TANGARÁ DA SERRA
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ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO

Dr. Felipe Pelegrini: Juventude na advocacia lapidada com a tradição Ávila & Ávila Advogados

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O advogado Felipe Pelegrini é o entrevistado do Enfoque Business nesta segunda-feira, na série especial Dia do Advogado celebrado em 11 de agosto.

Nascido no dia 20 de junho de 1989 em São Miguel D’Oeste, estado de Santa Catarina, Dr. Felipe Pelegrini é graduado em Direito pela UNIC – Universidade de Cuiabá – em 2011, pós-graduado em Direito Processual Civil pelas universidades Anhanguera-Uniderp, 2014, e Cândido Mendes, em 2018. “Apesar de, hoje, não me ver em outra profissão, confesso que Direito não foi a primeira escolha (que seria Mecatrônica ou Engenharia Mecânica), mas, sendo cristão, sei que as linhas tortas não impedem a escrita correta dEle… Hoje, advogado com muito orgulho, expresso que sou grato à Deus por ter colocado o Direito em minha vida!”, conta.

Atua pela Ávila e Ávila Advogados®, tradicional escritório de advocacia de Tangará da Serra e com de renome estadual, com escritório também em Cuiabá.

Tem inscrição ativa na OAB/MT sob nº 16.064, atuando, desde a graduação e conseguinte aprovação junto ao Exame da Ordem (2012), nos mais variados casos da esfera civil, processual civil, recuperação de crédito no direito do agronegócio, em demandas iniciais e recursais, além de algumas atuações na esfera do direito criminal.

Somando mais de dez anos de experiência, preza pela evolução/melhora constante, pela ética, profissionalismo, honestidade, transparência e respeito, munidos de dedicação e empenho ao cliente, à equipe de trabalho, aos casos/processos, ou a tudo e todos alcançados no raio profissional e pessoal, objetivando a qualidade e resultado eficientes.

 

O diálogo

 

Redação EB – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda tem reagido. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que isso proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como o senhor avalia messe momento para a advocacia?

Dr. Felipe Pelegrini – De fato! Mas, aqui, há que se ponderar a diferença entre a instituição OAB, e a pessoa do advogado. Quando se fala em advocacia, entra-se em uma esfera geral que pode ser interpretada como uma posição adotada pela Instituição OAB, de modo a acarretar em interpretações distorcidas sobre a mesma – o que não pode ocorrer.

Isso, porque a Instituição OAB, com seu papel de defesa da classe, do próprio Direito e do cidadão, deve sempre manter a imparcialidade, e alicerçar-se exclusivamente na legislação em vigência – mormente a Constituição Federal, e princípios.

Todavia, voltando os olhos de forma pessoal e individual ao tema – sem alocação colegiada e generalizada da classe – entendo que as interpretações extensivas do direito, muitas vezes forçadas, podem acabar prejudicando a literalidade e o positivismo da legislação e do Direito, desviando seu real intuito, finalidade e defesa.

O tema é bastante polêmico e as divergências polarizadas existem a ponto de, justamente por conta dessa polarização, acabar acarretando em discussões acaloradas e pessoais, que falam mais pelo íntimo e emocional, do que propriamente do Direito em si – aqui, diga-se o racional.

Para o Direito, isso não pode haver. Definitivamente, não! Pois é um tema que dever ser analisado de forma coletiva, sem anseios pessoais e íntimos. Portanto, o emocional não pode tomar conta da questão, a ponto de aniquilar o racional e coletivo que, por consequência, poderá distorcer direitos outros em preferência à ideologia.

Mas vejo com positivo entusiasmo. Pois, ainda que em fase inicial, se esse momento for tratado/discutido de forma a observar a real necessidade da sociedade e dentro da esfera jurídica e das legislações vigentes, trará ensinamentos e posicionamentos históricos e coerentes, sem distorcer e/ou desrespeitar o direito alheio, engrandecendo e enriquecendo o Direito, o Judiciário, o Legislativo, e a Advocacia, em atenção ao discurso e embate jurídico que se amoldará sobre o tema.

Aliás, saliento, ainda, que muitas das legislações e direitos vigentes e existentes, podem ser simplesmente “reutilizadas” e adequadas às necessidades atuais, sem necessidade de maiores alardes, alarmismos e confusões.

Redação EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?

Dr. Felipe Pelegrini – Para essa questão, é necessário entender, de forma célere e sumária, que a OAB possui divisão hierárquica, cuja qual é formada pela Ordem dos Advogados do Brasil – Conselho Federal (Nacional); Ordem dos Advogados do Brasil – Seccionais (Estaduais); e, Ordem dos Advogados do Brasil – Subseções (Comarcas).

Apesar de ser uma Instituição de Classe, e da hierarquia que à rege, os posicionamentos podem ser autônomos e divergentes.

Cito, porque exemplo, a atuação desta 10ª Subseção de Tangará da Serra/MT, cuja qual, até onde tenho conhecimento, foi a única (ou uma das poucas), que manifestou-se contra as arbitrariedades manifestas do Supremo Tribunal Federal, em face da atividade da advocacia na defesa dos interesses de seus clientes, quanto aos atos de 08 de janeiro (de 2022).

Aqui, faço um adendo para esclarecer e evitar interpretações equivocadas: não houve a manifestação à favor ou contra aos investigados e/ou acusados pelos atos; mas sim, quanto às prerrogativas (direitos) dos advogados de exercerem sua atividade/múnus de acordo com a previsão legal – haja vista que muitos foram impedidos de tomarem ciência e terem acesso às investigações e aos próprios processos. Isso, por certo, inviabiliza o exercício da atividade advocatícia, bem como, o próprio direito constitucional ao contraditório e ampla defesa, do cidadão.

Portanto, em sentimento íntimo, não aprecio a atuação da OAB – instituição nacional. Sinto que o presidente Beto Simonetti, junto com sua diretoria, não adotara atitudes enérgicas e, principalmente, necessárias para a defesa dos advogados. Vejo que foi um tanto quanto apagada sua atuação (ou, até mesmo, indiferente e/ou contrária aos interesses e prerrogativas do advogado).

Infelizmente, senti que a Seccional de Mato Grosso, de igual modo, não levantou maiores discussões ao tema e/ou defesas à advocacia. Portanto, a atuação e papel da OAB (Nacional e Seccional aqui citadas) no que tange aos próprios advogados (suas prerrogativas e direitos), silenciaram-se (ou pouco manifestaram), de modo que me sinto insatisfeito e não devidamente representado – e acredito que esse é o sentimento da maioria da classe.

E isso, pois, costumo pensar e dizer que: sendo uma profissão que não tolera covardes, a advocacia exerce o embate e a busca pela justiça de forma convulsa e enérgica; formas essas alimentadas pela esperança e fé, tão quão estes são alimentados por aqueles, a ponto de não se deitar às injustiças.

Redação EB – Outra característica da atualidade que envolve o exercício da advocacia é o ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado de maneira contundente as redes sociais e até mesmo os noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. O advogado precisa estar atento a isso e saber fazer a leitura dessa condição cotidiana, já que um falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?

Dr. Felipe Pelegrini – Sim, precisa mesmo! Para essa questão, eu friso a conclusão exposta no questionamento anterior, onde expus a opinião de que “…muitas das legislações e direitos vigentes e existentes, podem ser simplesmente ‘reutilizadas’ e adequadas às necessidades atuais, sem necessidade de maiores alardes, alarmismos e confusões.”

Digo isso, porque vejo que a legislação existente já traz a previsão legal sobre tema. Entendo que “Fake News” são atos, em sua maioria, ilícitos, “renomeados”.

Veja, o crime de Calúnia, por exemplo, previsto no artigo 138, do Código Penal, é configurado pelo ato de imputar falso crime à alguém. Portanto, aqui estamos diante de uma previsão de “Fake News” em um Decreto-lei que vigora desde 1942.

Além de outros como, difamação (art. 139); injúria (art. 138); falso testemunho (art. 342), e etc.

Contudo, entendo que há necessidade de adequação – se não, de um Novo Código Penal – para atualizar e prever especificamente eventuais delitos que “surgiram” e/ou se desdobraram compondo as atuais “Fake News”.

No caso do advogado, que acabe se deparando com informações que podem alternar a direção do processo (em detrimento ao seu cliente), deve prosseguir com certa cautela e diligência. A busca pela verdade real sempre deve prevalecer, e medidas/requerimentos devem ser efetivados com essa finalidade.

Isso, aliás, se faz muito necessário para informações trazidas pelo próprio cliente (e testemunhas do cliente), para evitar problemas e prejuízos futuros, seja no próprio processo, seja na configuração de eventual ilícito.

O advogado deve ser atento e diligente!

Redação EB – O Ministério Público tem como função constitucional a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Porém, seus componentes (os Promotores de Justiça) são, muitas vezes, interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?

Dr. Felipe Pelegrini – Sérgio, novamente encontramos a “ideologia” como um ponto crucial que altera e obstrui, de certa forma, a posição legal que deveria ser mantida e adotada por qualquer operador do direito. Em outras palavras, quando se sobrepõe a ideologia à literalidade da norma, de modo à retrair esta, deparamo-nos com situações que trarão conflitos e discussões acaloradas, além de inquestionável restrição e/ou distorção de determinados direitos existentes – muitos deles até mesmo fundamentais e/ou indisponíveis, como, por exemplo, a liberdade de expressão e livre manifestação.

Como mencionei em questão anterior, entendo que a divergência de pensamentos (as ideologias) deve ser respeitada e, dado o Estado democrático em que vivemos, ser pauta de discussão sérias e comprometidas, para que, diante de argumentos e contra-argumentos e através da hermenêutica jurídica, possa trazer à realidade prática o melhor entendimento e adequação daquele conjunto de ideias, por meio de uma norma escrita. Essa norma ditará, aos casos práticos futuros, como o cidadão, judiciário e toda a sociedade – em sentido amplo – deverá se posicionar e agir quando se deparar com casos similares.

Dessa forma, minha percepção é que a ideologia traz, consigo, de forma indivisível, a parcialidade sobre determinados assuntos e, por assim ser, acaba distorcendo e desequilibrando a balança da justiça, ferindo, portando, direitos alheios existentes.

Essa questão (que de fato é realidade, caso contrário não seria objeto de tal indagação), desvirtua a atuação e múnus do Ministério Público, e isso, pelo fato da costumeira tentativa de imposição de tais ideias/ideologias, sem a devida e necessária discussão. Fato esse que acaba “impondo/forçando” situações que divergem da norma existente.

Isso, sem dúvidas, traz consequências, em sua maioria prejudiciais, à advocacia e, friso, à própria justiça, influenciando-as.

Portanto, ao meu ver, a discussão sensata, com o exercício da palavra e do discurso (argumentos e contra-argumentos), com o devido respeito e atenção às necessidades da sociedade, e sem atropelo aos direitos e normas existentes, seria o melhor caminho para firmar e reafirmar, em suas cotidianas alternâncias, os entendimentos que devem prevalecer – friso, de forma sensata e sem a imposição de ideias e ideais.

Quanto ao relacionamento da Advocacia com o Ministério Público, apesar do que exposto acima, vejo que é cordial, respeitoso e pacífico. Claro que, como em todas as classes e atividades/áreas de trabalho/atuação existem discussões e imbróglio, nessa seara onde a palavra é a “arma” do seu exercício, não seria diferente.

Todavia, essas questões não superam a cordialidade, respeito e pacificidade que selam e entrelaçam-se entre Advocacia e Ministério Público.

Redação EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?

Dr. Felipe Pelegrini – Devo me manifestar com “sim” para todos os pontos. Todos os problemas, a meu ver, advém da falha de gestão do Judiciário.

Para melhor compreensão, podemos fazer uma analogia do Judiciário com uma empresa/fábrica: se a produção está limitada e não há como desafogar e atender todos os pedidos, necessário se faz a expansão da empresa/fábrica e a contratação de mais colaboradores.

Contudo, imperioso destacar que números não resolvem. Há que se contratar com qualidade.

Nesse tocante, cito a justiça federal do trabalho, cuja qual estagiei na época da faculdade. A justiça do trabalho é formada quase que exclusivamente por servidores concursados, os quais são submetidos a concursos de altíssimo nível. Lá, além do número suficiente de servidores, a mão-de-obra é qualificada.

Não estou aqui desmerecendo a Justiça Comum, pois aqueles servidores se desdobram em dois, três, ou mais, para conseguir dar conta dos inúmeros processos existentes. Contudo, há que se fazer esse comparativo das realidades das justiças citadas, e que a Advocacia detém conhecimento. Infelizmente, é a realidade.

E não consigo observar que seria falta de recursos para tanto. Pois as altas taxas e custas processuais, além de toda a arrecadação destinada aos Tribunais de Justiça, não permitem pensar nesse “óbice”. Espero que os Tribunais de Justiça, especialmente o do Mato Grosso, possam rever essa realidade e se conscientizar da necessidade de melhoria nos serviços – e também melhoria no ambiente de trabalho dos próprios servidores.

 

Redação EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?

Dr. Felipe Pelegrini – Olha, Sérgio, percebo que, além do desrespeito às prerrogativas, um dos maiores entraves refere-se aos honorários. Apesar de sua natureza alimentar – pois trata-se do salário para o pão de cada dia do advogado – em sua maioria, os honorários são arbitrados de maneira vil e desrespeitosa, mesmo diante da previsão legal (artigo 85, §2º, Código de Processo Civil) que determina e impõe que os honorários sejam arbitrados em, no mínimo, 10% (dez por cento), sobre o valor da causa ou do proveito econômico.

Para citar um exemplo, tivemos um caso recente aqui no escritório, de um processo que trilhava há quase uma década, onde o juízo arbitrou os honorários em 5% (cinco por cento) do valor da causa.

Em analogia, Sérgio, digo que essa situação é como um cidadão/trabalhador com carteira assinada e previsão de receber 1 (um) salário mínimo, chegasse no fim do mês e seu patrão lhe pagasse apenas meio salário. Absurdo!

Acredito, à primeira vista, que esse é o maior entrave do advogado: o desrespeito aos honorários legalmente constituídos, previstos e delimitados.

Redação EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?

Dr. Felipe Pelegrini – Aqui, volto a mencionar sobre a parcialidade que expus na questão que se referiu ao Ministério Público. A ideologia possui o costumeiro ato de imposição – de suas ideias, valores, princípios – de forma desrespeitosa e forçosa, que, inclusive, não aceita divergências e pensamentos contrários.

Portanto, uma doutrinação ideológica, a meu ver, que não aceita o diálogo e discussão (lembre-se, argumentos e contra-argumentos) com a finalidade de alcançar um denominador comum, não encontra respaldo em um Estado Democrático.

A Educação deve desenvolver a construção de ideias e soluções; incentivar o auto raciocínio e o pensamento crítico-construtivo e argumentativo. Impor determinada linha de pensamento, como se outra não existisse, é justamente esfacelar o poder de raciocínio lógico e filosófico.

Definitivamente, a profissão do advogado é argumentar e contra-argumentar (bato bastante nessa “tecla”), de modo que impor um único pensamento/ideologia, acarretará em prejuízos imensos à advocacia e, muito além, à toda a sociedade e ao Estado Democrático de Direito.

Redação EB – O senhor acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?

Dr. Felipe Pelegrini – Não! Definitivamente, não! Por certo que trará consequências – sejam boas, ou ruins, ainda é cedo para saber. Contudo, entendo se tratar tão somente de uma ferramenta, e não o mecanismo inteiro. Não há como haver justiça, dada a peculiaridade de cada caso, sem a mão e sensibilidade do advogado.

Entendo que o Advogado, em bom e corajoso combate, exalando sedutor exercício da palavra e do discurso (argumentos e contra-argumentos), exterioriza e concretiza a hermenêutica jurídica de normas e entendimentos, que se firmam e reafirmam em suas alternâncias, almejando a justiça e a defesa de direitos.

Friso: não há justiça que se faça sem o múnus advocatício!

Redação EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como o senhor vê o futuro da advocacia?

Dr. Felipe Pelegrini – Adequação! A Advocacia terá de se adequar às novas realidades e questões que surgirão.

Tão quão foi na revolução industrial, a revolução tecnológica (que se faz constante e a todo vapor há décadas) trará benefícios e desafios. E a Advocacia se adequará à essas realidades, e se manterá em intensa

atividade. Pois à cada evolução, surgirão novas questões que demandarão o exercício da advocacia.

Para o futuro resta a adequação à cada passo dado, à cada degrau alcançado. E volto a mencionar, sobretudo: não há justiça que se faça sem o múnus advocatício. O advogado é indispensável à administração da justiça.

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ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO

Drª Gisela Cardoso: Representação feminina em defesa da advocacia e pela interiorização da OAB

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A advogada Gisela Alves Cardoso é a entrevistada desta quarta-feira (21) do Enfoque Business, fechando com estilo a série de reportagens alusiva ao Dia do Advogado, celebrado em 11 de agosto.

Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de Mato Grosso da (OAB-MT) – Drª Gisela desponta como nova liderança mato-grossense, reunindo várias virtudes à frente de uma entidade que atua em defesa da sua categoria, da sociedade e da Constituição Federal.

Ela traduz em sua trajetória de vida o que disse, recentemente, a executiva Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil: “Não acreditem em quem não acredita em vocês (…). Se o resultado for a sua felicidade, abrace a oportunidade”.

Dinâmica e à frente de seu tempo, Gisela Alves Cardoso sempre foi inspiração em sua família, antes mesmo de se projetar na advocacia e na sociedade. Filha do caminhoneiro Augusto Cardoso e da dona de casa Ana Maria Alves Cardoso, é a primeira da família a conquistar o diploma universitário e se diz uma apaixonada pelo Direito.

Veio ainda pequena, com sua família, de São Paulo para Colíder, norte de Mato Grosso. Estudiosa e dedicada, começou dando aula de inglês. Na juventude, trabalhou em diversos empregos até iniciar carreira como bancária. Mudou-se para Capital e estudou Direito. Formou-se em 2001, e trocou a carreira de bancária pela advocacia.

Foi professora universitária por 10 anos, de 2007 a 2018. Tem enorme carinho pela docência, tendo contribuído para a formação de jovens advogados.

É especialista em Direito Empresarial e sócia no escritório Cardoso e Cardoso Advogados.

Há duas décadas na advocacia, faz parte da diretoria da OAB-MT há seis anos. Já foi Secretária Geral Adjunta e vice-presidente da Seccional. Também conduziu a Comissão da Mulher Advogada e participou da Comissão Nacional de Estudos Constitucionais. Atualmente, junto ao CFOAB é a coordenadora adjunta do Colégio de Presidentes Seccionais da OAB no triênio 2022-2024.

Em março do ano passado, recebeu a insígnia de Comendadora da Ordem São José Operário do Mérito Judiciário do Trabalho de 2023. A distinção é concedida pelo Tribunal Regional do Trabalho 23ª Região (MT), a cada dois anos, a personalidades e entidades que prestaram relevantes serviços à Justiça do Trabalho.

Orgulha-se de presidir a Seccional de Mato Grosso neste momento em que a Ordem dos Advogados instituiu a política de paridade de gênero nas eleições de todo o sistema OAB, ampliando a sua representação feminina.

Sua gestão tem sido marcada pela forte atuação na qualificação da advocacia, no combate à violência contra a mulher, no apoio ao jovem advogado, na qualificação da advocacia e na interiorização da Ordem dos Advogados.

Reside em Cuiabá e é casada com o também advogado Marlon Hudson Machado e mãe de João Pedro.

 

O diálogo

 

Redação EB – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda tem reagido. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que isso proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como a senhora avalia esse momento para a advocacia?

Drª Gisela Cardoso – Advogados e advogadas são cidadãos e cidadãs e, sendo assim, em ambiente democrático, têm todo o direito de se expressar politicamente e, na democracia, é salutar a diversidade ideológica, mas assevero que a Ordem dos Advogados, como instituição, apesar de acompanhar todos os movimentos da sociedade, não pode e nem deve ter ligação política com este ou aquele, com A ou com B, este é um paradigma que deve ser respeitado, porque a nossa instituição pertence à toda a advocacia e não a um partido político ou outro. Em todo o curso da história a forma da Ordem dos Advogados agir socialmente é cumprindo importante papel de ser voz da sociedade. No momento, saliento todo o envolvimento da nossa Seccional com o combate ao feminicídio. Então, em que pese os imbróglios das fases políticas, a OAB segue sendo farol, na defesa do Estado Democrático de Direito e da nossa Constituição vigente.

Redação EB – Outra característica da atualidade que envolve o exercício da advocacia é o ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado de maneira contundente as redes sociais e até mesmo os noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. O advogado precisa estar atento a isso e saber fazer a leitura dessa condição cotidiana, já que uma falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?

Drª Gisela Cardoso – O fenômeno das fake news é recente, mas já mostrou seus efeitos nocivos. A OAB-MT tem falado sobre isso, através das comissões temáticas envolvidas com o tema, reprovando a prática em quaisquer âmbitos. E tem também inserido esta temática em eventos, para que a advocacia se informe, a cada dia mais, e saiba como agir, caso esteja diante desta questão. 

Redação EB – O Ministério Público tem como função constitucional a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Porém, seus componentes (os Promotores de Justiça) são, muitas vezes, interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?

Drª Gisela Cardoso – O que preconizamos sempre é atuação técnica, seja em qualquer âmbito do sistema de administração de justiça, do qual todos fazemos parte, Judiciário, Ministério Público, Advocacia. E a relação da advocacia com o Ministério Público é, via de regra, muito respeitosa.

Redação EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?

Drª Gisela Cardoso – O juiz, o magistrado, é um pacificador social muito importante, especialmente nos municípios menores. Quanto mais distantes do eixo das capitais, mais aumenta potencialmente essa responsabilidade. Então, garantir os juízes nas Comarcas, em todas elas, despachando com a advocacia, influenciando na paz social, é uma das pautas permanentes da OAB-MT.

 

Redação EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?

Drª Gisela Cardoso – A OAB é a maior entidade da sociedade civil brasileira e a Seccional de Mato Grosso acaba de completar 91 anos de história, defendendo a advocacia e, com isso, defendendo também a democracia, o Estado de Direito, o respeito à legislação, à Constituição Federal. Como voz da sociedade, a OAB-MT discute as grandes questões sociais e contribui apontando saídas. Foi assim o trabalho feito pela OAB-MT para resolver os problemas com a concessão da BR-163, é assim com toda a luta que trava para combater o feminicídio. São 69 comissões temáticas. Então a OAB-MT está em muitos espaços da nossa sociedade atuando. Costumo dizer que a OAB-MT é incansável para defender a advocacia e a sociedade.

Redação EB – Quais os principais destaques da sua gestão na presidência da OAB-MT nesses dois anos e meio de gestão?

Drª Gisela Cardoso – Acredito que um dos principais destaques na minha gestão é o acolhimento ao Jovem Advogado, para que chegue ao mercado de trabalho com apoio, porque os primeiros passos não são fáceis. Quando me formei, sem nenhum outro advogado na família, nenhum parente para me indicar para nada, tive que enfrentar a vida profissional com bastante obstinação e busquei a Ordem dos Advogados, para me dar suporte. Então, agora como presidente, tenho um carinho muito especial por aqueles que estão chegando, para que tenham todo apoio e suporte. Também cito o projeto OAB Presente, que é uma forma da instituição Ordem dos Advogados ir até à advocacia onde quer que esteja, ouvir o que ela tem a dizer. Então, saímos em comitiva da Seccional e vamos aos escritórios, na Capital e em diversas cidades de Mato Grosso.

Outro destaque acredito que seja minha luta contra a violência de gênero, seja em ambiente doméstico, o que no limite nos apresenta como o feminicídio, seja no processo eleitoral, em razão de que, nós, mulheres, podemos votar há 100 anos, mas ainda temos muitas dificuldades para ser votadas, para ocuparmos esses cargos eletivos. A luta é grande também contra o assédio moral e sexual, em razão de que esta ainda é uma realidade a ser combatida, com muita coragem. Mais um destaque é a nossa Escola Superior de Advocacia, já entregamos 14 cursos de pós graduação, nesses dois anos e meio, isso nunca aconteceu, isso é histórico. Acreditamos muito em qualificação, atualização, para fortalecer o advogado, a advogada, porque o conhecimento pavimenta o exercício profissional, é o caminho mais profícuo para o sucesso.

Quanto à infraestrutura do Sistema OAB, atuamos junto com as subseções e foram entregues importantes obras para a advocacia do interior, como as novas sedes das subseções de Sinop e Juara e a primeira etapa da nova sede da subseção de Lucas do Rio Verde, entre outras reformas e ampliações em Barra do Garças, Cáceres, Campo Novo do Parecis, Colíder, Juína, Nova Mutum, Peixoto de Azevedo, Primavera do Leste, Rondonópolis e Sorriso. Trabalhamos diariamente para devolver à advocacia, em investimentos, obras e serviços, tudo o que é arrecadado com as anuidades. Essas inaugurações são reflexo desse trabalho. Espaços que vão atender aos advogados e advogadas, com estrutura, sustentabilidade e muita qualidade. Outra coisa importante é a autonomia da gestão financeira das Subseções. Neste período de dois anos e meio de gestão, os investimentos financeiros efetivados pela Seccional às subseções superaram o valor arrecadado em anuidades. Em números, a arrecadação foi de mais de R$ 9 milhões e a entrega que a Seccional fez às subseções de Mato Grosso superou os R$ 12 milhões. O aumento foi de 184% na comparação com o que as subseções recebiam anteriormente, indicando a preocupação da gestão com o fortalecimento e autonomia da gestão financeira da advocacia do interior. Precisamos devolver para a advocacia aquilo que recebemos. E é isso que estamos fazendo. A começar pela advocacia do interior. Outra prioridade e conquista da atual gestão da OAB-MT está no avanço da tecnologia. Hoje, 100% dos processos que tramitam na instituição são eletrônicos. E por aí vai!

Redação EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?

Drª Gisela Cardoso – A advocacia é uma profissão desafiadora, então os desafios são muitos, diários, agora entraves acredito que um deles seja o próprio mercado de trabalho que é muito competitivo. Por isso incentivamos a qualificação continuada e a atualização constante, para que o advogado e a advogada estejam plenamente aptos a dar as respostas que seus clientes esperam.

 

Redação EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?

Drª Gisela Cardoso – Temos uma grande preocupação em acompanhar a qualidade do ensino superior, os cursos de Direito. A OAB-MT preconiza o ensino técnico, a devida análise de conjuntura e as percepções sobre a atualidade. Temos ainda o Exame da Ordem.

Redação EB – A senhora acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?

Drª Gisela Cardoso – Inclusive já está influenciando e sendo usada também em escritórios, pelo Judiciário, demais atores da administração de Justiça. O debate ético sobre o uso da IA é amplo, tem sido feito com a sociedade, porque atinge diversos setores. Então, estamos atentos a este tema, discutindo em diversos eventos, como já disse incluindo o tema na programação e sabendo que há muitas formas da advocacia se beneficiar sim com a IA, com limites.

Redação EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como a senhora vê o futuro da advocacia?

Drª Gisela Cardoso – A advocacia tem seu passado, está viva, ativa, atuante, em destaque, em seu presente e assim estará no futuro,  é a única profissão reconhecida constitucionalmente como essencial para a administração da Justiça. Transformações são naturais do processo de evolução. Estaremos mudados, mas ainda assim essenciais.

Redação EB – Mais alguma consideração, Drª Gisela?

Drª Gisela Cardoso – Agradeço pelo espaço e por contribuir com as reflexões aqui propostas.

(Crédito das fotos: Divulgação)

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