Efetivo superior ao de 2022 e atuação preventiva e repressiva refletem preocupação com ocorrências em um ambiente de forte polarização política.
O reforço de mais de cinco mil profissionais das forças de segurança para as Eleições Gerais de 2026 em Mato Grosso revela uma preocupação que vai além da logística necessária para garantir a votação. Em um ambiente marcado pela polarização política, pela hostilidade nas redes sociais e por um quadro geral que aponta para riscos evidentes, a Justiça Eleitoral prepara uma estrutura capaz também de responder a eventuais situações de confronto.
O Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) concluiu nesta semana o planejamento da segurança para o pleito de 4 de outubro, com participação das forças estaduais e federais. O efetivo será maior que o empregado nas eleições de 2022, considerando o aumento do número de seções eleitorais e estratégias específicas para locais considerados mais sensíveis.
A coordenadora do Gabinete de Gestão Integrada, juíza auxiliar da Presidência Edna Coutinho, informou que serão mais de cinco mil agentes distribuídos entre áreas urbanas, rurais e aldeias. Segundo ela, o planejamento considera locais com grande concentração de eleitores, possibilidade de influência de facções e ocorrência de tumultos.
A presidente do TRE-MT, desembargadora Serly Marcondes Alves, também destacou que a estratégia contempla prevenção e repressão, caso seja necessário. O Estado terá ainda a participação das Forças Armadas, cujo emprego na segurança das eleições foi autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Polarização afetiva
A dimensão do aparato ganha significado diante da chamada polarização afetiva, fenômeno em que a divergência política deixa de se limitar às ideias e passa a envolver rejeição intensa ao grupo adversário. Nas redes sociais, a disputa frequentemente assume contornos de rivalidade pessoal e ideológica, criando um ambiente em que uma provocação pode produzir reação desproporcional.
O risco não é apenas teórico. Nas eleições de 2022, o TSE criou um núcleo de inteligência especificamente para identificar ameaças à normalidade do processo eleitoral e estabeleceu ações de prevenção e repressão da violência política. A missão de observação eleitoral da OEA registrou naquele pleito relatos de violência contra políticos e episódios associados à intolerância político-partidária.
Um dos pontos de atenção no dia da votação será justamente o entorno dos locais de votação. A chamada boca de urna, embora proibida e caracterizada como crime eleitoral, historicamente envolve a presença de cabos eleitorais e correligionários tentando influenciar eleitores. O TSE também proíbe manifestações coletivas durante o período de votação.
É nesse espaço, entre grupos politicamente identificados, que a tensão das redes sociais pode encontrar a realidade das ruas. Uma provocação, uma discussão ou uma tentativa de abordagem de eleitor pode ganhar dimensão maior em um ambiente no qual adversários políticos são frequentemente tratados como inimigos.
Risco e contraponto
Há, contudo, um contraponto importante. Pesquisa nacional da FESPSP aponta que 69% dos brasileiros não se enquadram na definição estrita de polarização afetiva. O estudo indica que rejeição, indiferença e desalento atingem parcela maior do eleitorado do que o confronto direto entre grupos políticos.
Isso significa que a tensão política não pode ser confundida com comportamento da maioria dos eleitores. Mas também não elimina o risco representado por grupos mais mobilizados e por episódios localizados de hostilidade.
O que o planejamento do TRE-MT demonstra, portanto, é que a segurança não está sendo tratada apenas como uma questão operacional. Em uma eleição realizada sob forte tensão política, a Justiça Eleitoral se prepara para preservar a tranquilidade da votação e, se necessário, intervir diante de ocorrências capazes de comprometer o exercício livre do voto.