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O preço da negligência quando a biópsia de pele é subestimada

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*Por: Carlos Aburad

Ignorar lesões de pele é um equívoco que pode ter consequências fatais. Muitas vezes, uma simples remoção de pinta que parece ser inofensiva esconde um melanoma, um tipo agressivo de câncer de pele que pode se disseminar rapidamente pelo corpo se não descoberto a tempo. Recentemente, foi divulgado o caso da dentista Luciana Fiorin que, aos 49 anos, resolveu remover uma pinta antes de colocar silicone. O que parecia ser simples virou um drama.

A dentista passou por longas etapas que poderiam ter sido evitadas. Houve várias tentativas de cauterização por dermatologista, durante um ano. Como a pinta não caia, a dentista foi encaminhada a um cirurgião plástico. Ele removeu a pinta e finalmente solicitou a biópsia – o que já deveria ter sido feito anteriormente. A biópsia detectou um melanoma, que já estava em diferentes metástases no corpo. Foram cinco anos de tratamento por conta disso.

O caso da dentista mostra um problema crítico: a resistência de alguns profissionais da saúde em solicitar biópsias diante de lesões suspeitas. Essa resistência não parte apenas de alguns médicos. Há casos de dentistas que também deixam passar certos tipos de lesões em pacientes quando as visualizam em vez de encaminhar para biópsia. É preciso deixar claro que materiais coletados em remoções de pinta ou lesões de boca, por exemplo, não devem ser jogados na lata de lixo. Devem sim ser sempre encaminhados para biópsia por mais simples que sejam aparentemente.

A biópsia é um método essencial e ainda subestimada no diagnóstico precoce. O procedimento é simples e feito com anestesia local. O patologista, ao examinar a amostra de tecido da pele de forma mais profunda, pode avaliar a presença de células cancerígenas. Se for o caso de melanoma, é possível analisar as características como a espessura do tumor e a velocidade de multiplicação das células. Esse tipo de informação é fundamental para definir o estágio do câncer e as melhores opções de tratamento. Apesar de parecer óbvio, não é. O problema é que, ao tomar a decisão de não enviar o material para análise, profissionais da saúde podem prejudicar a vida de pacientes com diagnósticos tardios. O câncer pode avançar para estágios críticos e com menos chances de cura se esse cuidado básico de fazer biópsia não for tomado.

Infelizmente, muitos profissionais de saúde subestimam a importância da biópsia e tratam das lesões de pele de forma superficial. Em alguns casos, ignoram os sinais de alerta. A consequência disso é um número crescente de diagnósticos tardios, como aconteceu com a dentista, que enfrentou metástases em diferentes partes do corpo ao longo do tratamento.

A negligência em solicitar exames preventivos como a biópsia não é apenas uma falha. É reflexo de uma falta de conscientização na sociedade. É preciso lembrar que tem aumentado a incidência do câncer no Brasil. Uma pesquisa recente publicada na The Lancet Regional Health – Americas mostra que de 2000 a 2019, a mortalidade por câncer cresceu em 15 estados, enquanto a de doenças cardiovasculares caiu.

O câncer em muitos casos é silencioso e sem sintomas evidentes até que seja tarde demais para o tratamento. As taxas de mortalidade mostram essa realidade complexa. Entre os 5.570 municípios brasileiros analisados na pesquisa, o número de locais onde o câncer é a principal causa de morte quase dobrou, passando de 7% para 13%. Nesse período, as taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares caíram em 25 dos 27 estados.  Por outro lado, as taxas de mortalidade de câncer cresceram em 15 estados. Isso reflete a falta de diagnósticos precoces. Enquanto as doenças cardiovasculares tiveram uma redução significativa de 40% na mortalidade, o câncer apresentou uma queda pequena de apenas 10%.

Os números são preocupantes, se considerarmos que muitos casos poderiam ser evitados ou diagnosticados em estágios iniciais com procedimentos simples como a biópsia. É importante destacar que os médicos devem estar sempre atentos às mudanças na pele de seus pacientes e jamais hesitar em pedir exames detalhados para o melhor diagnóstico. Afinal, a vida de pacientes pode depender dessa decisão.

Casos como o da dentista que teve um diagnóstico tardio de melanoma deveriam servir de alerta para profissionais da saúde. A conscientização sobre a importância da biópsia precisa ser amplamente difundida para evitar tipos de situações como essa. Quantos casos semelhantes ao da dentista não existem por aí? O cuidado pode ser tomado também pelos próprios pacientes, que devem exigir de seus médicos uma investigação completa. Médicos e dentistas precisam valorizar o diagnóstico precoce como a melhor arma contra o câncer. Afinal, a detecção rápida aumenta as chances de cura e salva vidas.

*Carlos Aburad é médico patologista do CPC Aburad Diagnóstico

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Opinião

Saúde Mental, Rock e Metal Extremo: Quando a dor encontra uma voz

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(*) Amanda Schirmer Reichert

Durante muito tempo, o rock e o metal extremo foram vistos apenas como gêneros musicais agressivos, sombrios ou até mesmo problemáticos. No entanto, para muitas pessoas, eles representam exatamente o contrário: um espaço de acolhimento, identificação e sobrevivência emocional.

Quando falamos sobre saúde mental, geralmente pensamos em silêncio. Pensamos naquilo que guardamos para nós mesmos, nas dores que não conseguimos explicar e nos sentimentos que parecem impossíveis de colocar em palavras. Foi justamente nesse espaço que o rock e o metal encontraram seu lugar. Enquanto boa parte da sociedade prefere evitar assuntos como depressão, ansiedade, luto e sofrimento psicológico, esses gêneros decidiram encará-los de frente.

Para quem vive ou já viveu momentos difíceis, ouvir uma música que fala sobre dor pode ser uma experiência estranhamente reconfortante. Não porque ela resolve os problemas, mas porque nos faz perceber que alguém, em algum lugar, sentiu algo parecido. Existe um alívio em descobrir que não somos os únicos enfrentando determinados pensamentos ou emoções.

O metal extremo, especialmente, possui uma intensidade que muitas vezes traduz sentimentos que não cabem em uma conversa comum. Os vocais agressivos, os riffs pesados e as atmosferas densas funcionam como uma linguagem para emoções que frequentemente permanecem presas dentro de nós. O que para algumas pessoas parece apenas barulho, para outras é uma forma de expressão profundamente humana.

Muitas bandas transformam experiências reais de sofrimento em arte. Falam sobre perdas, traumas, crises emocionais e batalhas internas sem tentar romantizar a dor. Pelo contrário, mostram suas consequências, seus conflitos e, em alguns casos, a difícil tentativa de seguir em frente. Essa honestidade cria uma conexão poderosa entre artista e público.

Bandas como Bring Me The Horizon, Lorna Shore, Linkin Park, The Amity Affliction, entre outras tantas, transformaram a dor em arte, o sofrimento em letras e riffs pesados.

Além da música em si, existe também a comunidade construída ao redor dela. Em shows, festivais e grupos de fãs, muitas pessoas encontram algo que nem sempre conseguem encontrar em outros lugares: pertencimento. É comum perceber que, por trás da aparência pesada e das letras sombrias, existe uma comunidade marcada pela empatia e pela compreensão mútua.

Por isso, acredito que o rock e o metal extremo possuem um papel importante na discussão sobre saúde mental. Eles ajudam a quebrar tabus, incentivam conversas necessárias e oferecem uma forma de expressão para sentimentos que muitas vezes permanecem escondidos. Nem toda dor pode ser curada por uma música, mas algumas delas podem se tornar mais suportáveis quando encontramos uma canção que parece entender exatamente o que estamos sentindo.

(*) Amanda Schirmer Reichert (foto) é acadêmica de Jornalismo na Unemat/Tangará da Serra. 

(Foto/imagem principal criada por IA)

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