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Turismo

Cuiabá e Sinop entram em pesquisa nacional que vai mapear perfil dos turistas

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Levantamento do Ministério do Turismo terá 22,5 mil entrevistas em 50 municípios e poderá revelar o peso do turismo de negócios em Mato Grosso

Mato Grosso está entre os estados selecionados para participar de uma pesquisa inédita do Ministério do Turismo (MTur) destinada a mapear o perfil e o comportamento dos turistas no Brasil. Cuiabá e Sinop estão entre os 50 municípios das cinco regiões escolhidos para receber a coleta de dados, que prevê cerca de 22,5 mil entrevistas presenciais até 3 de outubro. Os resultados deverão ser divulgados até abril de 2027.

Realizada pelo Ministério do Turismo em parceria com o Itaipu Parquetec, a Pesquisa Nacional de Demanda Turística (PNDT) pretende identificar quem são os visitantes, por que viajam, como escolhem os destinos, quanto gastam e como avaliam a experiência. O levantamento também vai analisar transporte, hospedagem, tempo de permanência, composição dos grupos, atividades realizadas e percepção sobre infraestrutura, qualidade dos serviços, acessibilidade, segurança, conectividade e preços.

Mais do que produzir um retrato do turista brasileiro e estrangeiro, a iniciativa busca gerar informações capazes de orientar políticas públicas, investimentos e estratégias para o desenvolvimento do turismo. O questionário é padronizado nos 50 municípios, permitindo comparar diferentes realidades turísticas do país.

Mato Grosso na pesquisa

A presença de Cuiabá e Sinop entre os municípios selecionados coloca duas realidades distintas de Mato Grosso dentro do levantamento nacional. A capital reúne a função de centro administrativo e de serviços com sua posição estratégica para o acesso a destinos como o Pantanal e a Chapada dos Guimarães. Sinop, por sua vez, exerce forte influência regional e está inserida em uma das principais áreas de produção e serviços do estado, com destaque para o agronegócio e o turismo relacionado a negócios e eventos.

Rios de Mato Grosso, como o Teles Pires, oferecem uma variedade de atrativos, da pesca ao potencial de balneabilidade. (Foto: Enfoque Business)

A escolha dos municípios considera o Mapa do Turismo Brasileiro e indicadores relacionados à atividade, entre eles o Índice Geral dos Municípios, que reúne 70 indicadores distribuídos em dez dimensões relacionadas ao turismo.

Para Mato Grosso, os dados poderão ajudar a dimensionar uma característica particularmente importante do setor: a capacidade de eventos, feiras, congressos e atividades empresariais de gerar fluxo de visitantes.

Turismo de negócios amplia o alcance dos destinos

O turismo mato-grossense possui forte associação com seus atrativos naturais, como o Pantanal, rios, cachoeiras e áreas de preservação. Entretanto, a movimentação de visitantes não depende apenas da viagem planejada exclusivamente para o lazer.

Realização de grandes eventos pode trazer visitantes de outras regiões e criar oportunidades para que conheçam atrativos locais.

Em um estado cuja economia é fortemente vinculada ao agronegócio e às atividades empresariais, o turismo de negócios pode funcionar como uma porta de entrada para outros segmentos turísticos. Um congresso, uma feira ou um encontro corporativo pode levar o visitante a uma cidade por motivos profissionais e, a partir dessa permanência, proporcionar contato com os atrativos naturais, culturais e gastronômicos da região.

Salto das Nuvens, em Tangará da Serra, é um dos principais atrativos do interior de Mato Grosso.

O fenômeno pode ser observado também em municípios do interior. Em Tangará da Serra, por exemplo, a realização de grandes eventos pode trazer visitantes de outras regiões e criar oportunidades para que conheçam atrativos como o Salto das Nuvens, aldeias indígenas, pesqueiros e outros pontos turísticos do entorno.

Essa conexão entre negócios e lazer é relevante para o setor porque amplia o potencial econômico da visita. O turista que chega para participar de um evento movimenta não apenas hotéis e espaços de eventos, mas também restaurantes, transporte, comércio, serviços e atrativos turísticos.

Dados podem orientar investimentos

A pesquisa deverá oferecer ao poder público e ao setor privado informações sobre quem visita Mato Grosso, quais são suas motivações, como se desloca, onde se hospeda, quanto permanece, quanto gasta e como avalia os serviços oferecidos.

Esses dados podem contribuir para decisões relacionadas à infraestrutura, qualificação dos serviços, promoção dos destinos e integração entre turismo de lazer e turismo de negócios.

A expectativa do Ministério do Turismo é que o levantamento permita identificar padrões de comportamento dos visitantes e orientar ações voltadas ao desenvolvimento dos destinos. A pesquisa integra as ações do Observatório Nacional de Turismo Sustentável e é coordenada pela Rede Brasileira de Observatórios de Turismo (RBOT).

A iniciativa também prevê workshops nas cinco regiões brasileiras e uma conferência nacional até o primeiro semestre de 2027.

Para Mato Grosso, a participação de Cuiabá e Sinop representa a oportunidade de colocar dados concretos sobre o comportamento dos visitantes dentro de uma discussão que vai além dos atrativos naturais: o turismo como atividade econômica e o turismo de negócios como mecanismo de atração de pessoas, circulação de renda e conexão dos visitantes com os destinos mato-grossenses.

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Turismo

Cristiano Lopes: O turismo precisa transformar atrativos em produtos e experiências

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Apresentada durante o 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra, palestra mostrou a dimensão econômica da atividade e os novos comportamentos de quem viaja

A parte final do 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra, na última quinta-feira (20), na OAB, trouxe uma reflexão importante para um setor que cresce a cada ano e tem representado uma importante fonte de emprego e renda: O turismo não começa e termina no atrativo. Entre o lugar que desperta interesse e a experiência que o visitante leva consigo existe uma cadeia de serviços, negócios, infraestrutura, planejamento e, sobretudo, capacidade de entender o que o turista procura.

Essa foi uma das principais mensagens deixadas pelo turismólogo, jornalista, professor e comunicador Cristiano Lopes durante a palestra “Cortando na Alta”, que concluiu o evento da última quinta-feira.

A exposição de Cristiano apresentou uma visão empresarial do turismo e trouxe elementos que ajudam a compreender os desafios para transformar o potencial turístico da região em atividade econômica estruturada. A discussão encaixou nos debates do Fórum, que reuniu representantes do trade turístico local, sete etnias e 33 aldeias da Grande Chapada dos Parecis, além de membros do poder público local e regional.  O evento levou à constatação de que para o etnoturismo se desenvolver há necessidade de organização, planejamento, capacitação e integração regional.

Cristiano Lopes: “Turismo se faz com evento, deslocamento, motivação e hospitalidade.”

O palestrante recorreu à história para mostrar que a atividade turística não é recente. Situou uma de suas primeiras manifestações na Grécia Antiga, provavelmente em 776 a.C., associada aos deslocamentos provocados pelos Jogos Olímpicos. Séculos mais tarde, em 1841, o inglês Thomas Cook, missionário batista e empresário, seria reconhecido como um dos pioneiros da organização comercial das viagens, ajudando a transformar o deslocamento em produto turístico.

A partir dessa evolução, o palestrante apresentou uma definição que resume a dinâmica do setor: turismo se faz com evento, deslocamento, motivação e hospitalidade.

São elementos que precisam funcionar de maneira articulada. Um evento pode gerar deslocamento; um atrativo pode despertar motivação; mas é a qualidade da experiência, incluindo os serviços oferecidos ao visitante, que determina parte importante do resultado.

Uma cadeia muito maior

Cristiano chamou atenção para a dimensão econômica do turismo. A atividade movimenta diretamente hotéis, agências de viagens, companhias aéreas, restaurantes e outros segmentos, mas seus efeitos se espalham por uma cadeia muito mais ampla.

Segundo dados apresentados na palestra, a cadeia do turismo alcança inicialmente 52 setores diferentes. Considerando uma classificação mais abrangente utilizada pela Embratur, esse universo pode chegar a cerca de 570 atividades econômicas, distribuídas em quatro grandes grupos.

Evento foi acompanhado por representantes de sete etnias e 33 aldeias Grande Chapada dos Parecis.

As atividades diretas, ligadas ao atendimento do turista, reúnem 21 setores. As compartilhadas, que atendem tanto moradores quanto visitantes — como restaurantes, bares, táxis e hospitais — chegam a 191. As indiretas, fornecedoras de insumos e serviços para empresas turísticas, incluem 142 setores, abrangendo atividades como agricultura familiar, contabilidade e limpeza.

Há ainda as atividades beneficiadas, que recebem impactos positivos quando o mercado turístico se aquece, como construção civil e indústria de móveis, somando 217 setores.

A dimensão da cadeia ajuda a explicar por que o turismo é tratado cada vez mais como instrumento de desenvolvimento econômico. Quando um destino consegue ampliar o fluxo de visitantes, os efeitos não ficam restritos ao local visitado. Eles se espalham pela economia.

É justamente nesse ponto que Cristiano defendeu uma mudança de perspectiva: turismo precisa ser encarado como negócio, ter gestão e ser tratado como varejo.

Empresários na liderança da cadeia

Na avaliação do palestrante, a iniciativa privada deve assumir papel central na condução da atividade. “Os gestores públicos estão, enquanto os empresários são”, afirmou, ao defender que os empresários do setor liderem a cadeia do turismo.

A afirmação não elimina a responsabilidade do poder público. Ao contrário, coloca a infraestrutura e as políticas públicas como condições necessárias para que o setor privado possa desenvolver os negócios.

A infraestrutura, segundo Cristiano, precisa ser planejada para servir adequadamente ao turismo. Estradas, sinalização, conectividade, saneamento, segurança, mobilidade e serviços públicos fazem parte da experiência do visitante e interferem diretamente na capacidade de um destino competir no mercado.

Na outra ponta está a transformação da atração em produto turístico. Ter uma paisagem, uma cachoeira, um rio, uma aldeia ou uma manifestação cultural não significa, automaticamente, possuir um produto comercializável.

É necessário organizar o acesso, definir a experiência, estabelecer serviços, preparar pessoas, determinar preços e criar mecanismos de comercialização. “Se não há estrutura e segurança, o turista evita”, observou Cristiano Lopes.

A lógica pode ser resumida em quatro elementos: recursos, produto, oferta e mercado ou demanda.

Da perspectiva de quem vende para quem compra

Uma das provocações centrais da palestra foi a necessidade de inverter a lógica tradicional do turismo. “Menos sobre quem vende e mais sobre quem compra.”

As atrações são inúmeras, mas para o etnoturismo se desenvolver há necessidade de organização, planejamento, capacitação e integração regional.

A pergunta fundamental, portanto, deixa de ser apenas o que determinado destino deseja oferecer e passa a ser: o que o visitante quer?

Cristiano listou alguns dos elementos que hoje influenciam a decisão do consumidor: experiência, storytelling (o turista gosta de ouvir histórias), ineditismo, atendimento de qualidade, locais visualmente atrativos e compartilháveis nas redes sociais, boa gastronomia, conforto e oportunidades de compras.

Nesse ambiente, a experiência turística ganha valor à medida que consegue combinar diferentes componentes.

Um visitante pode se deslocar centenas de quilômetros para conhecer uma paisagem, mas sua percepção do destino será formada também pela recepção, pelo transporte, pela alimentação, pela hospedagem, pelas informações recebidas e pela história contada sobre aquele lugar.

Ou seja, o conjunto transforma a visita em experiência.

Essa concepção tem aplicação direta ao etnoturismo que começa a ser estruturado na Grande Chapada dos Parecis. Os rios preservados, os territórios ancestrais, a cultura, os sabores e os saberes dos povos indígenas representam recursos turísticos de grande singularidade. O desafio seguinte é transformá-los, com o protagonismo das comunidades e dentro das regras de visitação, em experiências organizadas e sustentáveis.

Novos públicos, novos mercados

As mudanças no perfil dos consumidores do turismo também foram mencionadas por Cristiano. Entre elas está a expansão do turismo de luxo e, conforme citou o palestrante, o crescimento da participação das pessoas com mais de 50 anos no mercado de viagens.

O envelhecimento da população, o aumento da expectativa de vida, a maior disponibilidade de tempo depois da aposentadoria e o poder de compra de parte desse público estão criando novas demandas para empresas e destinos.

O chamado mercado da longevidade passa, assim, a exigir produtos específicos, com conforto, segurança, qualidade de atendimento e experiências adequadas às características desse consumidor.

Para destinos emergentes, compreender esses movimentos pode representar uma vantagem competitiva. Não basta saber quais atrações existem. É preciso conhecer quem pode se interessar por elas e quais condições esse público espera encontrar. “Daí a importância do planejamento”, disse Lopes.

Visão, planejamento e ação

Ao apresentar sua estratégia para o desenvolvimento turístico, Cristiano estabeleceu uma sequência baseada em visão, mindset, planejamento, ação e resultado.

O conceito reforça uma das preocupações que atravessaram o 1º Fórum de Etnoturismo de Tangará da Serra: a região possui recursos, mas precisa criar as condições para transformá-los em uma atividade econômica organizada. “Isso significa qualificar os diferentes elos da cadeia e perseguir qualidade em todos eles”, disse Lopes.

Região possui recursos, mas precisa criar as condições para transformá-los em uma atividade econômica organizada.

Para a Grande Chapada dos Parecis, a discussão ganha uma dimensão particular. A região reúne cinco municípios, sete etnias e 33 aldeias com potencial ou estrutura para visitação. Possui natureza preservada, patrimônio cultural e experiências que dificilmente podem ser reproduzidas em outros destinos.

Mas singularidade não é suficiente.

A palestra de Cristiano Lopes acrescentou ao debate uma pergunta essencial: como fazer com que aquilo que a região possui seja percebido, desejado, comprado e vivido pelo visitante?

A resposta passa pela transformação do recurso em produto, pela qualidade dos serviços, pela profissionalização da cadeia e pela compreensão do consumidor.

No caso do etnoturismo, passa também por uma condição que antecede todas as demais: fazer isso respeitando os territórios, a cultura e as decisões dos povos indígenas.

É nesse encontro entre patrimônio, experiência, gestão e mercado que pode estar uma das oportunidades para o desenvolvimento turístico da região. O desafio não é apenas levar pessoas até a Grande Chapada dos Parecis. É fazer com que elas encontrem uma experiência de qualidade — e que essa experiência gere benefícios econômicos e sociais para quem vive no território.

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