TANGARÁ DA SERRA
Pesquisar
Close this search box.

Turismo

Cristiano Lopes: O turismo precisa transformar atrativos em produtos e experiências

Publicado em

Apresentada durante o 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra, palestra mostrou a dimensão econômica da atividade e os novos comportamentos de quem viaja

A parte final do 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra, na última quinta-feira (20), na OAB, trouxe uma reflexão importante para um setor que cresce a cada ano e tem representado uma importante fonte de emprego e renda: O turismo não começa e termina no atrativo. Entre o lugar que desperta interesse e a experiência que o visitante leva consigo existe uma cadeia de serviços, negócios, infraestrutura, planejamento e, sobretudo, capacidade de entender o que o turista procura.

Essa foi uma das principais mensagens deixadas pelo turismólogo, jornalista, professor e comunicador Cristiano Lopes durante a palestra “Cortando na Alta”, que concluiu o evento da última quinta-feira.

A exposição de Cristiano apresentou uma visão empresarial do turismo e trouxe elementos que ajudam a compreender os desafios para transformar o potencial turístico da região em atividade econômica estruturada. A discussão encaixou nos debates do Fórum, que reuniu representantes do trade turístico local, sete etnias e 33 aldeias da Grande Chapada dos Parecis, além de membros do poder público local e regional.  O evento levou à constatação de que para o etnoturismo se desenvolver há necessidade de organização, planejamento, capacitação e integração regional.

Cristiano Lopes: “Turismo se faz com evento, deslocamento, motivação e hospitalidade.”

O palestrante recorreu à história para mostrar que a atividade turística não é recente. Situou uma de suas primeiras manifestações na Grécia Antiga, provavelmente em 776 a.C., associada aos deslocamentos provocados pelos Jogos Olímpicos. Séculos mais tarde, em 1841, o inglês Thomas Cook, missionário batista e empresário, seria reconhecido como um dos pioneiros da organização comercial das viagens, ajudando a transformar o deslocamento em produto turístico.

A partir dessa evolução, o palestrante apresentou uma definição que resume a dinâmica do setor: turismo se faz com evento, deslocamento, motivação e hospitalidade.

São elementos que precisam funcionar de maneira articulada. Um evento pode gerar deslocamento; um atrativo pode despertar motivação; mas é a qualidade da experiência, incluindo os serviços oferecidos ao visitante, que determina parte importante do resultado.

Uma cadeia muito maior

Cristiano chamou atenção para a dimensão econômica do turismo. A atividade movimenta diretamente hotéis, agências de viagens, companhias aéreas, restaurantes e outros segmentos, mas seus efeitos se espalham por uma cadeia muito mais ampla.

Segundo dados apresentados na palestra, a cadeia do turismo alcança inicialmente 52 setores diferentes. Considerando uma classificação mais abrangente utilizada pela Embratur, esse universo pode chegar a cerca de 570 atividades econômicas, distribuídas em quatro grandes grupos.

Evento foi acompanhado por representantes de sete etnias e 33 aldeias Grande Chapada dos Parecis.

As atividades diretas, ligadas ao atendimento do turista, reúnem 21 setores. As compartilhadas, que atendem tanto moradores quanto visitantes — como restaurantes, bares, táxis e hospitais — chegam a 191. As indiretas, fornecedoras de insumos e serviços para empresas turísticas, incluem 142 setores, abrangendo atividades como agricultura familiar, contabilidade e limpeza.

Leia mais:  Fórum define prioridades para transformar potencial em etnoturismo organizado na região

Há ainda as atividades beneficiadas, que recebem impactos positivos quando o mercado turístico se aquece, como construção civil e indústria de móveis, somando 217 setores.

A dimensão da cadeia ajuda a explicar por que o turismo é tratado cada vez mais como instrumento de desenvolvimento econômico. Quando um destino consegue ampliar o fluxo de visitantes, os efeitos não ficam restritos ao local visitado. Eles se espalham pela economia.

É justamente nesse ponto que Cristiano defendeu uma mudança de perspectiva: turismo precisa ser encarado como negócio, ter gestão e ser tratado como varejo.

Empresários na liderança da cadeia

Na avaliação do palestrante, a iniciativa privada deve assumir papel central na condução da atividade. “Os gestores públicos estão, enquanto os empresários são”, afirmou, ao defender que os empresários do setor liderem a cadeia do turismo.

A afirmação não elimina a responsabilidade do poder público. Ao contrário, coloca a infraestrutura e as políticas públicas como condições necessárias para que o setor privado possa desenvolver os negócios.

A infraestrutura, segundo Cristiano, precisa ser planejada para servir adequadamente ao turismo. Estradas, sinalização, conectividade, saneamento, segurança, mobilidade e serviços públicos fazem parte da experiência do visitante e interferem diretamente na capacidade de um destino competir no mercado.

Na outra ponta está a transformação da atração em produto turístico. Ter uma paisagem, uma cachoeira, um rio, uma aldeia ou uma manifestação cultural não significa, automaticamente, possuir um produto comercializável.

É necessário organizar o acesso, definir a experiência, estabelecer serviços, preparar pessoas, determinar preços e criar mecanismos de comercialização. “Se não há estrutura e segurança, o turista evita”, observou Cristiano Lopes.

A lógica pode ser resumida em quatro elementos: recursos, produto, oferta e mercado ou demanda.

Da perspectiva de quem vende para quem compra

Uma das provocações centrais da palestra foi a necessidade de inverter a lógica tradicional do turismo. “Menos sobre quem vende e mais sobre quem compra.”

As atrações são inúmeras, mas para o etnoturismo se desenvolver há necessidade de organização, planejamento, capacitação e integração regional.

A pergunta fundamental, portanto, deixa de ser apenas o que determinado destino deseja oferecer e passa a ser: o que o visitante quer?

Cristiano listou alguns dos elementos que hoje influenciam a decisão do consumidor: experiência, storytelling (o turista gosta de ouvir histórias), ineditismo, atendimento de qualidade, locais visualmente atrativos e compartilháveis nas redes sociais, boa gastronomia, conforto e oportunidades de compras.

Nesse ambiente, a experiência turística ganha valor à medida que consegue combinar diferentes componentes.

Um visitante pode se deslocar centenas de quilômetros para conhecer uma paisagem, mas sua percepção do destino será formada também pela recepção, pelo transporte, pela alimentação, pela hospedagem, pelas informações recebidas e pela história contada sobre aquele lugar.

Leia mais:  1º Fórum aponta caminho para organização do etnoturismo na “Grande Chapada dos Parecis”

Ou seja, o conjunto transforma a visita em experiência.

Essa concepção tem aplicação direta ao etnoturismo que começa a ser estruturado na Grande Chapada dos Parecis. Os rios preservados, os territórios ancestrais, a cultura, os sabores e os saberes dos povos indígenas representam recursos turísticos de grande singularidade. O desafio seguinte é transformá-los, com o protagonismo das comunidades e dentro das regras de visitação, em experiências organizadas e sustentáveis.

Novos públicos, novos mercados

As mudanças no perfil dos consumidores do turismo também foram mencionadas por Cristiano. Entre elas está a expansão do turismo de luxo e, conforme citou o palestrante, o crescimento da participação das pessoas com mais de 50 anos no mercado de viagens.

O envelhecimento da população, o aumento da expectativa de vida, a maior disponibilidade de tempo depois da aposentadoria e o poder de compra de parte desse público estão criando novas demandas para empresas e destinos.

O chamado mercado da longevidade passa, assim, a exigir produtos específicos, com conforto, segurança, qualidade de atendimento e experiências adequadas às características desse consumidor.

Para destinos emergentes, compreender esses movimentos pode representar uma vantagem competitiva. Não basta saber quais atrações existem. É preciso conhecer quem pode se interessar por elas e quais condições esse público espera encontrar. “Daí a importância do planejamento”, disse Lopes.

Visão, planejamento e ação

Ao apresentar sua estratégia para o desenvolvimento turístico, Cristiano estabeleceu uma sequência baseada em visão, mindset, planejamento, ação e resultado.

O conceito reforça uma das preocupações que atravessaram o 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra: a região possui recursos, mas precisa criar as condições para transformá-los em uma atividade econômica organizada. “Isso significa qualificar os diferentes elos da cadeia e perseguir qualidade em todos eles”, disse Lopes.

Região possui recursos, mas precisa criar as condições para transformá-los em uma atividade econômica organizada.

Para a Grande Chapada dos Parecis, a discussão ganha uma dimensão particular. A região reúne cinco municípios, sete etnias e 33 aldeias com potencial ou estrutura para visitação. Possui natureza preservada, patrimônio cultural e experiências que dificilmente podem ser reproduzidas em outros destinos.

Mas singularidade não é suficiente.

A palestra de Cristiano Lopes acrescentou ao debate uma pergunta essencial: como fazer com que aquilo que a região possui seja percebido, desejado, comprado e vivido pelo visitante?

A resposta passa pela transformação do recurso em produto, pela qualidade dos serviços, pela profissionalização da cadeia e pela compreensão do consumidor.

No caso do etnoturismo, passa também por uma condição que antecede todas as demais: fazer isso respeitando os territórios, a cultura e as decisões dos povos indígenas.

É nesse encontro entre patrimônio, experiência, gestão e mercado que pode estar uma das oportunidades para o desenvolvimento turístico da região. O desafio não é apenas levar pessoas até a Grande Chapada dos Parecis. É fazer com que elas encontrem uma experiência de qualidade — e que essa experiência gere benefícios econômicos e sociais para quem vive no território.

Comentários Facebook
Advertisement

Turismo

Fórum define prioridades para transformar potencial em etnoturismo organizado na região

Published

on

Capacitação, tecnologia, políticas públicas regionais e aproximação entre sociedade e povos indígenas estão entre os encaminhamentos debatidos em Tangará da Serra

O levantamento de sete etnias e 33 aldeias com potencial ou estrutura para visitação revela uma oportunidade regional. Mas o 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra também deixou claro que potencial, por si só, não constitui um destino turístico.

Para transformar os recursos culturais e naturais da Grande Chapada dos Parecis em uma atividade organizada, planejada e sustentável, será necessário enfrentar uma série de desafios. Entre os encaminhamentos debatidos no encontro estão a capacitação de gestores e empresários, a implantação de tecnologias de controle, a definição de políticas públicas regionais e a redução do distanciamento entre a sociedade e os povos indígenas.

Sommavilla: Informação e capacitação podem contribuir para reduzir esse “abismo” de conhecimento cultural e social.

O secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico de Tangará da Serra, Silvio José Somavilla, destacou a necessidade de avançar na organização do setor em escala regional. A estruturação do etnoturismo, segundo as discussões realizadas no Fórum, dependerá de planejamento capaz de integrar diferentes atores e organizar demandas que hoje podem estar dispersas entre municípios, comunidades e empresas.

Um dos primeiros desafios é a capacitação. A atividade exige preparo dos gestores públicos, empreendedores e profissionais que atuam diretamente com o visitante. O conhecimento necessário não se limita à operação convencional do turismo. Envolve também compreensão cultural, legislação, sustentabilidade, segurança e respeito às especificidades de cada território.

Organizar antes de crescer

A preocupação central é evitar que o aumento da procura aconteça antes da existência de mecanismos adequados de organização.

Entre as propostas debatidas está a implantação de tecnologias de controle voltadas à gestão das visitas e à estruturação de rotas seguras e sustentáveis. Ferramentas desse tipo podem contribuir para organizar informações sobre os destinos, orientar visitantes, acompanhar fluxos e auxiliar na definição de limites para determinadas atividades.

A lógica é substituir a improvisação por planejamento.

Isso se torna especialmente importante em uma região onde as experiências turísticas envolvem territórios indígenas e áreas naturais preservadas. O crescimento da atividade precisa estar acompanhado de critérios que protejam tanto o patrimônio ambiental quanto os interesses das comunidades.

A chefe da Coordenação Técnica Local da Funai, Ivanilde Bezerra do Nascimento, destacou as normas que regulamentam o ingresso e a permanência de visitantes em terras indígenas, incluindo a Instrução Normativa nº 03/2020.

Leia mais:  Fórum define prioridades para transformar potencial em etnoturismo organizado na região

As regras existentes demonstram que o etnoturismo não pode ser tratado como uma atividade sem condicionantes. A visitação depende de procedimentos específicos e deve respeitar as decisões e a participação das comunidades envolvidas.

A construção de um modelo regional, portanto, precisará conciliar desenvolvimento econômico, legislação, sustentabilidade e autonomia dos povos indígenas.

Políticas públicas de escala regional

Outro encaminhamento foi a necessidade de políticas públicas capazes de enxergar o etnoturismo para além dos limites administrativos de cada município.

A Grande Chapada dos Parecis envolve Barra do Bugres, Tangará da Serra, Campo Novo do Parecis, Sapezal e Brasnorte. A existência de destinos distribuídos por cinco municípios torna necessária uma articulação que permita estabelecer prioridades comuns.

Para Wesley Granella Oenning, secretário de Desenvolvimento Econômico, Meio Ambiente e Turismo de Barra do Bugres e presidente da Associação Caminho das Nascentes, o fortalecimento de um município repercute em toda a região.

“O fortalecimento é para todos os municípios, pois quando um município se fortalece, todos da região saem fortalecidos”, afirmou.

Sua defesa da organização das atrações e do setor em microrregiões aponta para um modelo no qual os destinos não atuariam isoladamente. A ideia é que a estruturação das rotas possa conectar diferentes experiências e, ao mesmo tempo, distribuir os benefícios econômicos entre as localidades.

Essa articulação poderá envolver desde a identificação e qualificação das atrações até a formação de roteiros, integração da rede de hospedagem e alimentação, preparação de condutores e desenvolvimento de canais confiáveis de informação.

Reduzir o abismo de conhecimento

Talvez um dos desafios menos visíveis seja justamente o distanciamento cultural existente entre parte da sociedade e os povos indígenas.

Silvio Somavilla defendeu que informação e capacitação podem contribuir para reduzir esse “abismo” de conhecimento cultural e social. A proposta é que a aproximação promovida pelo etnoturismo ocorra com base no respeito e no conhecimento, e não em estereótipos.

Esse ponto pode ter efeitos que vão além da atividade econômica. Uma sociedade que conhece melhor os povos que fazem parte de seu próprio território tende a compreender com maior profundidade a diversidade histórica e cultural da região.

História na aldeia: Inscrições rupestres na região do Formoso contam histórias do povo indígena da região.

Para o cacique Salomão Nezokemazokemae, a questão do protagonismo é fundamental. Ao afirmar que espera o dia em que “o índio vai poder falar por ele mesmo”, ele também sintetizou a necessidade de ampliar os espaços de representação dos povos indígenas.

Leia mais:  1º Fórum aponta caminho para organização do etnoturismo na “Grande Chapada dos Parecis”

No etnoturismo, esse princípio significa assegurar que as comunidades não sejam apenas objeto de visitação, mas participantes das decisões e protagonistas na construção dos roteiros e das experiências oferecidas.

A mensagem que os povos indígenas desejam transmitir, segundo Salomão, envolve “quem somos, o que fazemos e o que queremos com o etnoturismo”.

Uma possível Carta do Etnoturismo

Entre as sugestões apresentadas por Somavilla está a elaboração de um documento que reúna as principais discussões e diretrizes surgidas no Fórum, em uma espécie de Carta do Etnoturismo.

A iniciativa poderia registrar uma agenda comum para os próximos passos, estabelecendo princípios e prioridades capazes de orientar a atuação regional.

A ideia é relevante porque o Fórum reuniu diferentes setores. Estiveram presentes lideranças indígenas, representantes da Funai, gestores municipais, empresários e profissionais ligados ao desenvolvimento turístico. A continuidade dessa articulação será determinante para que o encontro não se limite a um diagnóstico do potencial existente.

A mediadora do Fórum, Tatiane Fernandes (foto acima), consultora credenciada do Sebrae Mato Grosso, conduziu as discussões que aproximaram essas diferentes perspectivas. Ao final, os encaminhamentos indicaram uma agenda baseada em quatro grandes eixos: qualificação, tecnologia e controle, políticas públicas regionais e aproximação entre a sociedade e os povos indígenas.

O desafio agora será converter os debates em ações.

Destino turístico regional estruturado

A Grande Chapada dos Parecis já possui uma base territorial expressiva para o etnoturismo. O próximo estágio é mais complexo: identificar demandas, organizar atrações, definir responsabilidades, preparar empresas e gestores e estabelecer modelos de visitação compatíveis com as decisões das comunidades.

Nesse processo, a principal estratégia não parece ser crescer rapidamente. É crescer de forma organizada.

Como destacou Sílvia Fraga de Souza, coordenadora da Agência do Sebrae em Tangará da Serra, “no turismo não existe concorrência, existem parcerias”. Para uma região formada por cinco municípios, sete etnias e dezenas de aldeias, essa cooperação poderá ser justamente o elemento capaz de transformar potenciais dispersos em um destino regional estruturado.

O 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra deixa, assim, uma agenda que começa pela organização. A oportunidade econômica existe, mas seu aproveitamento dependerá da capacidade de construir um turismo responsável, seguro e sustentável — com os povos indígenas no centro das decisões sobre seus territórios, suas culturas e suas experiências.

Comentários Facebook
Continue Reading

Envie sua sugestão

Clique no botão abaixo e envie sua sugestão para nossa equipe de redação
SUGESTÃO

Empresas & Produtos

Economia & Mercado

Contábil & Tributário

Governo & Legislação

Profissionais & Tecnologias

Mais Lidas da Semana