Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno; em Mato Grosso foram 22,2% do eleitorado. Brancos e nulos somam outros 6 milhões de votos.
A abstenção voltou a ocupar espaço relevante nas eleições brasileiras e poderá assumir papel estratégico ainda maior no segundo turno da disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No primeiro turno, realizado neste domingo (4), 21,08% dos eleitores brasileiros aptos a votar não compareceram às urnas. Foram 33,47 milhões de ausentes, segundo os dados consolidados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O índice é o maior registrado em uma eleição presidencial desde 1998.
Em Mato Grosso, a abstenção chegou a 22,20%, equivalente a 585.668 eleitores. Apesar de o número absoluto de faltosos ter aumentado em relação a 2022, quando foram 577.261, a proporção caiu de 23,38% para 22,20%, em razão do crescimento do eleitorado estadual.
Em Tangará da Serra, o índice foi ainda maior: 22,65% do eleitorado deixou de votar, o equivalente a aproximadamente 15,7 mil eleitores.
Um número que chama atenção
A comparação histórica mostra que a ausência às urnas continua sendo uma variável importante do comportamento eleitoral.
Nas eleições municipais de 2024, a abstenção chegou a 21,71% no primeiro turno em todo o país. Em Mato Grosso, alcançou 24,32%, enquanto Tangará da Serra registrou 30,21%.

Alta abstenção: Ausentes e votos brancos e nulos somam mais de 39 milhões de eleitores.
Nas eleições gerais de 2022, a abstenção nacional ficou próxima de 21% nos dois turnos. Em Mato Grosso, foi de 23,38% no primeiro turno e 22,53% no segundo. Os números mostram que a participação eleitoral pode variar significativamente conforme o tipo de eleição e, principalmente, conforme o grau de mobilização produzido pela disputa.
A eleição de 2026 acrescenta um elemento novo: a diferença entre os dois candidatos que avançaram ao segundo turno é relativamente estreita diante do tamanho do eleitorado que não participou da votação.
Com 100% das seções totalizadas, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, contra 53,88 milhões de Lula. A diferença foi de aproximadamente 2,22 milhões de votos, ou 1,87 ponto percentual dos votos válidos.
É nesse espaço que a abstenção passa a ser observada pelas campanhas.
A disputa por quem não votou
Em termos estritamente matemáticos, os 33,47 milhões de eleitores que não compareceram às urnas representam um contingente muito superior à diferença entre os dois candidatos.
Isso não significa, evidentemente, que esse eleitorado esteja disponível para qualquer uma das campanhas.
Quem não votou não constitui um grupo homogêneo. Há eleitores que estavam impedidos de comparecer, pessoas que viajaram, cidadãos com dificuldades de deslocamento, eleitores que simplesmente não se interessaram pela disputa e também aqueles que deliberadamente optaram por não participar.
Por isso, transformar abstenção em voto é uma tarefa eleitoral muito mais complexa do que simplesmente convencer alguém a trocar de candidato.
O mesmo raciocínio vale para os votos brancos e nulos. No primeiro turno, eles representaram 4,77% dos votos registrados para presidente — 1,84% em branco e 2,93% nulos. Somados às abstenções, os três grupos chegaram a aproximadamente 39,1 milhões de eleitores.
São números expressivos, mas não formam um bloco eleitoral único.
A vantagem potencial de Flávio
Na matemática do segundo turno, Flávio Bolsonaro parte de uma situação relativamente confortável: além de ter terminado à frente, os candidatos que ficaram fora da disputa — especialmente Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado — obtiveram, juntos, quase nove milhões de votos.

Flávio Bolsonaro surpreendeu no primeiro turno e tenta sacramentar a vitória no próximo dia 25.
Pela orientação ideológica predominante desses eleitorados, é plausível imaginar que uma parcela maior desses votos possa se deslocar mais para Flávio do que para Lula. Mas isso é uma tendência política, não uma regra matemática.
O desafio das campanhas, portanto, será duplo: conquistar parte do eleitorado dos candidatos derrotados e, simultaneamente, mobilizar quem não participou do primeiro turno.
Lula mira a abstenção
Para Lula, essa equação é particularmente importante.
Depois do resultado do primeiro turno, o presidente sinalizou que pretende concentrar esforços também sobre os eleitores que não participaram da votação ou não deram voto válido.

Lula pretende ampliar a mobilização eleitoral para o segundo turno, com atenção aos eleitores que não compareceram às urnas.
A estratégia faz sentido do ponto de vista matemático. Com uma diferença de 1,87 ponto percentual entre os dois candidatos, pequenas alterações no comportamento eleitoral podem produzir uma mudança significativa no resultado final.
Mas há uma dificuldade evidente: como construir uma comunicação capaz de convencer alguém que sequer se dispôs a comparecer às urnas?
Esse talvez seja um dos principais desafios do segundo turno.
As campanhas sabem falar com quem já tem candidato. Também sabem disputar o voto de quem escolheu uma terceira opção. O eleitor que decidiu não participar, porém, exige outro tipo de abordagem: é necessário primeiro convencê-lo de que vale a pena votar e somente depois tentar convencê-lo sobre em quem votar.
Disputa pela mobilização
A experiência recente mostra que a abstenção pode diminuir em disputas altamente polarizadas. Em 2022, por exemplo, o segundo turno presidencial teve participação semelhante à do primeiro, enquanto nas eleições municipais de 2024 a ausência foi significativamente maior.
Agora, a disputa coloca frente a frente dois candidatos que concentram praticamente todo o eleitorado politicamente mobilizado em torno de dois polos.
Por isso, o segundo turno de 2026 poderá ser decidido não apenas pela capacidade de Flávio Bolsonaro e Lula de conquistar novos votos, mas também pela capacidade de retirar eleitores da zona de indiferença, desinteresse ou impossibilidade que produziu os mais de 33 milhões de ausentes do primeiro turno.
A abstenção, portanto, não é voto de ninguém.
Mas, diante de uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos entre os dois primeiros colocados, a capacidade de cada campanha de aumentar a participação eleitoral poderá ser tão importante quanto a capacidade de conquistar votos de quem escolheu outros candidatos no primeiro turno.