O Governo de Mato Grosso começa a estudar o uso de drones para reforçar a vigilância nos presídios e unidades do sistema socioeducativo. A medida, formalizada pela Portaria nº 68/2026, da Secretaria de Estado de Justiça (Sejus), prevê a criação de um grupo de trabalho com 14 servidores de áreas como inteligência, tecnologia, segurança penitenciária e operações especiais.
Monitoramento
A ideia é avaliar como os drones poderão ser utilizados no monitoramento do perímetro das unidades, especialmente em áreas estratégicas. O estudo deverá considerar equipamentos, câmeras, softwares, autonomia de voo, armazenamento das imagens e capacitação dos operadores, além das regras da Anac, do Departamento de Controle do Espaço Aéreo e da Anatel. Por enquanto, não há autorização para compra dos equipamentos.
Tecnologia contra a logística do crime

A iniciativa tem uma lógica clara: ampliar a capacidade de vigilância justamente em um ambiente no qual a comunicação e a logística são fundamentais para as organizações criminosas. O uso de tecnologia pode dificultar movimentações externas, tentativas de acesso ao perímetro das unidades e outras ações que dependem de pontos cegos na vigilância convencional.
Problema no lado de fora
Enquanto o Estado discute como colocar mais olhos sobre os presídios, as ruas continuam mostrando a dimensão do mercado de drogas. Na região, as últimas semanas foram marcadas por apreensões expressivas e investigações que atingiram diferentes elos da cadeia do tráfico — do transporte de grandes carregamentos à distribuição e aos pontos de venda.
150 quilos na estrada
Em 18 de agosto, a Polícia Civil apreendeu aproximadamente 150 quilos de entorpecentes na rodovia entre Nova Olímpia e Tangará da Serra. Eram 148 tabletes transportados em um Hyundai HB20. O condutor tentou fugir, mas acabou capturado pelos policiais. A carga foi retirada de circulação antes de chegar ao destino.
E outros 130 quilos no Chapadão
Dias antes, uma operação conjunta da Polícia Militar e da Polícia Federal havia interceptado aproximadamente 130 quilos de maconha em Campo Novo do Parecis. A carga teria saído de Rondônia e entrado em Mato Grosso pela região de Juína, seguindo em direção ao Chapadão dos Parecis. Dois homens foram presos. A ocorrência foi tratada como suspeita de tráfico internacional.
A droga tinha destino

No caso de outra grande apreensão realizada em junho, em Tangará da Serra, a Polícia Civil informou que 120 tabletes, contendo cocaína, pasta base, maconha e skank, avaliados entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão, seriam distribuídos no mercado local. Segundo a investigação, a carga abasteceria diferentes pontos de comercialização espalhados pela cidade.
Agora, uma “boca” na boate
Eis um detalhe que chama atenção numa ocorrência registrada na noite de 24 de agosto, em Tangará da Serra. Segundo a Polícia Militar, uma mulher investigada por tráfico utilizaria uma residência e uma boate como locais de armazenamento e comercialização de drogas supostamente ligadas ao Comando Vermelho. Na abordagem, foram encontradas porções de pasta base, cocaína e maconha, além de quatro celulares.

O varejo aparece
A ocorrência ajuda a mostrar outra dimensão do problema. Grandes carregamentos são interceptados nas rodovias, mas a droga precisa chegar ao consumidor por meio de uma rede de distribuição. É nesse estágio que aparecem as pequenas porções, os pontos de venda e os locais utilizados para armazenar e comercializar os entorpecentes. A investigação policial é que deverá esclarecer a extensão da atuação da suspeita e suas eventuais conexões.
Não são fatos isolados
A sequência chama atenção justamente pela diversidade dos cenários. A droga aparece sendo transportada por rodovias, escondida em veículos, armazenada em imóveis, distribuída em pontos urbanos e, segundo ocorrências policiais, comercializada até em ambientes de entretenimento. Isso sugere uma estrutura suficientemente adaptável para ocupar diferentes espaços conforme as oportunidades.
O tráfico organizado

Essa percepção já havia aparecido na operação realizada em 19 de agosto, quando a Polícia Judiciária Civil cumpriu mandados em Tangará da Serra, Cuiabá e São José dos Quatro Marcos contra uma estrutura investigada por tráfico, associação para o tráfico e organização criminosa. A análise de celulares apreendidos revelou diálogos, grupos de comunicação, linguagem codificada, cobranças, comercialização de drogas e movimentações financeiras.
Divisão de tarefas
Segundo a investigação, os envolvidos exerciam funções distintas dentro da estrutura criminosa. Havia tarefas relacionadas à comercialização, cobrança de valores, comunicação entre integrantes e movimentação financeira. É justamente essa divisão que diferencia uma atividade criminosa organizada de ações isoladas de pequenos traficantes.
Incinerações dizem muito
Há ainda outro indicador silencioso dessa realidade: aquilo que é apreendido precisa ser destruído. Em Barra do Bugres, mais de 30 quilos de entorpecentes foram incinerados neste mês, em procedimento autorizado judicialmente e acompanhado pelo Ministério Público e pela Vigilância Sanitária. Em Nova Olímpia, a Polícia Civil também realizou a destruição de grande quantidade de drogas apreendidas em ocorrências policiais.
O que chega ao fogo
Em julho, uma incineração realizada em Tangará da Serra destruiu 121 quilos de entorpecentes apreendidos durante a Operação Guardian. A Polícia Civil informou que, somente naquele ano, duas grandes apreensões haviam sido realizadas no Distrito de Progresso. A primeira, em janeiro, retirou de circulação 150 tabletes de maconha e cocaína, com prejuízo estimado em R$ 1,5 milhão para o tráfico.

Uma fotografia do mercado
As incinerações não representam necessariamente novas apreensões, mas revelam o resultado acumulado do trabalho policial. Quando dezenas ou centenas de quilos são destruídos depois de apreendidos, há uma dimensão material do problema que dificilmente aparece nas estatísticas de prisões: existe uma quantidade significativa de droga circulando, sendo transportada e destinada a diferentes mercados.
Barra do Bugres já mostrou outro cenário
Em maio, uma operação da Força Tática interrompeu uma festa apontada pela PM como vinculada ao Comando Vermelho, em Barra do Bugres. A ação terminou com 37 pessoas conduzidas, sendo 28 menores e nove adultos. No local foram encontradas porções de maconha, cocaína, ecstasy e lança-perfume, além de rádios comunicadores e dinheiro.
Do atacado ao varejo
O conjunto de ocorrências ajuda a montar um mapa preocupante. Há carregamentos de grande volume interceptados nas estradas; organizações investigadas por distribuição; pontos de comercialização identificados dentro das cidades; e ambientes utilizados para consumo, armazenamento ou venda. A engrenagem é ampla e muda de forma conforme a pressão policial aumenta.
A vigilância precisa acompanhar
É nesse contexto que o estudo sobre drones nos presídios ganha importância. A tecnologia pode ampliar a capacidade de vigilância do Estado, mas dificilmente será suficiente sozinha. O enfrentamento do crime organizado exige inteligência, investigação financeira, monitoramento das rotas, integração entre as forças de segurança e capacidade de atingir simultaneamente diferentes elos da cadeia.
Hidra do tráfico
A dinâmica do tráfico de drogas lembra a Hidra de Lerna, da mitologia grega. Quando uma das cabeças do monstro era cortada, outras duas surgiam em seu lugar. A experiência recente da região mostra que o tráfico não depende de um único endereço, uma única rota ou uma única modalidade de atuação. Quando uma carga é interceptada, outra rota pode ser utilizada. Quando um ponto de venda é fechado, outro pode surgir. Quando a vigilância aumenta em determinado espaço, a estrutura criminosa procura outro caminho.
É a capacidade de recomposição que torna o tráfico uma ameaça persistente: corta-se uma cabeça, mas a estrutura tenta fazer nascer outras.