O comentário semanal de Olmir Cividini desta sexta-feira (28) sintetiza, de forma contundente, a postura de animosidade do governo federal contra o principal motor da economia nacional.
O governo Lula (PT) não faz questão de esconder sua intenção de retaliar o setor produtivo que mais contribui para a balança comercial e para a solidez da economia brasileira: o Agronegócio.
Ao analisarmos o Circuito Rural desta sexta-feira, a opinião da redação do Enfoque Business é clara: a estratégia do Governo Lula visa a inviabilizar o setor. O objetivo final seria dar início a um processo de conversão das áreas produtivas em propriedades sob o comando do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), alterando profundamente a matriz fundiária e econômica do país.
Na sequência, o conteúdo, na íntegra, do Circuito Rural desta sexta, em texto e áudio.
A demarcação de áreas indígenas voltou ao centro das preocupações do setor agropecuário — e não por acaso. Depois de o ministro da Justiça anunciar que outras dez demarcações devem sair em breve, somando-se às assinadas durante a COP 30 para áreas em Mato Grosso, o clima ficou ainda mais tenso. A sensação é de que o governo decidiu avançar sem freios num tema que exige, antes de tudo, segurança jurídica e previsibilidade.
A semana foi marcada por reações das principais entidades do agro. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu ao STF a suspensão dos decretos até que termine o julgamento do marco temporal das terras indígenas. Para a entidade, a postura do governo atropela um debate que deveria ser técnico e jurídico, não político. Mais que isso: demonstra desrespeito à lealdade processual — palavra que, convenhamos, parece ter sido proscrita do vocabulário institucional brasileiro. Que se manifestem os juristas.
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) adotou tom ainda mais duro: vai apresentar notícia-crime contra o ministro da Justiça e o presidente da República. A iniciativa, apoiada por diversos deputados, deve abrir nova frente de embate no Congresso, justamente na semana em que as relações entre Câmara, Senado e governo sofreram um desgaste público sem precedentes, com o rompimento das relações institucionais. A FPA quer que o caso chegue à PGR para verificar se todos os critérios legais foram cumpridos — especialmente no que diz respeito às indenizações.
É nesse ambiente de desconfiança que um episódio recente ganhou força nas redes sociais: em Conquista do Oeste, Rondônia, produtores com títulos definitivos do Incra, escrituras públicas e mais de quatro décadas na mesma terra, tiveram casas queimadas e foram expulsos por ação conjunta da Funai, Força Nacional e Polícias. O caso reacendeu um sentimento generalizado no campo: a percepção de animosidade do governo federal com o agro. Não esqueçamos: o próprio presidente já chamou produtores de “fascistas”. Quando o discurso institucional degrada, a ação costuma vir na mesma toada.
Endividamento
O resultado é um setor que se sente pressionado por todos os lados — e não apenas na esfera política. Os números apresentados esta semana pelo Banco Central à Comissão de Agricultura do Senado escancaram a realidade econômica: a inadimplência do agro é hoje recorde. No Banco do Brasil, o salto foi de impressionantes 456%, saindo de 0,96% em 2023 para 5,34% em 2025. Entre pessoas físicas, o índice chega a 7,9%. Entre grandes produtores, 10,7%. São números que falam por si.
E antes que se tente colar o rótulo de “mau pagador” no agricultor, o estudo traz um dado incontornável: 74% dos inadimplentes jamais haviam atrasado uma parcela. Se trata então de uma crise sistêmica, resultado de juros proibitivos, custos crescentes, queda nos preços das commodities e políticas públicas que chegam tarde — quando chegam.
O dado mais alarmante, porém, é outro: quem financiou 100% do custeio da safra 24/25 teve prejuízo de 2,6%. A conclusão é inevitável — e incômoda: o crédito agrícola, que deveria ser pilar de sustentação e crescimento, virou motivo de falência.
Quando se conectam os fatos — o avanço açodado nas demarcações, o desgaste institucional, a insegurança jurídica e a crise econômica no campo — o cenário é qualquer coisa menos animador. E talvez o pessimismo não seja exagero. Especialistas vêm alertando há tempos sobre os riscos que agora se materializam. Faltou ouvir. Faltou agir. E, sobretudo, faltou entender que mexer com o agro é mexer com o coração que ainda mantém o país de pé. Agora, resta saber por quanto tempo.
A semana legislativa em Brasília foi marcada pelo avanço de pautas consideradas estratégicas para o agronegócio brasileiro. Na coluna “Circuito Rural”, o jornalista Olmir Cividini analisou decisões da Câmara Federal e discussões em andamento no Senado que impactam diretamente a segurança jurídica, os custos de produção e o endividamento do setor rural.
Entre os principais temas, Cividini destacou a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto que altera a Lei de Crimes Ambientais. A proposta estabelece que fiscais ambientais poderão continuar adotando medidas cautelares para evitar danos, mas sem antecipar punições administrativas, como embargos imediatos, antes da conclusão do devido processo.
Segundo a análise apresentada na coluna, representantes do setor produtivo avaliam a medida como um avanço na segurança jurídica para produtores rurais. Por outro lado, setores ligados à área ambiental manifestam preocupação com possível enfraquecimento da fiscalização. O projeto segue agora para análise do Senado Federal.
Outro ponto debatido envolve a aprovação do regime de urgência para o projeto que retira a cobrança de PIS/Cofins sobre insumos agropecuários. Desde abril, fertilizantes, sementes e defensivos passaram a ter incidência de 0,9% de tributação.
Conforme observou Cividini, embora o percentual seja considerado pequeno, o impacto financeiro ganha proporção dentro da escala da produção agrícola nacional, principalmente em um cenário de juros elevados e margens reduzidas no campo.
A coluna também abordou projetos que tratam da competência técnica sobre classificação de espécies e análises econômicas. As propostas em tramitação buscam devolver ao Ministério da Agricultura a atribuição exclusiva sobre esses processos, após o Ministério do Meio Ambiente incluir a tilápia e o eucalipto em listas de espécies invasoras.
O caso da tilápia foi citado como exemplo de preocupação do setor produtivo. O Brasil ocupa atualmente posição de destaque na produção mundial do pescado, sustentando uma cadeia econômica consolidada ao longo de décadas.
Outro tema acompanhado em Brasília é a discussão sobre o endividamento agrícola. As negociações entre a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e o Ministério da Fazenda seguem em andamento, com possibilidade de anúncio de medidas de socorro financeiro antes da divulgação do próximo Plano Safra.
Na avaliação apresentada na coluna, a definição rápida dessas medidas é considerada essencial diante do calendário agrícola e do cenário econômico enfrentado pelos produtores rurais.
Olmir Cividini é jornalista especializado em agronegócio e atua em Tangará da Serra.