Histórico recente mostra índices acima de 20% e levanta debate sobre conscientização, envelhecimento populacional e confiança nas instituições
O crescimento do eleitorado mato-grossense para as Eleições 2026 esconde uma contradição que chama a atenção da Justiça Eleitoral e dos analistas políticos: embora o estado tenha registrado a terceira maior expansão proporcional do país, com alta de 6,84% em relação a 2022, a participação efetiva dos eleitores nas urnas continua marcada por elevados índices de abstenção.
Os números mais recentes ajudam a dimensionar o fenômeno. Em Tangará da Serra, a abstenção atingiu 32,78% nas eleições municipais de 2020, realizadas sob o impacto da pandemia de Covid-19. Dois anos depois, nas eleições gerais, o índice recuou para 27,04%, mas voltou a crescer em 2024, alcançando 30,21%. Na última eleição municipal, 21.007 eleitores deixaram de comparecer às urnas.
O comportamento se repete em outros municípios da região. Em Campo Novo do Parecis, a abstenção foi de 28,48% em 2020, caiu para 25,65% em 2022 e fechou em 23,03% em 2024. Em Mato Grosso, a média estadual nas eleições municipais do ano passado ficou em 24,32%.
Os percentuais revelam um padrão persistente: independentemente do tipo de eleição, entre um quarto e um terço dos eleitores deixa de votar. Em municípios como Tangará da Serra, esse contingente corresponde, em números absolutos, a um eleitorado suficiente para definir a eleição de um deputado estadual.

Em Tangará da Serra, eleições de 2022 e 2024 tiveram, respectivamente, índices de abstenção de 27% e 30%.
Saneamento eleitoral
A elevada abstenção ajuda a explicar, ao menos em parte, a redução do eleitorado tangaraense observada nos últimos anos. Dados divulgados pela Justiça Eleitoral mostram que Mato Grosso acumulou mais de 208 mil títulos cancelados, consequência, principalmente, da ausência injustificada em três eleições consecutivas e da falta de regularização cadastral.
Somente em Tangará da Serra, o eleitorado encolheu quase 5% em relação a 2022, movimento que não necessariamente reflete perda populacional ou desaceleração econômica. Parte da redução pode estar relacionada ao saneamento promovido pela Justiça Eleitoral sobre um contingente de eleitores que permaneceu por anos sem participar do processo eleitoral.
Abstenção persistente
Apesar dos cancelamentos, a abstenção continua elevada, levantando questionamentos sobre as causas do fenômeno. Especialistas apontam fatores diversos, como o distanciamento entre eleitores e representantes políticos, a recorrência de casos de corrupção, a descrença nas instituições e a baixa conscientização sobre a importância do voto.
Outro elemento que merece atenção é a mudança no perfil etário da população brasileira. Entre 2022 e 2026, o contingente de eleitores com 60 anos ou mais cresceu em todo o país. Como o voto deixa de ser obrigatório após os 70 anos, o envelhecimento da população pode influenciar os índices de comparecimento às urnas.
O cenário eleitoral também coincide com profundas transformações econômicas e demográficas. Enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste lideraram o crescimento proporcional do eleitorado brasileiro — com altas de 4,37% e 3,97%, respectivamente —, Sudeste e Sul apresentaram expansão mais modesta.
O desempenho acompanha, em parte, a dinâmica econômica recente. Norte e Centro-Oeste concentram áreas de forte expansão da agropecuária e de atividades ligadas ao agronegócio. No Nordeste, o avanço de 2,69% pode estar relacionado ao crescimento agrícola em estados como Bahia, Piauí e Maranhão. Já no Sul, onde o eleitorado cresceu 1,34%, o aumento parece acompanhar mais o crescimento vegetativo da população do que movimentos intensos de atração econômica.
No Sudeste, única região a registrar retração do eleitorado, de 0,56%, especialistas apontam fatores como a estabilização demográfica e a redução proporcional das faixas etárias mais jovens.
Projeção
Com base no comportamento registrado nas três últimas eleições, a expectativa é de que Mato Grosso volte a conviver, em 2026, com índices de abstenção superiores a 20%. Ainda não é possível prever, contudo, de que forma a polarização política nacional influenciará esse quadro.
O ambiente político mais acirrado poderá estimular a participação e reduzir a ausência nas urnas. Por outro lado, o desgaste da relação entre eleitores e representantes pode manter elevados os índices de abstenção, reforçando um desafio que vai além da disputa eleitoral: ampliar a conscientização sobre o papel do voto e fortalecer a participação democrática.
(*) A redação entrou em contato com a Justiça Eleitoral e aguarda manifestação sobre os dados e as questões abordadas nesta reportagem.