Uma das principais atrações da 5ª Semana da Inovação de Mato Grosso foi a palestra do ex-ministro da Agricultura, Antônio Cabrera, que versou sobre Visão Global do Agronegócio. A palestra foi ministrada na última sexta-feira (12.08), no Centro de Eventos de Tangará da Serra, como parte da programação da Exposerra 2025.
A 5ª SIMT, foi uma promoção da Rede de Inovação de Mato Grosso (Inova MT), com realização do Sindicato Rural de Tangará da Serra.
Pós-graduado em produção animal no exterior, Antônio Cabrera Mano Filho, aos 29 anos, foi ministro da Agricultura no governo Collor (1990–1992). Durante sua gestão foi aprovada a primeira Lei Agrícola do Brasil, um marco do setor.

Também foi secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Depois disso, continuou atuando como referência no setor, inclusive em entidades ligadas ao agronegócio e à pecuária. É presidente do Grupo Cabrera, que opera em 10 estados brasileiros no agronegócio, com produção de grãos (soja e milho), cana-de-açúcar, pecuária de corte e exportação de gado vivo. O grupo também tem negócios em energia solar e na fabricação de pré-moldados.
Os entraves do Brasil
Cabrera começou questionando porque o Brasil, com seu potencial produtivo e suas riquezas, sofre com tantas dificuldades.
O país suporta uma pesadíssima carga tributária (com sucessivos novos impostos). Desde o início do atual governo, em janeiro de 2023, houve 24 medidas de criação ou aumento de tributos.
Para piorar, o país convive com uma burocracia que resulta numa excessiva lentidão em processos e decisões.

Desde o início do atual governo, em janeiro de 2023, houve 24 medidas de criação ou aumento de tributos.
O país também tem de enfrentar o descrédito de sua classe política e outros obstáculos, como uma política econômica longe de ser assertiva e legislações restritivas, entre elas a ambiental e a trabalhista. “Toda vez que o Legislativo – nas esferas federal, estadual e municipal – se reúne, alguma restrição – alguma nova lei, norma, taxa ou tributo – nos está sendo imposta”, observou o ex-ministro.
Um dos efeitos nefastos desse conjunto de entraves é percebido na logística, que atrasa e até mesmo impede obras estruturantes para o país, como ferrovias e hidrovias. “Nesses 12 anos em que o Brasil perdeu discutindo os 900 quilômetros da Ferrogrão, a China construiu 100 mil quilômetros de ferrovias”, comparou.

Palestra foi ministrada na manhã da última sexta-feira, no Centro de Eventos de Tangará da Serra.
Os ataques ao agro com contrapropagandas interna e externa
Na guerra de informações travada no mundo inteiro pela divulgação instantânea, pelas redes sociais e pela mídia tendenciosa com suas fake news, o Brasil convive com um inimigo criado dentro no próprio quintal. Ou seja, o país é bombardeado quase que diariamente por “fogo amigo”.
O palestrante citou a contrapropaganda imposta à sua principal vocação econômica, que é a produção de alimentos. Essa contrapropaganda ocorre tanto interna como externamente, sendo um dos exemplos internos o material escolar apresentado aos alunos, principalmente no nível fundamental. “Nesses materiais, as referências negativas correspondem a 60% do conteúdo e, deste percentual, apenas 3,5% contém embasamento científico”, apontou, considerando informações da Associação De Olho no Material Escolar.

Agro é bombardeado quase que diariamente, em especial pelo segmento político de esquerda.
Um péssimo exemplo vem justamente de cima. O atual presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, o seu partido – PT – e seus orbitários, jogam contra os próprios interesses brasileiros ao inventarem números. Cabrera mostrou durante a palestra vídeos onde Lula e a ministra Marina Silva propagam aos quatro ventos dados sem validação. Lula citou em várias ocasiões números diferentes, relatando sem qualquer comprovação que o país tem 30 milhões de pessoas passando fome. Em outra duas ocasiões, esse número relatado pelo presidente subiu para 32 milhões e, por fim, para 34 milhões de pessoas sem comida.
Outro número, ainda mais absurdo, foi citado pela ministra Marina Silva num evento realizado há dois anos em Davos, na Suíça. Naquela oportunidade, Marina disse que no Brasil haviam “120 milhões de famintos”.

Contrapropaganda interna ocorre, também, em materiais didáticos, com 60% de referências negativas e sem comprovação científica.
Falácias como essas depõem contra um país produtor de alimentos e que se destaca pela sustentabilidade. Ou seja, ao invés de reverenciar o país que gere, o atual governo vocifera difamações ao Brasil com dados claramente inverídicos e sem qualquer comprovação por órgãos oficiais como, por exemplo, o IBGE.

É bem verdade que há fome no Brasil, mas, segundo dados do Banco Mundial, esse percentual no país fica ao redor de 4%. Outro dado, de julho de 2025, divulgado pelo Mapa da Fome da ONU, aponta para uma prevalência de subalimentação abaixo de 2,5% no país. Números que destoam escandalosamente dos alardeados por Lula e Marina.
Outro exemplo da contrapropaganda está em figuras como o escritor Paulo Coelho, que em 2020 postou em sua conta no então Twitter (atual X) um pedido de boicote a produtos brasileiros. “Boicote exportações brasileiras ou o Talibã cristão controlará o país”, chegou a postar, em setembro daquele ano. Após inúmeras e incisivas críticas, Coelho deletou a postagem.

Já na contrapropaganda externa, o país é acossado por barreiras de mercado travestidas de exigências ambientais – muito praticada pela União Europeia – e campanhas ferozes anti-agro implementadas por organizações como o Green Peace, em seus frequentes apelos à comunidade internacional para que sejam boicotados produtos brasileiros provenientes de áreas desflorestadas, ainda que estas estejam dentro dos limites preconizados pela legislação ambiental.
Contando a própria história
Depois de contextualizar com os entraves e a propaganda negativa, Cabrera considerou alguns números do próprio agronegócio, começando pelos tempos em que era ministro, em 1990. Naquele ano, o Brasil produzia 59 milhões de toneladas de grãos. Hoje, essa produção saltou para 345 milhões de toneladas, resultado de novas tecnologias e avanços significativos de gestão no setor.
Quanto à proteína animal (carnes bovina, suína e de frango e seus derivados), o Brasil é o maior exportador do mundo, com 10 milhões de toneladas vendidas em 2024 aos mais diferentes mercados internacionais.

Representante da Agenda Regional Oeste, Silvio Tupinambá, interage com Cabrera sobre logística.
Além da produção em escala, o agronegócio responde por uma geração de 3,5 milhões de empregos.
Ao mencionar esses números e informações, Antônio Cabrera dirigiu-se ao numeroso grupo de produtores rurais presentes na plateia: “O Agronegócio precisa saber contar a sua história”, disse, acrescentando que o agro precisa desmitificar sua condição e desmentir a vilania injustamente imposta à atividade produtiva rural. “Não estou aqui defendendo uma classe, não estou falando que o produtor rural é o melhor… estou falando de comida, e comida é pra todo mundo, não importa condição social, se é rico, se é pobre, não importa cor partidária ou o que faz da vida. Todos precisam de comida!”, ressaltou.
(*) Ouça a entrevista de Cabrera a Ricardo Arioli, no Momento Agrícola.
O palestrante chamou atenção para o papel geopolítico do Brasil no mundo quando o assunto é alimentos. Para se ter uma ideia, o maior importador do planeta, a China – país que detém 1/5 da população mundial – compra do Brasil nada menos que 70% da soja que consome.
A presença jovem e o Brasil na próxima década
Um detalhe percebido pelo ex-ministro foi a forte presença do público jovem nas palestras e nas atividades em geral da 5ª Semana da Inovação. “Esse é o grande diferencial do Brasil: a juventude presente. Se fizer hoje uma reunião na Associação dos produtores de Soja dos Estados Unidos, ou na Europa, por exemplo, você não encontra uma geração nova envolvida no campo”, observou Antônio Cabrera, destacando que entre as startups, metade tem ligação direta ou indireta com o agronegócio. “Nós temos uma geração faca nos dentes, nova, preocupada e envolvida… é isso que nos garante um futuro muito mais brilhante”.
Próxima década
Com uma assinatura de sustentabilidade sem igual em qualquer outro país do mundo, o Brasil é protagonista num mercado mundial onde 70% dos países são importadores de alimentos.
Recentemente, Cabrera participou de uma reunião do Global Farms Network, associação mundial de agricultores com representantes de mais de 70 países. Na ocasião, o convidado especial foi o secretário de estado dos Estados Unidos da época. Sem saber que Cabrera era brasileiro, ele afirmou que a próxima década terá os melhores anos da história dos agricultores, principalmente se estiveram no Brasil. “Achei tão interessante, porque ele (o secretário americano) não é agricultor, e sim alguém que pensa da estratégia mundial. Não estou sendo ufanista, não estou com otimismo exagerado, pois teremos crises, teremos dificuldades… já estamos, por exemplo, enfrentando o peso da tributação e os problemas da infraestrutura… Afinal, nós estamos tratando de comida!”, refletiu, remetendo seu pensamento à atualidade geopolítica no mundo.
Cabrera ilustrou essa colocação citando o livro “História da alimentação no Brasil”, publicada em 1967 por Luís da Câmara Cascudo. Nela, o autor cita que a refeição é “elemento pacificante”. Ou seja, para Antônio Cabrera, a paz e a harmonia do mundo dependem de comida. “E quem vai produzir isso? Somos nós, os agricultores brasileiros. Definitivamente, o Brasil está condenado… ao sucesso!”, concluiu.

Palestrante recebeu lembranças de Tangará da Serra do prefeito Vander Masson e do presidente do Sindicato Rural, Romeu Ciochetta.