A expansão das usinas fotovoltaicas na zona rural criou um novo alvo para o crime organizado: os cabos de cobre utilizados nos sistemas de geração de energia solar. Em Mato Grosso, a sequência de ocorrências ganhou dimensão estadual e revelou algo mais preocupante que simples furtos oportunistas: a existência de grupos especializados, com logística, divisão de tarefas e canais para comercialização do material.
Cobre Oculto
A ação dos criminosos rendeu uma resposta contundente da Polícia Judiciária. A Operação Cobre Oculto, deflagrada em 18 de agosto pela Delegacia de Sorriso, por meio do Departamento de Roubos e Furtos (DERF) desarticulou uma estrutura organizada para atacar propriedades rurais, retirar os cabos dos sistemas fotovoltaicos e encaminhar o material para revenda na região metropolitana de Cuiabá. Sete pessoas foram presas.
Não era ação isolada
As investigações começaram a partir de um furto registrado em abril, em uma propriedade rural de Boa Esperança do Norte. A partir daí, os policiais encontraram indícios de uma atuação articulada, com divisão de tarefas entre os envolvidos. O grupo teria atuado em propriedades de Sorriso, Ipiranga do Norte, Nova Ubiratã, Boa Esperança do Norte, Campo Verde e Primavera do Leste.
A rota do cobre
Segundo os trabalhos investigativos, o material furtado abastecia um núcleo de receptação em Cuiabá. Os cabos eram retirados das fazendas e transportados para a região metropolitana, onde o material furtado era transformado em dinheiro.
Prejuízo de R$ 2 milhões
A estimativa da Polícia Civil é de aproximadamente R$ 2 milhões em prejuízos provocados pelos crimes investigados. E a conta não se limita ao valor dos cabos. Quando uma usina é atacada, há também danos à instalação, necessidade de reposição dos equipamentos, deslocamento de equipes de manutenção e interrupção da geração de energia.
Tangará entra no mapa

Dois dias depois da Cobre Oculto, em 20 de agosto, os tentáculos da quadrilha apareceram em Tangará da Serra, onde a Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (DERF) prendeu quatro suspeitos em flagrante (foto acima) por envolvimento em uma série de furtos de fios de cobre no município e na região. A investigação havia identificado ocorrências especialmente em usinas de energia solar. Na abordagem de um veículo na MT-358, foram encontrados cerca de 120 quilos de fios de cobre, além de ferramentas.
530 metros de fios
Na ação em Tangará da Serra, a Polícia Civil apreendeu aproximadamente 530 metros de fios de cobre, alicates, um enxadão e um VW Gol. Os quatro suspeitos – entre 33 e 47 anos – também foram relacionados a outros furtos, incluindo ocorrências em estabelecimento comercial, empresa, propriedade rural e unidade escolar. Para se ter ideia dos prejuízos, somente em uma propriedade rural o furto dos fios foi estimado em aproximadamente R$ 100 mil.
Por que as usinas?
Boa parte da resposta está na geografia. Muitas usinas fotovoltaicas estão instaladas em propriedades rurais, afastadas dos centros urbanos, com grandes extensões de área e poucos trabalhadores durante a noite. Para uma quadrilha especializada, isso representa tempo para agir, dificuldade de testemunhas e maior distância até uma eventual resposta policial.
O cobre é o alvo
O cobre agrega valor ao trabalho dos criminosos, já que tem considerável valor comercial e pode ser rapidamente retirado das instalações e colocado no mercado ilegal. Ou seja, para o criminoso a usina oferece uma combinação interessante: material valioso, grandes quantidades de cabos e localização que pode dificultar a vigilância.
Crime também ataca a geração
Para o proprietário, cada ataque significa muito mais que o valor do metal levado. O dano não termina quando o cabo é colocado no veículo dos criminosos. A retirada da fiação pode interromper a geração de energia e exigir reparos emergenciais, que demandam altos custos e, consequentemente, mais investimentos. Em razão dessa circunstância, a segurança patrimonial passou a integrar o planejamento de parques solares justamente porque furtos de cabos podem comprometer a operação e elevar os custos de manutenção.
Como prevenir?
Não existe solução pronta. Usinas instaladas em áreas vulneráveis precisam combinar cercamento, iluminação, câmeras, sensores de movimento, monitoramento remoto, rondas e controle de acesso. A lógica deve ser preventiva: detectar a invasão antes que os criminosos tenham tempo para retirar grandes quantidades de cabos. Sistemas de detecção específica para violação da fiação também já são utilizados no setor.
Tecnologia e inteligência
Outro ponto importante é transformar segurança patrimonial em inteligência. Registros de veículos suspeitos, horários de movimentação, características das ocorrências e informações compartilhadas entre produtores podem ajudar a identificar padrões. A comunicação rápida com as forças de segurança também é fundamental. Em áreas rurais, minutos podem fazer diferença entre a invasão e a fuga.
Reação necessária
A mensagem para os proprietários de usinas é objetiva: não esperar o primeiro furto para instalar segurança. Se a estrutura está em local isolado, o risco deve ser considerado desde o projeto. A expansão da geração solar precisa vir acompanhada de investimento proporcional em proteção patrimonial. A prevenção tende a custar muito menos que a reconstrução de uma instalação depois de uma ação criminosa.
Não é só Mato Grosso
Mato Grosso não está sozinho nesse problema. Em abril, a Polícia Civil do Paraná prendeu dez homens em Toledo por furto de cabos de cobre e apontou aproximadamente 20 ocorrências semelhantes em usinas solares da região. O caso mostra que o crime acompanha a expansão da geração fotovoltaica também em outros estados.
Alerta
O que chama atenção em Mato Grosso é a velocidade com que esse tipo de crime parece ter encontrado espaço. Primeiro, aparecem os furtos. Depois, surge a especialização. Em seguida, a logística, a divisão de tarefas e os receptadores. A Cobre Oculto mostrou que a polícia já identificou parte dessa engrenagem. A prisão de quatro suspeitos em Tangará, dois dias depois, demonstra que essa nova manobra criminosa já é conhecida.