As perdas de água tratada se configuram em um dos gargalos que mais comprometem a regularidade no abastecimento de água na cidade. Amanhã, terça-feira, 01 de setembro, a série “Especial – Segurança Hídrica” fechará com matéria sobre o sistema de adução de água bruta do rio Sepotuba.
O problema não é exclusividade de Tangará da Serra. A perda de água tratada na própria rede de distribuição é uma preocupação presente em cidades de diferentes regiões e representa um dos desafios mais complexos do saneamento básico. Enfrentá-la exige das gestões públicas capacidade para dimensionar o problema, planejamento estratégico, conhecimento técnico e, sobretudo, investimentos elevados.
Em Tangará da Serra, esse desafio ganha dimensão ainda maior diante da necessidade de ampliar a oferta de água para acompanhar o crescimento da cidade. Ao mesmo tempo em que o Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae) trabalha para aumentar a capacidade de captação, tratamento e reservação, uma parcela significativa da água já tratada não chega ao consumidor.
Atualmente, cerca de 50% do volume total de água tratada pelo sistema é perdido na rede de distribuição. Em termos simples, significa que, a cada 100 litros de água tratados, aproximadamente 50 litros deixam de chegar ao destino final. O valor é significativo, considerando que o Samae tem previstos em seu orçamento R$ 12 milhões para custear operações, manutenção de redes, tratamento de água e serviços de campo. A autarquia também destinou R$ 55,6 milhões em seu orçamento para ampliação e melhoria da rede de água, dentro de um orçamento geral de R$ 117 milhões.
A dimensão do problema ajuda a explicar por que a segurança hídrica não pode ser construída apenas com novas obras de captação ou ampliação das estações de tratamento. “Produzir mais água é necessário, mas utilizar melhor aquela que já foi captada e tratada também é fundamental”, afirma o diretor do Samae, Marcos Scolari.

Onde estão as perdas
Segundo o Samae, as perdas têm diferentes origens. Entre elas estão as ligações clandestinas, popularmente conhecidas como “gatos”, os vazamentos e o desgaste provocado pela antiguidade de parte da rede de distribuição.
São situações distintas, mas que produzem o mesmo resultado: água que passou por todo o processo de captação e tratamento deixa de cumprir sua finalidade antes de chegar ao consumidor.
No caso dos vazamentos, o problema pode estar associado tanto a rompimentos visíveis quanto a perdas subterrâneas, cuja identificação é mais difícil.
As ligações clandestinas representam não apenas perda de água, mas também um problema de controle do sistema, uma vez que o volume distribuído deixa de corresponder adequadamente ao consumo registrado.
A antiguidade da canalização acrescenta outra camada de complexidade. Uma rede projetada para atender uma cidade menor precisa ser progressivamente adaptada à expansão urbana e às novas condições de operação.

Setorização: conhecer para combater
O planejamento do Samae para enfrentar o problema prevê a implantação de um sistema de setorização da rede de distribuição.
A proposta é dividir o sistema em áreas de controle, considerando tanto as características topográficas de Tangará da Serra quanto a distribuição dos bairros.
A medida permitirá acompanhar com maior precisão quanto de água entra e quanto sai de cada setor. Diferenças anormais entre esses volumes poderão indicar a existência de vazamentos ou outras ocorrências que precisam ser investigadas.

Fórmula adequada para combate às perdas de água na rede de distribuição inclui a setorização por bairros.
É uma mudança importante na forma de administrar a rede. Em vez de observar o sistema de distribuição como uma estrutura única, a setorização permitirá identificar problemas de maneira localizada, criando condições para intervenções mais precisas.
O custo, porém, deverá ser elevado. O Samae ainda não possui uma estimativa definitiva para a implantação de todo o programa, que deverá ser tratado posteriormente no âmbito do contrato de Parceria Público-Privada (PPP) que o município deverá celebrar nos próximos meses.
Mais produção não significa desperdício maior
A redução das perdas ganha ainda mais importância diante dos investimentos em andamento no sistema.
A ETA Queima-Pé deverá ampliar sua capacidade de tratamento dos atuais 300 litros por segundo para 350 litros por segundo com a recuperação de um filtro existente. Posteriormente, a instalação de uma nova unidade modular acrescentará mais 150 litros por segundo, levando a capacidade instalada para até 500 litros por segundo.

ETA Queima Pé: Ampliação do tratamento de água e combate às perdas são fatores preponderantes para a regularidade no abastecimento.
Ao mesmo tempo, a capacidade de reservação deverá crescer de aproximadamente 2,5 milhões para cerca de 14 milhões de litros de água tratada.
São investimentos necessários para preparar Tangará da Serra para uma demanda maior. Mas, sem o enfrentamento das perdas, parte desse esforço adicional continuará sendo absorvida por uma rede que ainda apresenta baixa eficiência.
Por isso, a redução das perdas deve ser compreendida como uma etapa complementar à ampliação da produção.
A lógica é simples: quanto menor a quantidade de água perdida, maior será a eficiência da estrutura construída para produzi-la, tratá-la e armazená-la.
Um desafio para o próximo ciclo
O combate às perdas deverá ser uma das etapas mais complexas da reestruturação do sistema de abastecimento.
Diferentemente de uma obra pontual, a redução das perdas exige diagnóstico, monitoramento permanente, substituição de trechos da rede, controle de pressão, fiscalização, medição e capacidade de intervenção rápida.
É um trabalho de longo prazo. Para Tangará da Serra, porém, ele se torna ainda mais importante porque ocorre paralelamente à expansão da infraestrutura de abastecimento e da própria cidade.
A segurança hídrica que o município busca construir dependerá, portanto, de dois movimentos simultâneos: aumentar a capacidade de oferta e tornar mais eficiente a utilização da água já disponível.
Produzir mais é parte da solução. Perder menos será a outra.
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