Estudo apresentado em reunião ordinária ao CBH Sepotuba mostra sistema funcional, mas identifica pressões ambientais e sanitárias que exigem monitoramento contínuo e proteção do manancial
A água dos reservatórios utilizados no sistema de abastecimento público de Tangará da Serra apresenta, de forma geral, qualidade classificada como ótima ou boa. É o que aponta o monitoramento em alta frequência realizado pelo professor Ibraim Fantin da Cruz, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
O estudo – intitulado “Monitoramento em Alta Frequência da Qualidade da Água e dos Sedimentos no Reservatório de Abastecimento Público de Tangará da Serra – Resultados Parciais e Avaliação dos Principais Riscos”- foi apresentado na última sexta-feira (04.09), durante reunião do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Sepotuba (CBH Sepotuba).

Estudo foi conduzido pelo professor Ibraim Fantin da Cruz, da UFMT.
Os trabalhos acompanham o sistema desde novembro de 2024, com previsão de monitoramento até dezembro de 2026. A pesquisa utiliza campanhas realizadas a cada 21 dias e busca identificar alterações que poderiam não ser captadas pelo modelo convencional de amostragem pontual.
A necessidade desse acompanhamento está relacionada à própria dinâmica do manancial. A qualidade da água pode apresentar elevada variabilidade temporal, principalmente após chuvas, quando ocorre o escoamento superficial e podem chegar aos cursos d’água cargas episódicas de poluentes. Amostras coletadas isoladamente podem não registrar esses eventos de curta duração ou contaminantes presentes em concentrações muito baixas. O monitoramento também permite acompanhar o transporte e a possível acumulação de contaminantes nos sedimentos.

A qualidade da água pode apresentar elevada variabilidade temporal, principalmente após chuvas.
Ocorrências
Os resultados apresentados por Ibraim concluem que a qualidade da água não apresenta comprometimento generalizado, embora tenham sido identificadas ocorrências pontuais. Os córregos Queima Pé e o rio Ararão sofrem pressões da bacia hidrográfica, evidenciadas por indicadores microbiológicos, matéria orgânica e detecção de agrotóxicos. A recorrência de determinados produtos, especialmente o metolacloro, indica influência das atividades agrícolas.
Na água tratada, os resultados são predominantemente satisfatórios. O estudo registra, entretanto, ocorrências microbiológicas e concentrações de cloro residual livre próximas aos limites inferiores, situações que justificaram a comunicação ao SAMAE – Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto, autarquia responsável pela gestão do sistema de abastecimento, para avaliação de eventual ajuste operacional.
Entre os contaminantes emergentes identificados está a estrona, um composto associado ao grupo dos hormônios estrogênicos. A apresentação aponta que sua ocorrência pode estar relacionada ao acesso de animais, especialmente de criações pecuárias, ao manancial em trechos onde a Área de Preservação Permanente (APP) não apresenta proteção adequada. O estudo, contudo, trata essa relação como uma possibilidade associada às condições observadas, e não como uma comprovação de uma única fonte de contaminação.
Os chamados contaminantes emergentes são justamente um dos motivos pelos quais o monitoramento em alta frequência ganha importância. Eventos de chuva, escoamento superficial e outras alterações no ambiente podem produzir “pulsos” de contaminação que dificilmente seriam identificados por uma coleta isolada.
Trihalometanos
Outro ponto que merece esclarecimento é a presença de trihalometanos totais (TTHMs). A simples detecção dessas substâncias não significa que a água seja imprópria para consumo.
Os trihalometanos são subprodutos formados principalmente durante a desinfecção da água com cloro, a partir da reação do desinfetante com matéria orgânica presente na água. Por isso, sua presença pode ocorrer justamente em sistemas que utilizam cloração para garantir a segurança microbiológica. A Organização Mundial da Saúde inclui os trihalometanos entre os parâmetros que devem ser controlados na qualidade da água potável.
Há, de fato, preocupação sanitária relacionada à exposição prolongada a concentrações elevadas de determinados trihalometanos. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), por exemplo, estabelece limite regulatório para os trihalometanos totais e relaciona a exposição acima desse limite, no longo prazo, a possíveis efeitos sobre fígado, rins e sistema nervoso central, além de aumento do risco de câncer.

Pesquisa aponta que avaliação geral dos reservatórios é ótima ou boa.
Isso, porém, é diferente de afirmar que qualquer presença de trihalometanos representa risco à saúde. No caso apresentado ao CBH Sepotuba, a conclusão registrada é de que os trihalometanos existem, mas não representam problema nas condições observadas no monitoramento. Portanto, o dado deve ser interpretado dentro das concentrações encontradas e dos parâmetros de qualidade adotados no estudo, e não apenas pela presença ou ausência da substância.
Sistema funcional, mas sob pressão
A principal conclusão apresentada por Ibraim é que o sistema se mostra funcional, porém submetido a pressões ambientais e sanitárias que justificam a continuidade do monitoramento, a proteção do manancial e uma gestão preventiva baseada em riscos.
A pesquisa, portanto, não aponta para uma situação de comprometimento generalizado da água utilizada no abastecimento de Tangará da Serra. Ao contrário, a avaliação geral dos reservatórios é ótima ou boa. O alerta está na necessidade de identificar rapidamente alterações pontuais e suas possíveis origens, principalmente aquelas associadas às chuvas, às atividades agrícolas, à presença de animais e à proteção insuficiente de trechos da APP.
É justamente nesse ponto que o monitoramento em alta frequência assume importância estratégica: mais do que constatar a qualidade da água em determinado momento, ele permite acompanhar como essa qualidade se comporta ao longo do tempo, identificar eventos de alteração e fornecer informações para que o SAMAE possa adotar medidas preventivas e operacionais quando necessário.
A conclusão do estudo reforça, assim, uma premissa fundamental para a segurança hídrica de Tangará da Serra: a água apresenta boa qualidade, mas a proteção do manancial precisa acompanhar a expansão das pressões ambientais sobre a bacia.