A tecnologia para fiscalização ambiental pode transformar uma tradição em infração. É o caso do uso do fogão a lenha, e até mesmo da churrasqueira, cuja fumaça pode ser interpretada como ocorrência de queimada ilegal e gerar multa de R$ 10 mil e prisão de até quatro anos.
O tema virou polêmica na Câmara Federal e é abordado nesta sexta-feira na coluna Circuito Rural, do jornalista Olmir Cividini. Ele trata o tema de forma crítica e pontual.
A abordagem considera polêmica levantada pelo deputado federal Lúcio Mosquini (MDB-RO) sobre a forma como órgãos ambientais identificam e autuam supostas irregularidades no meio rural. O parlamentar contesta a aplicação de multas baseadas exclusivamente em imagens de satélite que detectam fumaça e a classificam como foco de incêndio.
Segundo Mosquini, há casos em que a fumaça proveniente de fogões a lenha estaria sendo interpretada automaticamente como queimadas ilegais, resultando em autuações que podem chegar a R$ 10 mil. Ele sustenta que o modelo atual de fiscalização pode punir de forma indevida práticas rotineiras no campo.
Riscos de embargo indevido
O deputado também critica o caráter automatizado do sistema. De acordo com sua avaliação, a identificação remota, sem verificação técnica presencial, pode levar ao embargo de propriedades e à aplicação de sanções sem a devida análise de contexto ou garantia plena de defesa ao produtor.
Diante disso, Mosquini defende mudanças na legislação para impedir que autuações sejam realizadas exclusivamente com base em dados de satélite. As propostas em discussão buscam exigir critérios técnicos adicionais e a confirmação in loco antes da aplicação de penalidades.
A pauta ganhou repercussão nas redes sociais e mobilizou produtores rurais, especialmente em Rondônia, que relatam preocupação com o que consideram insegurança jurídica no campo.
O debate, no entanto, ultrapassa o aspecto técnico da fiscalização. A possibilidade de que o uso do fogão a lenha — prática tradicional em grande parte do meio rural brasileiro e também muito comum nas cidades — possa resultar em multa ou sanção traz um componente simbólico relevante. Para muitos, trata-se de um sinal de que hábitos históricos e culturais estariam sendo enquadrados sob a lógica punitiva.
A discussão expõe uma tensão entre controle ambiental e modos de vida. O fogão a lenha, além de instrumento doméstico, carrega valor cultural, social e afetivo em diferentes regiões do país. A ideia de associá-lo a uma infração ambiental é vista, por setores do campo, como um distanciamento entre norma e realidade.
Nesse contexto, surge uma indagação inevitável: se a emissão de fumaça de um fogão a lenha pode ensejar penalidades, o que dizer de práticas igualmente difundidas, como o uso de churrasqueiras, presentes tanto em áreas rurais quanto urbanas?
O avanço das propostas dependerá da tramitação no Congresso Nacional e da forma como o tema será regulamentado. Até lá, o episódio reforça o debate sobre os limites da tecnologia na fiscalização ambiental e seus impactos sobre práticas cotidianas no Brasil rural. Ou seja: o ambiente tecnológico precisa estar emoldurado pelo bom senso.
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Na coluna Circuito Rural desta sexta-feira (13.03), o jornalista Olmir Cividini analisa dois temas cruciais que movimentam os bastidores e os portos do agronegócio brasileiro nesta semana.
O Norte Estratégico: Agenda Legislativa do Agro 2026
Na última quarta-feira (11), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) entregou oficialmente ao Congresso Nacional a Agenda Legislativa do Agro 2026. O documento, apresentado em sessão solene na Câmara dos Deputados, consolida o posicionamento do setor frente às propostas de lei que impactam diretamente a vida no campo.
Para este ciclo, a CNA prioriza pilares como segurança jurídica, estabilidade no ambiente de negócios e a manutenção da competitividade brasileira no exterior. Segundo Cividini, o foco da entidade pode ser traduzido em um conceito fundamental para o produtor: previsibilidade.
Cargill suspende envios de soja para a China
O segundo destaque da coluna aborda um revés significativo nas exportações. A multinacional Cargill anunciou a suspensão temporária das exportações de soja brasileira para a China, interrompendo também novas compras do grão no mercado interno.
A paralisação, confirmada pelo presidente da companhia no Brasil, Paulo Sousa, é reflexo de mudanças recentes no sistema de inspeção fitossanitária do Governo Federal. O novo modelo de fiscalização do Ministério da Agricultura tem gerado dificuldades na emissão de certificados exigidos pela alfândega chinesa, criando um gargalo que trava o fluxo da safra.
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