TANGARÁ DA SERRA
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ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO

Dr. Marcos Dalto: “Advocacia saudável é aquela que não se amedronta diante de uma injustiça”

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O advogado Marcos Cardozo Dalto (OAB/MT 11.466/O) é nascido em Tangará da Serra, em 12 de outubro de 1982 e é sócio do escritório Dalto Advocacia.

É casado com Daiane Karla de Souza Lopes Dalto, com quem tem um filho, o pequeno Antônio, agora com quatro meses.

Formou-se em Direito pela Universidade de Cuiabá (UNIC), em 2006, pós-graduado em Direito Civil e Processo Civil pela Universidade Cândido Mendes e pós-graduando em Advocacia Empresarial pela PUC-MG.

Atualmente, exerce a função de vice-Presidente da 10ª Subseção da OAB/MT, triênio 2022/2024.

Marcos Dalto com a atual diretoria da 10ª Subseção da OAB.

Hábil nas palavras e firme em suas reflexões, Marcos Dalto é fiel ao ideal de coragem na advocacia, com defesa intransigente da Constituição Federal, do Estado Democrático de Direito e da defesa da sociedade.

Ele é o entrevistado desta sexta-feira, na série especial do Enfoque Business, que marca o Dia do Advogado, celebrado no último dia 11.

 

O diálogo

 

Redação EB – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda tem reagido. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que isso proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como o senhor avalia messe momento para a advocacia?

Dr. Marcos Dalto – A política sempre foi um terreno muito fértil para embates acalorados, que, muitas vezes, são resolvidos na Justiça. Em 2018, no entanto, os embates tomaram outra proporção devido à conscientização da maioria da população que não mais aceitou ver o país administrado por políticos corruptos.

A grande responsável pelo acender das luzes na consciência da população, foi a internet livre. A liberdade de expressão em sua plenitude conseguiu revelar ao público, que antes era alienado por notícias tendenciosas, o teatro das tesouras ao qual os brasileiros foram submetidos por décadas. Espetáculo de muito mau-gosto em que grupos aparentemente antagônicos, eram, na verdade, farinha podre do mesmo saco.

A internet livre de amarras permitiu que jornalistas até então desconhecidos levassem os fatos ao conhecimento da população, sem viés político, simplesmente os fatos.

A grande mídia, enfurecida com a perda do monopólio da informação, passou a externar aquilo que sempre teve, mas mantinha discrição: a sua preferência política.

Hoje, a maioria dos brasileiros prefere receber informações de canais independentes da internet, os quais fizeram a audiência de grandes jornais despencar.

Com a perda de poder e de espaço político, algumas autoridades do Judiciário, a serviço de determinado partido político, passaram a perseguir opositores, literalmente.

A perseguição ficou ainda mais evidente quando advogados de opositores ao sistema foram impedidos de ter acesso aos autos de inquéritos criados e mantidos de maneira arbitrária e irregular, em total desconformidade com a Lei.

Aliás, recentemente chegou ao conhecimento da população alguns áudios que mostram o modus operandi do ministro Alexandre de Moraes, que se utilizou do TSE para promover uma verdadeira caçada aos seus desafetos políticos.

Em um cenário de inexistência de segurança jurídica no Poder Judiciário, a advocacia foi a maior prejudicada, juntamente com os clientes, obviamente.

Além de terem que lidar com novas regras processuais e procedimentais escritas em lugar nenhum, a advocacia penou também com a proibição de acesso a investigados que se encontravam detidos e também aos inquéritos. Como é possível realizar a defesa de um cidadão sem conhecer os fatos e as provas que instruem a acusação? É impossível!

A postura que o Judiciário tem adotado desde 2018, além de revelar uma preferência política incompatível com o exercício da magistratura, fere de morte os mais importantes princípios e garantias fundamentais garantidos pela Constituição Federal.

Dalto, durante reunião com a Corregedoria do Tribunal de Justiça do Mato Grosso, com a presença do Corregedor-Geral da Justiça, Dr. Juvenal Pereira da Silva.

EB – Outra característica da atualidade que envolve o exercício da advocacia é o ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado de maneira contundente as redes sociais e até mesmo os noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. O advogado precisa estar atento a isso e saber fazer a leitura dessa condição cotidiana, já que um falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?

Dr. Marcos Dalto – É fato que a liberdade de informação na internet facilitou a proliferação das notícias falsas, as conhecidas Fake News, o que elevou consideravelmente a tensão no cenário político.

O clima beligerante entre os grupos políticos dominantes, somado ao grande número de notícias falsas circulando livremente na internet fez crescer o número de demandas judiciais.

Ao nos deparar com um caso envolvendo fake News é importante tentarmos descobrir a sua origem, o que é um grande desafio. Em muitos casos, talvez na maioria deles, a notícia falsa parte de uma página ou perfil igualmente falso, de modo que se torna difícil, até mesmo impossível descobrir o responsável pelo ato.

Essa dificuldade em descobrir a identidade de quem está por trás da página investigada tem gerado muita discussão sobre a necessidade de regulação da internet.

Particularmente, sou contra a restrição ou regulação da internet, pois vejo esse movimento como uma clara tentativa de perseguir e calar quem pensa diferente das pessoas que detêm o poder.

Por outro lado, há um ponto importante sobre esse assunto que pode ser exigido dos sites e redes sociais, qual seja: o cadastramento adequado do usuário, de modo que todas as páginas, sites, perfis, etc, possam ser identificados, o que possibilitaria a responsabilização daqueles que praticam crimes virtuais.

Acredito que isso reduziria drasticamente o número de notícias falsas na internet.

EB – O Ministério Público tem como função constitucional a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Porém, seus componentes (os Promotores de Justiça) são, muitas vezes, interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?

Dr. Marcos Dalto – O ativismo político-ideológico é extremamente nocivo à Justiça, uma vez que impede que as instituições jurídicas cumpram seu papel com independência e livres de paixões.

Quando o advogado se depara com a atuação ministerial motivada pela preferência política de determinado promotor, cabe a ele apontar ao Juiz a atuação temerária do Parquet.

Cabe, ainda, a reclamação à ouvidoria do Ministério Público no qual está lotado o promotor denunciado, e ao Conselho Nacional de Justiça.

Apesar de haver casos em que determinado Promotor de Justiça expõe sua preferência política, o relacionamento entre a advocacia e promotoria costuma ser amigável e respeitoso.

Obviamente que durante uma audiência, um júri, é comum que advogados e promotoria elevem o tom da voz, usem palavras duras, mas é importante que todos os operadores do direito tenham consciência que, feito o trabalho, o clima amistoso e respeitoso entre todos deve prevalecer.

 

EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?

Dr. Marcos Dalto – Não é de hoje que o Poder Judiciário é conhecido pela lentidão, fato esse que ficou ainda mais evidente com a virtualização dos processos.

Atualmente, com apenas alguns cliques é possível saber quantos processos estão no gabinete aguardando uma decisão, por exemplo.

Os dados acessíveis mais facilmente expuseram ainda mais as fragilidades do Judiciário. Aqui em Tangará, por exemplo, a Segunda Vara Cível acumula a competência de julgar questões relacionadas à família e sucessão, quando deveria, ao meu ver, julgar apenas uma delas, sendo a outra migrada para uma nova vara.

A Quarta Vara Cível é um caso à parte. Ela é responsável por causas previdenciárias e execuções fiscais federais, estaduais e municipais, o que gera a superlotação da vara.

A comarca de Sapezal, que possui vara única, necessita urgentemente de mais uma vara. Muito embora haja espaço físico para ampliação do fórum naquela cidade, o aporte financeiro por parte do Tribunal é sempre bastante burocrático.

A solução seria contratar mais servidores, abrir novas varas, mas essas medidas esbarram no orçamento do Tribunal e na burocracia envolvida no processo para que essas medidas sejam implementadas.

Marcos Dalto com a esposa Daiane, no tradicional Baile dos Advogados.

 

EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?

Dr. Marcos Dalto – Com a exposição do teatro das tesouras na política mencionado inicialmente, ficou bastante evidente que a Ordem dos Advogados do Brasil não estava livre de paixões políticas, o que ficou muito evidente durante a gestão do então Presidente Felipe Santa Cruz durante o triênio 2019-2022, e se mantêm ainda hoje na gestão do Dr. Beto Simonetti.

É preciso destacar que a OAB é, ou pelo menos deveria ser, isenta em relação à política, justamente porque deve atuar com imparcialidade sempre que lhe couber opinar.

Foram muitas as situações em que a OAB nacional emitiu pareceres técnicos chancelando ações políticas e judiciais que não estavam em consonância com a Lei. Aliás, algumas dessas ações chanceladas pela OAB são tão absurdamente ilegais que geram, até hoje, revolta, vergonha e indignação à grande maioria dos advogados.

A postura omissa e conivente da OAB nacional vem causando muito desconforto aos advogados em todo o Brasil.

Todo e qualquer advogado, antes de receber a tão sonhada carteira da OAB, faz um juramento, o qual contém compromissos extremamente importantes para a população: “defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático, os direitos humanos”.

Ora, como podemos aceitar, enquanto advogados, que direitos e garantias fundamentais de milhares de pessoas sejam violados? Como podemos aceitar que prerrogativas de milhares de advogados sejam desrespeitadas? Como podemos aceitar que as regras processuais mais basilares sejam ignoradas?

E o pior, tudo sendo feito pela mais alta corte do país! Sob os olhos omissos e coniventes da OAB nacional, que mesmo recebendo a cobrança da advocacia de todo o Brasil, se curva à tirania de alguns poderosos.

Portanto, respondendo à sua pergunta: A advocacia passa por um dos seus piores momentos de sua história, pois estamos sendo dirigidos por um presidente que não representa os anseios da maioria – até porque não é eleito diretamente pelos advogados, mas apenas pelos presidentes das seccionais – e não honra o juramento que fizemos quando ingressamos na única profissão que não recebe dinheiro público, mas que é indispensável à administração da Justiça.

O advogado com seu filho, o pequeno Antônio.

 

EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?

Dr. Marcos Dalto – Exercer a advocacia é um tanto desafiador atualmente, especialmente pela morosidade do Poder Judiciário, o alto valor das custas judiciais e pelo número expressivo de profissionais ingressando no mercado de trabalho todos os anos.

Apesar da alta concorrência, é possível se destacar na área. Para tanto, é necessário se qualificar, mantendo uma rotina de estudos e, sempre que possível, frequentando cursos de especialização e pós-graduação.

A propósito, a advocacia exige uma rotina de estudos eterna. Não há como se manter no mercado sem estar atualizado.

A morosidade do Judiciário, por outro lado, não depende do advogado, mas sim das autoridades responsáveis pela gestão dos órgãos que compõe esse Poder.

Uma boa alternativa para escapar dessa problemática tem sido a atuação na esfera extrajudicial, solucionar os conflitos junto aos Cartórios, por exemplo. É um meio mais célere, muito menos desgastante às partes envolvidas e com maiores chances de êxito.

Em relação às custas judiciais, o seu alto valor restringe o acesso à justiça. A exemplo das custas recursais, a parte insatisfeita com determinada decisão em primeira instância, se não possuir recursos para pagá-las, não consegue a reanálise da decisão.

A título de ilustração: No TJMT, nas causas com valor acima de R$ 41.343,13, as custas para o recurso de apelação são de 3% sobre o valor da causa, até o limite R$ 87.895,00

Agora, imagine o cidadão, com seu único patrimônio envolvido em uma disputa judicial, que não é beneficiário da justiça gratuita, tendo que desembolsar 3% do valor do bem apenas para ter acesso à segunda instância do Poder Judiciário.

É um absurdo!

 

EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?

Dr. Marcos Dalto – Realmente, a ideologia exerce uma forte influência na educação, o que acaba por refletir também na formação do advogado.

Entendo que escolas e faculdades não são locais apropriados para a disseminação de ideologias, seja ela de esquerda ou de direita. Escola é lugar onde os alunos devem aprender matérias pertinentes aos cursos em que estão matriculados, não a ideologia política pessoal de um professor.

Desde o regime militar, houve, no Brasil, a ampla disseminação da ideologia marxista nas escolas e universidades, movimento que cresceu até os dias atuais. Algumas universidades públicas Brasil afora foram literalmente tomadas por estudantes preocupados apenas em disseminar essa ideologia, causando graves prejuízos a estudantes que não concordam ou que se opõem a esse movimento.

Para a advocacia, assim como para qualquer outra profissão, é extremamente nocivo que durante a formação universitária haja professores tentando doutrinar alunos para que se juntem a uma ideologia que fracassou em todos os locais onde foi implementada.

As ideologias políticas devem ser buscadas e aprendidas individualmente por quem se interessa, não ser imposta em sala de aula.

Reunião com a Corregedoria de Justiça, no primeiro semestre desse ano.

EB – O senhor acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?

Dr. Marcos Dalto – Toda tecnologia que contribui para o homem é bem-vinda.

O desenvolvimento crescente iniciado desde o início da revolução industrial mostra o quão importante é o uso da tecnologia nas mais variadas áreas de produção e de prestação de serviços.

No entanto, acredito que o ser humano necessita ser útil, produtivo. O ser humano precisa estar sempre em movimento, físico e mental, para não atrofiar.

Na advocacia, por exemplo, é nítido o avanço intelectual daqueles que dedicam tempo à leitura de bons livros jurídicos, assim como é nítida a diferença entre um atleta e uma pessoa sedentária.

A diferença está na rotina de exercícios, físicos e mentais.

Com o pai, Dr. Wilson Dalto. Inspiração e sabedoria para o exercício da advocacia.

Em relação à IA, embora ela esteja trazendo consigo muitas vantagens, como a otimização do tempo, por exemplo, eu vejo com bastante desconfiança o uso dessa inteligência sem analisarmos as consequências a longo prazo.

Será que a geração que utilizar a IA para desenvolver seus trabalhos será capaz de fazê-lo sem a ajuda de um computador?

Será que um arquiteto será capaz de produzir um projeto manualmente, com cálculos feitos de cabeça ou com uma calculadora simples?

Será que um advogado acostumado à produzir peças por meio da IA será capaz de fazê-lo sem essa ajuda caso seja necessário? Será que será capaz de realizar uma boa sustentação oral?

– Ah, mas daqui para frente sempre haverá tecnologia para auxiliar as pessoas, nunca ficaremos sem tecnologia.

É importante lembrar, as teorias mais brilhantes, que são a base de quase tudo que o ser humano conhece, surgiram de pessoas que não tinham nenhuma tecnologia a seu favor.

Será que Albert Einstein teria sido capaz de pensar na Teoria da Relatividade se tivesse, enquanto estudante, tido ajuda de inteligência artificial para direcionar seus pensamentos?

Duvido muito!

Portanto, eu vejo a IA como uma ferramenta importante, mas que deve ser usada com parcimônia, para não gerar dependência nem demência.

 

EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como o senhor vê o futuro da advocacia?

Dr. Marcos Dalto – Apesar dos problemas enfrentados atualmente, os advogados devem permanecer hígidos e prontos para o combate.

Uma advocacia saudável é aquela que não se amedronta diante de uma injustiça, pelo contrário, ela luta até fazer prevalecer a Justiça.

Se hoje estamos passando por um momento difícil na advocacia é porque aqueles que nos representam não honraram o juramento que individualmente fizeram: “defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático, os direitos humanos”.

Para superarmos esse momento, precisamos de pessoas de coragem e comprometidas com as obrigações que assumidos desde o primeiro dia como advogados.

A advocacia não é profissão para covardes” (Heráclito Fontoura Sobral Pinto)

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ESPECIAL - DIA DO ADVOGADO

Drª Gisela Cardoso: Representação feminina em defesa da advocacia e pela interiorização da OAB

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A advogada Gisela Alves Cardoso é a entrevistada desta quarta-feira (21) do Enfoque Business, fechando com estilo a série de reportagens alusiva ao Dia do Advogado, celebrado em 11 de agosto.

Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de Mato Grosso da (OAB-MT) – Drª Gisela desponta como nova liderança mato-grossense, reunindo várias virtudes à frente de uma entidade que atua em defesa da sua categoria, da sociedade e da Constituição Federal.

Ela traduz em sua trajetória de vida o que disse, recentemente, a executiva Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil: “Não acreditem em quem não acredita em vocês (…). Se o resultado for a sua felicidade, abrace a oportunidade”.

Dinâmica e à frente de seu tempo, Gisela Alves Cardoso sempre foi inspiração em sua família, antes mesmo de se projetar na advocacia e na sociedade. Filha do caminhoneiro Augusto Cardoso e da dona de casa Ana Maria Alves Cardoso, é a primeira da família a conquistar o diploma universitário e se diz uma apaixonada pelo Direito.

Veio ainda pequena, com sua família, de São Paulo para Colíder, norte de Mato Grosso. Estudiosa e dedicada, começou dando aula de inglês. Na juventude, trabalhou em diversos empregos até iniciar carreira como bancária. Mudou-se para Capital e estudou Direito. Formou-se em 2001, e trocou a carreira de bancária pela advocacia.

Foi professora universitária por 10 anos, de 2007 a 2018. Tem enorme carinho pela docência, tendo contribuído para a formação de jovens advogados.

É especialista em Direito Empresarial e sócia no escritório Cardoso e Cardoso Advogados.

Há duas décadas na advocacia, faz parte da diretoria da OAB-MT há seis anos. Já foi Secretária Geral Adjunta e vice-presidente da Seccional. Também conduziu a Comissão da Mulher Advogada e participou da Comissão Nacional de Estudos Constitucionais. Atualmente, junto ao CFOAB é a coordenadora adjunta do Colégio de Presidentes Seccionais da OAB no triênio 2022-2024.

Em março do ano passado, recebeu a insígnia de Comendadora da Ordem São José Operário do Mérito Judiciário do Trabalho de 2023. A distinção é concedida pelo Tribunal Regional do Trabalho 23ª Região (MT), a cada dois anos, a personalidades e entidades que prestaram relevantes serviços à Justiça do Trabalho.

Orgulha-se de presidir a Seccional de Mato Grosso neste momento em que a Ordem dos Advogados instituiu a política de paridade de gênero nas eleições de todo o sistema OAB, ampliando a sua representação feminina.

Sua gestão tem sido marcada pela forte atuação na qualificação da advocacia, no combate à violência contra a mulher, no apoio ao jovem advogado, na qualificação da advocacia e na interiorização da Ordem dos Advogados.

Reside em Cuiabá e é casada com o também advogado Marlon Hudson Machado e mãe de João Pedro.

 

O diálogo

 

Redação EB – A polarização se instalou de uma forma muito intensa no ambiente político brasileiro após 2018. Os ideais de direita ressurgiram e a esquerda tem reagido. Isso acaba envolvendo a advocacia, uma vez que isso proporciona o embate ideológico e, muitas vezes, resulta em demandas na esfera judicial. Como a senhora avalia esse momento para a advocacia?

Drª Gisela Cardoso – Advogados e advogadas são cidadãos e cidadãs e, sendo assim, em ambiente democrático, têm todo o direito de se expressar politicamente e, na democracia, é salutar a diversidade ideológica, mas assevero que a Ordem dos Advogados, como instituição, apesar de acompanhar todos os movimentos da sociedade, não pode e nem deve ter ligação política com este ou aquele, com A ou com B, este é um paradigma que deve ser respeitado, porque a nossa instituição pertence à toda a advocacia e não a um partido político ou outro. Em todo o curso da história a forma da Ordem dos Advogados agir socialmente é cumprindo importante papel de ser voz da sociedade. No momento, saliento todo o envolvimento da nossa Seccional com o combate ao feminicídio. Então, em que pese os imbróglios das fases políticas, a OAB segue sendo farol, na defesa do Estado Democrático de Direito e da nossa Constituição vigente.

Redação EB – Outra característica da atualidade que envolve o exercício da advocacia é o ambiente criado pelas “Fake News”. Essa prática tem influenciado de maneira contundente as redes sociais e até mesmo os noticiários e, por isso, tem grande potencial de gerar demandas judiciais. O advogado precisa estar atento a isso e saber fazer a leitura dessa condição cotidiana, já que uma falsa informação, se não identificada, certamente influencia algum processo. Qual sua análise sobre esse tema?

Drª Gisela Cardoso – O fenômeno das fake news é recente, mas já mostrou seus efeitos nocivos. A OAB-MT tem falado sobre isso, através das comissões temáticas envolvidas com o tema, reprovando a prática em quaisquer âmbitos. E tem também inserido esta temática em eventos, para que a advocacia se informe, a cada dia mais, e saiba como agir, caso esteja diante desta questão. 

Redação EB – O Ministério Público tem como função constitucional a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Porém, seus componentes (os Promotores de Justiça) são, muitas vezes, interpretados como ativistas jurídicos e com posturas ideológicas. Temos uma indisposição entre o Ministério Público e a Polícia Militar (em razão da própria atuação da PM em casos de confrontos em várias operações). Portanto, são duas perguntas numa só: Até que ponto essa questão (ativismo e ideologia no MP) pode influenciar o exercício da advocacia e a própria Justiça? Como é, hoje, o relacionamento da advocacia com o Ministério Público?

Drª Gisela Cardoso – O que preconizamos sempre é atuação técnica, seja em qualquer âmbito do sistema de administração de justiça, do qual todos fazemos parte, Judiciário, Ministério Público, Advocacia. E a relação da advocacia com o Ministério Público é, via de regra, muito respeitosa.

Redação EB – Sobre o Judiciário: Há o acúmulo de processos, insuficiência de juízes e estrutura física limitada. Qual a sua avaliação?

Drª Gisela Cardoso – O juiz, o magistrado, é um pacificador social muito importante, especialmente nos municípios menores. Quanto mais distantes do eixo das capitais, mais aumenta potencialmente essa responsabilidade. Então, garantir os juízes nas Comarcas, em todas elas, despachando com a advocacia, influenciando na paz social, é uma das pautas permanentes da OAB-MT.

 

Redação EB – Qual a sua avaliação do papel exercido pela OAB na atualidade?

Drª Gisela Cardoso – A OAB é a maior entidade da sociedade civil brasileira e a Seccional de Mato Grosso acaba de completar 91 anos de história, defendendo a advocacia e, com isso, defendendo também a democracia, o Estado de Direito, o respeito à legislação, à Constituição Federal. Como voz da sociedade, a OAB-MT discute as grandes questões sociais e contribui apontando saídas. Foi assim o trabalho feito pela OAB-MT para resolver os problemas com a concessão da BR-163, é assim com toda a luta que trava para combater o feminicídio. São 69 comissões temáticas. Então a OAB-MT está em muitos espaços da nossa sociedade atuando. Costumo dizer que a OAB-MT é incansável para defender a advocacia e a sociedade.

Redação EB – Quais os principais destaques da sua gestão na presidência da OAB-MT nesses dois anos e meio de gestão?

Drª Gisela Cardoso – Acredito que um dos principais destaques na minha gestão é o acolhimento ao Jovem Advogado, para que chegue ao mercado de trabalho com apoio, porque os primeiros passos não são fáceis. Quando me formei, sem nenhum outro advogado na família, nenhum parente para me indicar para nada, tive que enfrentar a vida profissional com bastante obstinação e busquei a Ordem dos Advogados, para me dar suporte. Então, agora como presidente, tenho um carinho muito especial por aqueles que estão chegando, para que tenham todo apoio e suporte. Também cito o projeto OAB Presente, que é uma forma da instituição Ordem dos Advogados ir até à advocacia onde quer que esteja, ouvir o que ela tem a dizer. Então, saímos em comitiva da Seccional e vamos aos escritórios, na Capital e em diversas cidades de Mato Grosso.

Outro destaque acredito que seja minha luta contra a violência de gênero, seja em ambiente doméstico, o que no limite nos apresenta como o feminicídio, seja no processo eleitoral, em razão de que, nós, mulheres, podemos votar há 100 anos, mas ainda temos muitas dificuldades para ser votadas, para ocuparmos esses cargos eletivos. A luta é grande também contra o assédio moral e sexual, em razão de que esta ainda é uma realidade a ser combatida, com muita coragem. Mais um destaque é a nossa Escola Superior de Advocacia, já entregamos 14 cursos de pós graduação, nesses dois anos e meio, isso nunca aconteceu, isso é histórico. Acreditamos muito em qualificação, atualização, para fortalecer o advogado, a advogada, porque o conhecimento pavimenta o exercício profissional, é o caminho mais profícuo para o sucesso.

Quanto à infraestrutura do Sistema OAB, atuamos junto com as subseções e foram entregues importantes obras para a advocacia do interior, como as novas sedes das subseções de Sinop e Juara e a primeira etapa da nova sede da subseção de Lucas do Rio Verde, entre outras reformas e ampliações em Barra do Garças, Cáceres, Campo Novo do Parecis, Colíder, Juína, Nova Mutum, Peixoto de Azevedo, Primavera do Leste, Rondonópolis e Sorriso. Trabalhamos diariamente para devolver à advocacia, em investimentos, obras e serviços, tudo o que é arrecadado com as anuidades. Essas inaugurações são reflexo desse trabalho. Espaços que vão atender aos advogados e advogadas, com estrutura, sustentabilidade e muita qualidade. Outra coisa importante é a autonomia da gestão financeira das Subseções. Neste período de dois anos e meio de gestão, os investimentos financeiros efetivados pela Seccional às subseções superaram o valor arrecadado em anuidades. Em números, a arrecadação foi de mais de R$ 9 milhões e a entrega que a Seccional fez às subseções de Mato Grosso superou os R$ 12 milhões. O aumento foi de 184% na comparação com o que as subseções recebiam anteriormente, indicando a preocupação da gestão com o fortalecimento e autonomia da gestão financeira da advocacia do interior. Precisamos devolver para a advocacia aquilo que recebemos. E é isso que estamos fazendo. A começar pela advocacia do interior. Outra prioridade e conquista da atual gestão da OAB-MT está no avanço da tecnologia. Hoje, 100% dos processos que tramitam na instituição são eletrônicos. E por aí vai!

Redação EB – Quais os maiores entraves enfrentados pelo advogado no exercício da advocacia?

Drª Gisela Cardoso – A advocacia é uma profissão desafiadora, então os desafios são muitos, diários, agora entraves acredito que um deles seja o próprio mercado de trabalho que é muito competitivo. Por isso incentivamos a qualificação continuada e a atualização constante, para que o advogado e a advogada estejam plenamente aptos a dar as respostas que seus clientes esperam.

 

Redação EB – Hoje a ideologia influencia fortemente a Educação, especialmente no nível superior. Até que ponto isso pode influenciar na advocacia, em sua opinião?

Drª Gisela Cardoso – Temos uma grande preocupação em acompanhar a qualidade do ensino superior, os cursos de Direito. A OAB-MT preconiza o ensino técnico, a devida análise de conjuntura e as percepções sobre a atualidade. Temos ainda o Exame da Ordem.

Redação EB – A senhora acredita que a IA (inteligência artificial) pode comprometer (ou ao menos influenciar) a advocacia nos próximos anos?

Drª Gisela Cardoso – Inclusive já está influenciando e sendo usada também em escritórios, pelo Judiciário, demais atores da administração de Justiça. O debate ético sobre o uso da IA é amplo, tem sido feito com a sociedade, porque atinge diversos setores. Então, estamos atentos a este tema, discutindo em diversos eventos, como já disse incluindo o tema na programação e sabendo que há muitas formas da advocacia se beneficiar sim com a IA, com limites.

Redação EB – Considerando o atual momento (marcado pela polarização, pelos posicionamentos ideológicos, pela politização no ensino e a própria IA), como a senhora vê o futuro da advocacia?

Drª Gisela Cardoso – A advocacia tem seu passado, está viva, ativa, atuante, em destaque, em seu presente e assim estará no futuro,  é a única profissão reconhecida constitucionalmente como essencial para a administração da Justiça. Transformações são naturais do processo de evolução. Estaremos mudados, mas ainda assim essenciais.

Redação EB – Mais alguma consideração, Drª Gisela?

Drª Gisela Cardoso – Agradeço pelo espaço e por contribuir com as reflexões aqui propostas.

(Crédito das fotos: Divulgação)

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