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Opinião

Modais de transporte: Aspectos logísticos da Hidrovia do Rio Paraguai

Publicado

Autoria: Adilson Reis, de Cáceres-MT

Considerando que a logística é o maior desafio para todas as atividades humanas pela necessidade de internalizar insumos, oriundos inclusive do mercado internacional e, ainda escoar a produção tanto para o abastecimento interno como para a exportação, em especial quando se trata de grandes volumes para grandes distâncias. Cresce exponencialmente a necessidade da escolha do modal de transporte mais apropriado, a meta é sempre garantir a competitividade e a sustentabilidade.

(*) Ouça áudio de Adílson Reis sobre o tema, ao final da matéria.

O custo logístico é altamente representativo por depender da oferta de modais de transporte, o consenso fartamente demonstrado na prática é que, para o transporte entre pontos de menor trajeto, seja utilizado o modal rodoviário, buscando-se os modais ferroviário e hidroviário para as cargas destinadas às maiores distâncias.

A matriz brasileira de transportes tem grande concentração no modal rodoviário, que garante a “capilaridade” com maior oferta para movimentar a produção diretamente das fazendas até aos portos. Mas, o ideal é que fosse dentro de um raio limitado, em torno de 400 km, ficando os raios maiores atendidos pelos modais ferroviário e hidroviário que,  mesmo exigindo estruturas de transbordo, são mais competitivos em todos os aspectos, tendo em vista o menor gasto energético, a redução das emissões de gases poluentes, redução de riscos de acidentes, etc.

Mato Grosso é um Estado mediterrâneo, longe dos portos marítimos e depende de iniciativas que levem para a multimodalidade de transportes. Portanto, os modais ferroviário e hidroviário estão em foco, e a natural conexão desses modais remete à necessária multimodalidade de transporte, e, quanto mais produtivos forem os modais utilizados, maior será a redução do custo logístico e a competitividade da exportação.

As medidas do governo com as novas concessões do sistema viário em rodovias e ferrovias, associadas à livre inciativa que em nossa região busca a reativação do modal hidroviário, que historicamente tem papel relevante, levam a ampliar o leque de oferta de modais de maior performance, conectando-nos ao território nacional e ao mundo por todos os quadrantes.

Cáceres, nesse particular tem papel preponderante. Atentem para os recortes:

    • Os caminhos das monções, intensamente utilizado durante o período colonial, eram insuficientes diante das novas necessidades e perspectivas que estavam postas para o país e para a Província de Mato Grosso, notadamente com a introdução da navegação a vapor em grande escala. No início da década de 1850, a abertura da navegação fluvial pelo rio Paraguai, que permitia uma ligação mais rápida entre Mato Grosso e o Rio de Janeiro, era uma necessidade e uma reivindicação recorrentes da elite local e do governo imperial (GARCIA, 2005).
    •  Terminada a guerra contra o governo da república do Paraguai, em 1870, e restabelecida a livre navegação fluvial até Buenos Aires e Montevidéu, começou em Mato Grosso um período de intercâmbio comercial que perdurou até 1914, quando teve início a I Guerra Mundial. Mato Grosso exportava, via rio Paraguai, para os mercados europeus, borracha, ipecacuanha, penas de garças, madeira, couros e charques de sua prospera indústria saladeiril. Em contrapartida, importava máquinas, móveis, ferragens, tecidos, calçados, conservas alimentícias, vinhos, cerveja, artigos de limpeza e outros, tudo transportado pela rota do rio da Prata. Esse intercâmbio foi forte principalmente nos últimos anos do século passado e nas duas primeiras décadas do atual, quando os nossos produtos de exportação, sobretudo a borracha estavam no auge (PÓVOAS, 1995).
    • A ocupação da planície do rio Paraguai iniciou-se no século XVIII, com a abertura de fazendas e o surgimento do povoado de Cáceres, em 1772. Atualmente, no perímetro urbano, à margem esquerda do rio Paraguai, encontra-se totalmente ocupada por residências, ruas, áreas de recreação, comércios, ancoradouros e área portuária. A principal atividade realizada na calha fluvial é a navegação que está vinculada ao processo histórico de desenvolvimento da região de Cáceres e à expansão da agricultura. Na última década, ocorreu um crescimento expressivo da navegação, principalmente pelo uso de barcos de pequeno e médio porte, bem como a navegação com embarcações de grande porte utilizadas principalmente no turismo de observação no Pantanal de Cáceres e comboios de chatas para transporte de grãos, sobretudo soja (SOUZA et al, 2012).

Além disso, temos um arcabouço legal dos mais completos e complexos que levaram à produção de trabalhos como o Estudo de Viabilidade Técnica Econômica e Ambiental – EVTEA, que obviamente tratou das variáveis voltadas às atividades na via navegável, o rio Paraguai, e aos termos de referência dos Órgãos oficiais, IBAMA e SEMA, quanto à elaboração dos Estudos de Impacto Ambiental-EIA e Relatórios de Impacto Ambiental – RIMA, obrigatórios para a implantação de Terminal de Uso Privado-TUP, às margens do mesmo rio.

Destacamos que estes cuidados prévios, não eram obrigatórios quando aconteceram os fatos históricos citados nos recortes acima, que longe da destruição alegada pelos “contras”, trouxeram consideráveis resultados sociais, da mesma forma que se busca hoje a necessária melhoria em nossa matriz de transportes, centrada em conhecimento científico, com muito maior domínio de soluções tecnológicas, acrescentando ainda que se trata de uma via de navegação natural e de mão dupla. Abrem-se possibilidades, por exemplo para a subida do trigo e diversos outros produtos, retomando o papel de Cáceres como polo logístico e de processamento, gerando novos nichos de negócios e oportunidades que se aliam ao vetor turístico natural.

Ademais, ganha importância o relatório elaborado pela equipe multidisciplinar de integrantes da Agenda Regional Oeste- ARO, profissionais liberais  com larga experiência que em 2020 constataram a importância do sistema logístico constituído pelas rodovias federais BR-070 / BR-174; estaduais MT-339 e MT-343, os terminais portuários em Cáceres, a Hidrovia Paraguai-Paraná e a Zona de Processamento de Exportação de Mato Grosso em Cáceres para o desenvolvimento econômico e social da macrorregião Oeste-Sudoeste (Polos Cáceres e Tangará da Serra), que juntos somam 30 municípios e suas conclusões sobre a temática, com visão voltada à uma Política de Estado, transformando-se em um Projeto Intermodal com integração de modais competitivos (em especial, ferrovia e hidrovia), o que no jargão logístico denomina-se INTERMODALIDADE, que de forma sustentada impactará as Cadeias de Suprimentos Local, Regional e Global, gerando renda, emprego, impostos e divisas para o Mato Grosso e o Brasil.

(*) Ouça o áudio de Adílson Reis

(*) O autor, ADÍLSON REIS, é cacerense de família tradicional, Engenheiro Civil, especialista em Segurança do Trabalho, profundo conhecedor do modal hidroviário e dos potenciais da economia de Mato Grosso. É coordenador do Escritório em Cáceres da Agenda Regional Oeste de Mato Grosso (ARO-MT).   

 

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Opinião

As eleições e a urgência em se entender o que são fake news

Publicado

Autoria: Luciana Oliveira Pereira – Cuiabá/MT

Estamos há menos de sete meses das eleições e hoje já sabemos como o uso de notícias falsas pode impactar o resultado das urnas, além disto, muitos comportamentos têm sido alterados a partir da adesão da população à desinformação, notadamente nesta pandemia que ainda nos atropela.

Estudos mostraram que o uso de medicamentos ineficazes, estimulados por fake news, geraram uma falsa proteção levando milhares de pessoas a adoecerem e até mesmo morrer pela contaminação da covid-19.

Vivemos num país com reconhecimento mundial pelo sucesso de suas campanhas de vacinação, mas que hoje apresenta baixa adesão à imunização, principalmente infantil, mesmo diante das provas de segurança e eficácia das vacinas.

Pais e até mesmo médicos defendem que as crianças não sejam vacinadas porque acreditam que elas correm perigo, depois que seus aplicativos de mensagem foram inundados de notícias falsas, alegando que as vacinas são “experimentais” e estão matando crianças. Mesmo diante da realidade que mostra essas vacinas sendo utilizadas por milhares de crianças e adolescentes no mundo todo, sem efeitos mais graves ou a morte de alguma delas.

A utilização de notícias mentirosas ou distorcidas não é um fenômeno novo, remonta ao final do século XIX, mas com as novas tecnologias de comunicação e sua capacidade vertiginosa de propagação, as fake news ganharam maior popularidade. Aliada a isso, temos que ressaltar que o modo atual de fazer política, a partir da destruição de reputações, vem ganhando cada vez mais espaço.

O debate de ideias e à apresentação de propostas, que buscam transformar ou solucionar os problemas sociais, perdeu espaço para a desqualificação pessoal, para a criação de um vilão x herói e, para isso, as fake news são as principais armas. Com as redes sociais como caminho, elas são as ferramentas que possibilitam que milhares de pessoas, em espaços geográficos muito distantes, recebam a mesma mensagem – mentirosa, distorcida ou descontextualizada, de forma eficaz e sem precedentes.

Experiências em diversos países mostram que a utilização de fake news para manipular comportamentos e destruir reputações, altera a disputa política e isto tem contribuído para que essa estratégia seja cada vez mais utilizada.

Em levantamento realizado pela agência de checagem “Aos Fatos”, divulgado em janeiro, foi contabilizado que o presidente do nosso país emitiu uma média de sete declarações falsas ou distorcidas por dia, só no ano passado. Foram 2.516 falas com informações sem base na realidade, sendo mais da metade relacionadas à covid-19, além daquelas relacionadas à economia e as eleições, inclusive, fomentando o voto impresso e desacreditando a eficiência das urnas eletrônicas. Isso mostra a institucionalização do uso de fake news como uma política de comunicação do governo. E, vindo da maior instância, serve de exemplo para toda a população. Então, o que podemos esperar nas próximas eleições?

É relevante ressaltar que o estrago imediato gerado por uma notícia falsa demanda tempo para ser sanado, inclusive, mesmo quando as notícias são desmentidas, o tempo de resposta é mais lento porque exige apuração de fatos e trabalho jornalístico especializado, e, como as fake news operam através da mobilização de emoções primitivas, como o medo e a raiva, elas plantam dúvidas e insegurança nas pessoas, mobilizam suas crenças e geram uma alteração de comportamento, que dificulta a mudança rápida no estado íntimo delas.

As fake news normalmente são construídas com sensacionalismo e buscam chocar o leitor, mandando que ele a compartilhe. Elas são divulgadas em aplicativos de mensagem sem apresentação de fonte ou autoria, normalmente têm erros de português e quando se utilizam de links de site, estes não são os já estabelecidos, muitas vezes se utilizam de logomarcas parecidas com as de sites de notícias para enganar o leitor.

As milícias digitais, termo que designa os criadores e propagadores de fake news, também se utilizam de sites criados especialmente para disseminar desinformação, sítios que normalmente só mostram uma abordagem “ideológica” ou ponto de vista, não apresentando o fato de forma imparcial ou isento, como o trabalho jornalístico exige, ou seja, sem pontos de vista de fontes confiáveis e nem apresentando o contraditório, para a formação de opinião pelo leitor.

Mas as fake news não tem apenas objetivos políticos, elas também podem criar boatos e disseminar determinados pensamentos para prejudicar empresas, pessoas, formadores de opinião, celebridades, além disto, há que se analisar o aspecto comercial delas, pois muitas são criadas para atrair acessos e faturar com publicidade digital.

Importante destacar também que além de trabalhar com a emoção das pessoas, as notícias falsas são criadas com elementos de verdade, ou seja, usam um fato real, mas descontextualizado, algo antigo ou modificado para que obtenha o resultado esperado. Isso dificulta a leitura correta da “vítima” – porque as pessoas se tornam vítimas das mentiras, elas são enganadas, de toda forma os dados sempre acabam sendo contraditórios e, é importante que as pessoas consigam fazer essa leitura.

Se observarmos, por exemplo, as notícias falsas contra as vacinas da covid-19: elas alegam que não há “evidências científicas” para sua utilização ou mostram “dados” de que houve pessoas que morreram ou tiveram problema com seu uso, mas essa contestação é normalmente feita através de dados científicos – falsos, alterados ou com depoimento de médicos, que foram tecnicamente formados por arcabouço científico. Assim as fake news contestam a ciência, utilizando-se da própria ciência para desqualificá-la, veja a contradição!

E por que é preciso detalhar isso? Porque é essencial que a população tenha capacidade de distinguir entre uma notícia real e uma falsa para não continuar sendo manipulada.

Enquanto as pessoas brigas e se dividem, criando separação e mesmo isolamento em bolhas, com as quais se identificam através de seus medos, inseguranças, preconceitos, crenças e frustrações, servem ao estabelecimento de poderes políticos e grupos econômicos que as manipulam.

E essa manipulação é possível devido ao conhecimento de seus perfis, através do uso de suas próprias informações pessoais, disponibilizadas em suas páginas pessoais, através de seus likes, comportamentos de compra, entre outras ações realizadas no ambiente virtual, que são facilmente monitorados por aplicativos virtuais e utilizadas pelas milícias digitais.

Por tudo isso é tão importante que as pessoas entendam o que são as fake news e como elas são operadas; como detectar mentiras em seus aplicativos de mensagem; ou reconhecer sites confiáveis antes de sair compartilhando e divulgando mentiras.

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT) um dos principais pesquisadores dos fenômenos digitais, sediado nos Estados Unidos, mostra que a chance de uma notícia falsa ser compartilhada é 70% maior que uma notícia verdadeira. Isso sempre gera um grande prejuízo social.

Com vistas a uma eleição democrática, limpa e com maior equidade, recentemente o TSE firmou parceria com as agências de checagem que existem atualmente no Brasil e elaborou um planejamento estratégico que inclui monitoramentos, compromissos dos aplicativos e também divulgação de mensagens que ajudem a população a entender quando uma notícia é falsa ou não. Mas essa deve ser uma luta de toda sociedade, inclusive, dos partidos políticos e da própria imprensa, para que haja uma disputa eleitoral em níveis civilizatórios e, que de fato, o resultado das urnas, nas diferentes esferas de poder, represente a “vontade” da população e não a sua manipulação.

(*) A autora é jornalista em Cuiabá 

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