Foi registrada esta semana a primeira ocorrência de ferrugem asiática na região do Chapadão dos Parecis. O registro é do engenheiro agrônomo e pesquisador Valtemir José Carlin, da Agrodinâmica Pesquisa e Consultoria Agropecuária.
Segundo Valtemir, o foco da doença é numa lavoura de Tangará da Serra. “A história têm se repetido e temos os primeiros casos próximos à virada do ano/inicio de colheita”, postou o pesquisador em uma página nas redes sociais. Ele prega atenção total quanto ao manejo, especialmente nas lavouras mais tardias.
Valtemir prega atenção total quanto ao manejo, especialmente nas lavouras mais tardias.
Na região Centro Oeste, além do caso de Tangará da Serra, foram registrados quatro casos de presença do fungo no Mato Grosso do Sul, em lavouras de Maracaju e Rio Brilhante. Os registros constam no site do Consórcio Antiferrugem.
Recorrente
Segundo Valtemir Carlin, a ferrugem asiática sempre foi um problema nas lavouras de soja no Centro Oeste, mas atualmente está mais rápida e agressiva. Os casos são verificados, num estágio inicial, no ponteiro das plantas.
Produtividade da soja é fortemente afetada pela ferrugem.
Carlin destaca que para minimizar os danos da ferrugem da soja é preciso a adoção de algumas estratégias, como o escape (considerando semeadura e ciclo), a atualização dos fungicidas, o uso de multissítios (cujas características vão de encontro do manejo de resistência) e aplicação de fungicidas protetores e sistêmicos. “É importante também a rotação do grupo químico e do modo de ação dos produtos e, também, evitar plantios em dezembro e fevereiro, que são verdadeiras janelas para doenças e pragas”, afirmou, em recente publicação.
Mancha Alvo
Há, porém, outra doença que gera preocupação no meio produtivo. “Ainda vamos ter muito trabalho com a mancha alvo”, previu Valtemir Carlin, no início deste ano, durante a 10ª Jornada Técnica promovida pela Agrodinâmica. Ele citou, na oportunidade, a existência de mais de 700 hospedeiros da doença, como a crotalária.
Sobre a mancha alvo, o diretor da Agrodinâmica salienta que a prevenção/controle é uma questão de manejo, incluindo monitoramento em todos os ciclos da lavoura, o correto posicionamento do produtor quanto às cultivares (levando em consideração o histórico) e o pleno conhecimento da tolerância e suscetibilidade.
O agronegócio mato-grossense encerra o mês de junho sob o impacto de dois temas que, embora distintos, convergem para a mesma preocupação: a segurança e a previsibilidade da produção. De um lado, chuvas atípicas em pleno mês de junho ameaçam a qualidade da colheita do algodão; do outro, o anúncio de estudos da Petrobras para dobrar a produção nacional de fertilizantes reacende o debate sobre a histórica dependência externa brasileira de insumos estratégicos.
Os temas são abordados na coluna “Circuito Rural”, do jornalista mato-grossense especializado em agronegócio Olmir Cividini, de Tangará da Serra.
Chuvas em junho: o alerta na colheita do algodão
Mato Grosso, que cultivou cerca de 1,4 milhão de hectares de algodão nesta safra, foi surpreendido por episódios climáticos fora do padrão para esta época do ano. Antes dessas chuvas, a expectativa de produtividade média era de 304 arrobas por hectare, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA). No entanto, acumulados superiores a 20 milímetros em diversas regiões produtoras colocam em risco a qualidade da fibra e dificultam a entrada de maquinário em campo.
A colheita do algodão é uma fase extremamente sensível à umidade. O excesso de chuva não apenas atrasa o cronograma, mas pode provocar o escurecimento da fibra e a proliferação de doenças, impactando diretamente o valor de mercado do produto. Levantamentos técnicos ainda estão sendo realizados para mensurar o tamanho real do prejuízo, mas o alerta já está ligado para o produtor, que vê no clima um fator que foge completamente ao seu controle.
Fertilizantes: dependência que preocupa
Enquanto o campo lida com o clima, em Brasília e no Rio de Janeiro, a pauta é a soberania nacional. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou recentemente que solicitou estudos para dobrar a capacidade nacional de produção de fertilizantes. Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes utilizados em sua agricultura, uma vulnerabilidade estratégica que ficou evidente com as recentes crises globais.
A análise histórica é reveladora: nas últimas cinco décadas, a produção brasileira de soja saltou de 9 milhões para 180 milhões de toneladas — um crescimento de quase 2.000%. Se o país sabia que sua agricultura crescia nesse ritmo, por que optou por importar a maior parte dos insumos em vez de ampliar sua própria capacidade produtiva? A resposta passa por investimentos elevados, necessidade de gás natural a preços competitivos e infraestrutura logística. Por muito tempo, foi economicamente mais vantajoso importar do que fabricar internamente.
Soberania vs. custo imediato
O problema é que a lógica econômica nem sempre coincide com a lógica estratégica. O Brasil já alcançou a autossuficiência na produção de petróleo bruto em 2006, mas ainda importa combustíveis porque a capacidade de refino não acompanhou a demanda. Com os fertilizantes, o desafio é semelhante. Até que ponto determinadas cadeias produtivas devem ser analisadas apenas pela ótica do custo imediato? Em casos de insumos estratégicos, a segurança de abastecimento e a soberania nacional podem justificar investimentos que, à primeira vista, não parecem os mais rentáveis, mas que garantem a sustentabilidade da maior potência agrícola do planeta.
Olmir Cividini é jornalista e colunista do Enfoque Business em Tangará da Serra.
(*) Ouça o Circuito Rural na íntegra no áudio abaixo: