exerce) na advocacia.
Nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, numa família numerosa de 10 filhos e 03 filhas de “Seo” Orestes e Dona Verônica.
Era a década de 1960. O primeiro trabalho de Valter foi de engraxate. Ainda menino, entrou para um seminário. Queria ser padre! Depois, estudou para ser Técnico em Contabilidade.
Mas a vida sempre reserva muitas surpresas. Valter foi no cinema assistir a um filme em que uma das principais cenas incluía um júri, num impressionante embate entre um advogado e um promotor. Foi um estalo! E Valter resolveu estudar Direito.

Matriculou-se na Faculdade de Direito de Cruz Alta, cidade do noroeste gaúcho, terra do célebre escritor modernista Érico Veríssimo. Colou grau em 1979 e exerceu os primeiros anos de advocacia na cidade de Seberi, também no Rio Grande do Sul.
Jovem irrequieto, Valter queria andar. Pensava numa cidade nova, para crescer junto. E foi assim que, em maio de 1985, aceitou um convite de um amigo para conhecer Tangará da Serra. Veio, viu e gostou e, em janeiro de 1986, já se instalava, de mala e cuia, na cidade do alto da Serra de Tapirapuã.
Torcedor apaixonado pelo Grêmio de Porto Alegre, é cônsul do clube gaúcho na região. Comunicativo, sempre bem-humorado, divertido e de conversa agradável, foi ganhando simpatia e respeito como pessoa e, assim, fazendo grandes amizades, até mesmo com torcedores colorados.

Ao mesmo tempo em que caía no agrado da comunidade tangaraense como cidadão, ganhava notoriedade como profissional. Afinal, naqueles anos já era um hábil advogado. Desenvolveu um gosto especial pela área criminal e, por isso, fez pós-graduação com ênfase em Tribunal do Juri.
Mantém, desde aquela época, seu escritório na Avenida Brasil, no prédio de número 144, proximidades do Correios.
De lá para cá, Valter Locatelli transitou pela advocacia acumulando mais de 600 juris, em casos que o levou a seis estados da Federação.
Nessa trajetória, criou conceitos bem peculiares sobre o exercício da advocacia. E, nesta data em que se comemora o Dia do Advogado, Dr. Valter traz a sua mensagem sobre a atualidade do ambiente da advocacia.
O diálogo
Enfoque Business – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda reagiu. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como o senhor avalia messe momento para a advocacia?
Dr. Valter – A política é algo diário na vida do cidadão, especialmente entre os idealistas. Todos querem o melhor para a cidade, o estado e a nação e sustentam seus ideais com todo o direito que a democracia lhes confere. Alguns são mais intensos, mais incisivos, e é aí que aflora a paixão ideológica.
Depois de décadas de uma multiplicidade de ideologias partidárias – onde os posicionamentos variavam entre o liberalismo, centro-direita, centro-esquerda e esquerda, as ideologias se concentraram mais em duas correntes, especialmente depois da Operação Lava-Jato e a prisão do Lula, maior líder do PT, em abril de 2018.
A polarização se consolidou naquele momento, com uma frente saindo em defesa de Lula e outra condenando e exigindo a saída do PT do poder, diante de tantas acusações de corrupção.
Com as redes sociais, essa polarização foi inflamada. O ambiente da internet é uma terra ainda com baixo potencial de controle. Ou seja, é muito fácil sentar diante de uma tela de computador e desferir ataques a outrem, com aquela falsa sensação de anonimato que leva internautas a publicarem ofensas contra outras pessoas, sejam elas celebridades ou simples cidadãos.
Não é como um embate presencial, cara-a-cara, quando as pessoas pensam um pouco mais antes de falar. É aí que as pessoas pecam, pois publicar ofensas nas redes sociais não pode ser confundido com o direito à liberdade de expressão. E, daí, é um ‘pulo’ para tudo virar em processo judicial.
O advogado está se adaptando cada vez mais a esses novos tempos, nesse ambiente virtual. Há novas leis, como a 12.737, de 2012, que dispõe sobre a tipificação criminal de delitos informáticos, e a própria Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, de 2018, que embora seja mais específica, também se enquadra nesse contexto.
EB – Outro aspecto da atualidade que envolve o exercício da advocacia está relacionado ao ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado as redes sociais e noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. Então, uma falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?
Dr. Valter – As redes sociais, hoje, fazem parte do cotidiano das pessoas. Então, é muito fácil nos depararmos com notícias falsas, informações distorcidas, enfim. É preciso muita atenção.
O próprio advogado precisa estar muito atento para não cair nas armadilhas das redes sociais. É preciso verificar a fonte da notícia e confirmar a veracidade.
Agora, o cidadão comum às vezes “embarca” nessas “canoas furadas”, compartilhando vídeos e informações falsas e, por isso, acaba sofrendo revezes. Afinal, se você ajuda a difundir mentiras pelas redes sociais, mesmo sem saber, incorre em crime cujas penas podem chegar a quase três anos. São crimes previstos e tipificados pelo Código Penal e, também, pelo Código Eleitoral, lembrando aqui que já estamos no período das eleições.
E é aí que vem outra dificuldade: fazer essa pessoa compreender que cometeu um equívoco e que isso trará desdobramentos. Imagine só, ter de passar a mensagem a um cliente que ele infringiu a lei.
Também é difícil quando o cliente é vítima dessas fake news, pois a sensação de ser injustiçado revolta qualquer um.
Então, dentro desse contexto, entendo que o advogado deve se preparar para essa realidade no exercício da advocacia e, pelo papel que desempenha na sociedade, deve contribuir fortemente no combate à disseminação das fake News. Deve ler, pesquisar, orientar, interpretar, refletir, ter senso crítico. É uma questão de se manter a ordem social e a justiça.
EB – Sobre o Ministério Público, muitas vezes seus integrantes (os Promotores de Justiça) são interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?
Dr. Valter – O Ministério Público é parte integrante, fundamental, em nosso Judiciário. Assim como a Advocacia! Não há subordinação entre um e outro. O que há, pelo bom senso e pelo que reza a lei, é que ambos devem tratar-se com consideração e respeito recíprocos. Sempre houve bom relacionamento porque cada um cumpre o seu papel, de defender, de acusar, conforme os preceitos legais. A questão do possível ativismo ou ideologia é interpretada e enquadrada conforme a circunstância, e isso deve ser sempre considerada pelo advogado. Se há alguma injustiça em função disso, o advogado precisa saber derrubá-la dentro do que preconiza a lei.
EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?
Dr. Valter – Minha avaliação do Judiciário é que houve muitas melhoras e ainda há muito o que melhorar, especialmente quanto à estrutura. No caso específico da nossa Comarca, que é de terceira entrância, a demanda processual é enorme, principalmente na Fazenda Pública, a 4ª Vara Cível. Há processos que levam anos, décadas, para ter uma decisão.
Há muito trabalho para um quadro limitado de juízes, e isso parece não ter fim. Agora, com a tecnologia, com a inteligência artificial, as pesquisas a organização são muito mais rápidas. O Judiciário vive num ambiente eletrônico, então fica mais fácil para o advogado entrar num processo, ver e conferir o que precisa, controlar os prazos mais facilmente.
Mas é preciso, sim, mais investimentos, principalmente em material humano, porque a questão tecnológica se impõe. Aqui na comarca as coisas melhoraram muito. Houve um tempo em que não tínhamos um espaço para o Tribunal do Juri. Hoje temos!
EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?
Dr. Valter – Nós falamos anteriormente sobre o Judiciário. Pois, é aí que reside uma grande dificuldade do advogado. O morosidade do Poder Judiciário estão entre as maiores dificuldades enfrentadas pelo advogado no exercício da profissão. Depois, vem a burocracia, que hoje é mitigada pelo certificado digital, indispensável para o peticionamento eletrônico e o processo judicial eletrônico.
E, aí, vem a gestão. Os advogados não têm curso de gestão na faculdade e, se querem seguir sua trilha como advogados independentes, com seus próprios escritórios, tem que aprender na marra como lidar com as dificuldades de gestão. E é difícil encontrar e pagar profissionais para desempenhar essa função no escritório. Existem, mas tem altos salários (o que é justo, diga-se de passagem). E tem mais… O advogado ainda tem que formar uma carteira de clientes (o que é difícil em razão da concorrência), e tem que estar preparado para os avanços tecnológicos.
Tem a questão de muitas vezes os advogados não terem devidamente respeitadas as suas prerrogativas profissionais. O advogado precisa ter amplo e irrestrito acesso aos autos do processo e, também, ter comunicação com seus clientes.
Alcançar a valorização também não é fácil. E, também, o advogado não é uma figura indispensável apenas na esfera judicial. É, também, figura importante na área extrajudicial, no momento da resolução de conflitos através de acordos e consultorias. O advogado pode evitar a ação judicial.
E tem a questão conceitual, ante uma época em que o Judiciário perdeu, em parte, a confiança do cidadão por tudo o que acontece no país. A maioria das pessoas não entende que o advogado tem de estar lá, mesmo ao lado da parte impopular, pois a Justiça exige, a lei exige a presença do advogado.

EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?
Dr. Valter – A Ordem dos Advogados do Brasil sempre foi uma instituição valorosa e voluntariosa. Tem participações marcantes na história do nosso país. Foi a OAB quem entregou o pedido de impeachment contra o presidente Fernando Collor de Mello, em setembro de 1992. A OAB fará 94 anos de 18 de novembro próximo. É comprometida com o povo, com o regime democrático, tanto que tem histórico de combate a regimes autoritários (desde Getúlio Vargas à ditadura militar). Teve participação decisiva na redemocratização e na promulgação da Constituição de 1988, tudo isso sempre livre de ideologias partidárias. O que eu espero é que a OAB siga com esse perfil, que siga como entidade irrepreensível na defesa da advocacia e que mantenha a condição inegociável de defesa do Estado Democrático de Direito e do povo brasileiro.
EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?
Dr. Valter – É inegável que há um contaminação político-ideológica nas escolas brasileiras em todos os níveis: do ensino básico ao superior. Não quero generalizar, mas Infelizmente sabemos que professores e autores de livros didáticos usam suas aulas e suas obras para impor ideologias e conceitos. Isso é preocupante, porque pode fazer com que os alunos adotem padrões de julgamento e de conduta moral – inclusive moral sexual – incompatíveis com os que lhes são ensinados por seus pais ou responsáveis.
Olha a gravidade da situação: Essa prática é uma usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções. Isso é inadmissível, condenável! O ensino, em qualquer nível, deve ter como base conteúdo científico e equilibrado, permitindo ao aluno formar suas ideias e pensamentos e validá-las com suas observações e experiências do cotidiano. As instituições de ensino devem ser locais de orientação, educação e transmissão do conhecimento, e não de transformação de personalidades. Se há alguma mudança nas personalidades, isso deve ocorrer para melhor e em decorrência do conhecimento, e não através de lavagem cerebral.
Se isso pode interferir de alguma forma no exercício da advocacia? Pode sim! Se os cursos de Direito penderem para esse lado da doutrinação, se tivermos juízes, promotores e advogados que coloquem ideologias à frente da interpretação das leis. Lá atrás você perguntou sobre como avalio a OAB na atualidade. Pois, creio que a OAB poderia perfeitamente intervir nessa questão, juntamente com a sociedade, identificando focos de doutrinação e encaminhando providências para que isso seja, ao menos, coibido nas instituições de ensino.
EB – O senhor acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?
Dr. Valter – A tecnologia deve usada de acordo com o bom senso e a sabedoria. Para a advocacia, o uso da inteligência artificial representa um avanço enorme na modernização das práticas jurídicas. Lembra quando falamos que uma das dificuldades vivenciadas pelos advogados está na questão do escritório? Pois é! A IA está aí para automatizar tarefas rotineiras, enriquecer pesquisas e análises, ajudar nas estratégias jurídicas, melhorar, organizar, padronizar, agilizar o fluxo de trabalho e aprimorar a prestação de serviços.
No meu entendimento, a IA é ferramenta auxiliar para o advogado. Francamente, não há como substituir o toque humano na interpretação das leis, no juízo, no bom senso, na somatória de circunstâncias que levem a interpretação de uma atitude. E, no exercício da advocacia, a sabedoria empregada numa causa é o resultado de uma soma empírica e teórica, ou seja a experiência enriquecida pelo conhecimento jurídico. Nenhuma máquina pode superar isso, por mais avançada que seja sua tecnologia.
EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como o senhor vê o futuro da advocacia?
Dr. Valter – Há uma velha história em que um jovem, muito esperto, tentou desmoralizar um sábio. Queria ver o sábio errar em sua resposta e pensou: “Em minhas mãos levarei um pequeno pássaro vivo e perguntarei ao sábio se o passarinho está vivo ou morto. Se ele responder que está morto, eu abrirei as mãos e o libertarei para que voe. Se ele responder que está vivo, eu o matarei, apertando-o”.
Assim, o jovem imaginou que o sábio não teria saída, e executou o seu plano. Já diante do sábio, com o passarinho em sua mão levemente fechada, o jovem perguntou se o bichinho estava vivo ou morto. O sábio olhou nos olhos do rapaz e respondeu serenamente: “Meu jovem, a vida desse pássaro está em suas mãos”.
Então, apesar da polarização política, dos posicionamentos ideológicos, das doutrinações, dos paradigmas e das inteligências artificiais, o sucesso de um advogado estará sempre em suas próprias mãos, sempre dependerá única e exclusivamente dele mesmo.
ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO
Drª Gisela Cardoso: Representação feminina em defesa da advocacia e pela interiorização da OAB
Published
2 anos atráson
21/08/2024 - 15:10
A advogada Gisela Alves Cardoso é a entrevistada desta quarta-feira (21) do Enfoque Business, fechando com estilo a série de reportagens alusiva ao Dia do Advogado, celebrado em 11 de agosto.
Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de Mato Grosso da (OAB-MT) – Drª Gisela desponta como nova liderança mato-grossense, reunindo várias virtudes à frente de uma entidade que atua em defesa da sua categoria, da sociedade e da Constituição Federal.
Ela traduz em sua trajetória de vida o que disse, recentemente, a executiva Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil: “Não acreditem em quem não acredita em vocês (…). Se o resultado for a sua felicidade, abrace a oportunidade”.
Dinâmica e à frente de seu tempo, Gisela Alves Cardoso sempre foi inspiração em sua família, antes mesmo de se projetar na advocacia e na sociedade. Filha do caminhoneiro Augusto Cardoso e da dona de casa Ana Maria Alves Cardoso, é a primeira da família a conquistar o diploma universitário e se diz uma apaixonada pelo Direito.
Veio ainda pequena, com sua família, de São Paulo para Colíder, norte de Mato Grosso. Estudiosa e dedicada, começou dando aula de inglês. Na juventude, trabalhou em diversos empregos até iniciar carreira como bancária. Mudou-se para Capital e estudou Direito. Formou-se em 2001, e trocou a carreira de bancária pela advocacia.
Foi professora universitária por 10 anos, de 2007 a 2018. Tem enorme carinho pela docência, tendo contribuído para a formação de jovens advogados.
É especialista em Direito Empresarial e sócia no escritório Cardoso e Cardoso Advogados.

Há duas décadas na advocacia, faz parte da diretoria da OAB-MT há seis anos. Já foi Secretária Geral Adjunta e vice-presidente da Seccional. Também conduziu a Comissão da Mulher Advogada e participou da Comissão Nacional de Estudos Constitucionais. Atualmente, junto ao CFOAB é a coordenadora adjunta do Colégio de Presidentes Seccionais da OAB no triênio 2022-2024.
Em março do ano passado, recebeu a insígnia de Comendadora da Ordem São José Operário do Mérito Judiciário do Trabalho de 2023. A distinção é concedida pelo Tribunal Regional do Trabalho 23ª Região (MT), a cada dois anos, a personalidades e entidades que prestaram relevantes serviços à Justiça do Trabalho.
Orgulha-se de presidir a Seccional de Mato Grosso neste momento em que a Ordem dos Advogados instituiu a política de paridade de gênero nas eleições de todo o sistema OAB, ampliando a sua representação feminina.
Sua gestão tem sido marcada pela forte atuação na qualificação da advocacia, no combate à violência contra a mulher, no apoio ao jovem advogado, na qualificação da advocacia e na interiorização da Ordem dos Advogados.
Reside em Cuiabá e é casada com o também advogado Marlon Hudson Machado e mãe de João Pedro.
O diálogo
Redação EB – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda tem reagido. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que isso proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como a senhora avalia esse momento para a advocacia?
Drª Gisela Cardoso – Advogados e advogadas são cidadãos e cidadãs e, sendo assim, em ambiente democrático, têm todo o direito de se expressar politicamente e, na democracia, é salutar a diversidade ideológica, mas assevero que a Ordem dos Advogados, como instituição, apesar de acompanhar todos os movimentos da sociedade, não pode e nem deve ter ligação política com este ou aquele, com A ou com B, este é um paradigma que deve ser respeitado, porque a nossa instituição pertence à toda a advocacia e não a um partido político ou outro. Em todo o curso da história a forma da Ordem dos Advogados agir socialmente é cumprindo importante papel de ser voz da sociedade. No momento, saliento todo o envolvimento da nossa Seccional com o combate ao feminicídio. Então, em que pese os imbróglios das fases políticas, a OAB segue sendo farol, na defesa do Estado Democrático de Direito e da nossa Constituição vigente.

Redação EB – Outra característica da atualidade que envolve o exercício da advocacia é o ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado de maneira contundente as redes sociais e até mesmo os noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. O advogado precisa estar atento a isso e saber fazer a leitura dessa condição cotidiana, já que uma falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?
Drª Gisela Cardoso – O fenômeno das fake news é recente, mas já mostrou seus efeitos nocivos. A OAB-MT tem falado sobre isso, através das comissões temáticas envolvidas com o tema, reprovando a prática em quaisquer âmbitos. E tem também inserido esta temática em eventos, para que a advocacia se informe, a cada dia mais, e saiba como agir, caso esteja diante desta questão.
Redação EB – O Ministério Público tem como função constitucional a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Porém, seus componentes (os Promotores de Justiça) são, muitas vezes, interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?
Drª Gisela Cardoso – O que preconizamos sempre é atuação técnica, seja em qualquer âmbito do sistema de administração de justiça, do qual todos fazemos parte, Judiciário, Ministério Público, Advocacia. E a relação da advocacia com o Ministério Público é, via de regra, muito respeitosa.
Redação EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?
Drª Gisela Cardoso – O juiz, o magistrado, é um pacificador social muito importante, especialmente nos municípios menores. Quanto mais distantes do eixo das capitais, mais aumenta potencialmente essa responsabilidade. Então, garantir os juízes nas Comarcas, em todas elas, despachando com a advocacia, influenciando na paz social, é uma das pautas permanentes da OAB-MT.
Redação EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?
Drª Gisela Cardoso – A OAB é a maior entidade da sociedade civil brasileira e a Seccional de Mato Grosso acaba de completar 91 anos de história, defendendo a advocacia e, com isso, defendendo também a democracia, o Estado de Direito, o respeito à legislação, à Constituição Federal. Como voz da sociedade, a OAB-MT discute as grandes questões sociais e contribui apontando saídas. Foi assim o trabalho feito pela OAB-MT para resolver os problemas com a concessão da BR-163, é assim com toda a luta que trava para combater o feminicídio. São 69 comissões temáticas. Então a OAB-MT está em muitos espaços da nossa sociedade atuando. Costumo dizer que a OAB-MT é incansável para defender a advocacia e a sociedade.
Redação EB – Quais os principais destaques da sua gestão na presidência da OAB-MT nesses dois anos e meio de gestão?
Drª Gisela Cardoso – Acredito que um dos principais destaques na minha gestão é o acolhimento ao Jovem Advogado, para que chegue ao mercado de trabalho com apoio, porque os primeiros passos não são fáceis. Quando me formei, sem nenhum outro advogado na família, nenhum parente para me indicar para nada, tive que enfrentar a vida profissional com bastante obstinação e busquei a Ordem dos Advogados, para me dar suporte. Então, agora como presidente, tenho um carinho muito especial por aqueles que estão chegando, para que tenham todo apoio e suporte. Também cito o projeto OAB Presente, que é uma forma da instituição Ordem dos Advogados ir até à advocacia onde quer que esteja, ouvir o que ela tem a dizer. Então, saímos em comitiva da Seccional e vamos aos escritórios, na Capital e em diversas cidades de Mato Grosso.
Outro destaque acredito que seja minha luta contra a violência de gênero, seja em ambiente doméstico, o que no limite nos apresenta como o feminicídio, seja no processo eleitoral, em razão de que, nós, mulheres, podemos votar há 100 anos, mas ainda temos muitas dificuldades para ser votadas, para ocuparmos esses cargos eletivos. A luta é grande também contra o assédio moral e sexual, em razão de que esta ainda é uma realidade a ser combatida, com muita coragem. Mais um destaque é a nossa Escola Superior de Advocacia, já entregamos 14 cursos de pós graduação, nesses dois anos e meio, isso nunca aconteceu, isso é histórico. Acreditamos muito em qualificação, atualização, para fortalecer o advogado, a advogada, porque o conhecimento pavimenta o exercício profissional, é o caminho mais profícuo para o sucesso.
Quanto à infraestrutura do Sistema OAB, atuamos junto com as subseções e foram entregues importantes obras para a advocacia do interior, como as novas sedes das subseções de Sinop e Juara e a primeira etapa da nova sede da subseção de Lucas do Rio Verde, entre outras reformas e ampliações em Barra do Garças, Cáceres, Campo Novo do Parecis, Colíder, Juína, Nova Mutum, Peixoto de Azevedo, Primavera do Leste, Rondonópolis e Sorriso. Trabalhamos diariamente para devolver à advocacia, em investimentos, obras e serviços, tudo o que é arrecadado com as anuidades. Essas inaugurações são reflexo desse trabalho. Espaços que vão atender aos advogados e advogadas, com estrutura, sustentabilidade e muita qualidade. Outra coisa importante é a autonomia da gestão financeira das Subseções. Neste período de dois anos e meio de gestão, os investimentos financeiros efetivados pela Seccional às subseções superaram o valor arrecadado em anuidades. Em números, a arrecadação foi de mais de R$ 9 milhões e a entrega que a Seccional fez às subseções de Mato Grosso superou os R$ 12 milhões. O aumento foi de 184% na comparação com o que as subseções recebiam anteriormente, indicando a preocupação da gestão com o fortalecimento e autonomia da gestão financeira da advocacia do interior. Precisamos devolver para a advocacia aquilo que recebemos. E é isso que estamos fazendo. A começar pela advocacia do interior. Outra prioridade e conquista da atual gestão da OAB-MT está no avanço da tecnologia. Hoje, 100% dos processos que tramitam na instituição são eletrônicos. E por aí vai!

Redação EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?
Drª Gisela Cardoso – A advocacia é uma profissão desafiadora, então os desafios são muitos, diários, agora entraves acredito que um deles seja o próprio mercado de trabalho que é muito competitivo. Por isso incentivamos a qualificação continuada e a atualização constante, para que o advogado e a advogada estejam plenamente aptos a dar as respostas que seus clientes esperam.
Redação EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?
Drª Gisela Cardoso – Temos uma grande preocupação em acompanhar a qualidade do ensino superior, os cursos de Direito. A OAB-MT preconiza o ensino técnico, a devida análise de conjuntura e as percepções sobre a atualidade. Temos ainda o Exame da Ordem.
Redação EB – A senhora acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?
Drª Gisela Cardoso – Inclusive já está influenciando e sendo usada também em escritórios, pelo Judiciário, demais atores da administração de Justiça. O debate ético sobre o uso da IA é amplo, tem sido feito com a sociedade, porque atinge diversos setores. Então, estamos atentos a este tema, discutindo em diversos eventos, como já disse incluindo o tema na programação e sabendo que há muitas formas da advocacia se beneficiar sim com a IA, com limites.
Redação EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como a senhora vê o futuro da advocacia?
Drª Gisela Cardoso – A advocacia tem seu passado, está viva, ativa, atuante, em destaque, em seu presente e assim estará no futuro, é a única profissão reconhecida constitucionalmente como essencial para a administração da Justiça. Transformações são naturais do processo de evolução. Estaremos mudados, mas ainda assim essenciais.
Redação EB – Mais alguma consideração, Drª Gisela?
Drª Gisela Cardoso – Agradeço pelo espaço e por contribuir com as reflexões aqui propostas.
(Crédito das fotos: Divulgação)
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