A notícia da semana, sem dúvida, foi a decisão do STF sobre a Moratória da Soja. Por 5 votos a 3, os ministros reconheceram a constitucionalidade do acordo privado que, desde 2006, restringia a compra de soja produzida em áreas desmatadas na Amazônia depois de julho de 2008.
Mas o que parece, à primeira vista, uma simples vitória de um lado e derrota de outro, é bem mais complexo. Porque o Supremo reconheceu a legalidade da Moratória, mas também confirmou a validade da legislação de Mato Grosso que permite ao Estado retirar benefícios fiscais de empresas que participem de acordos desse tipo. E esse talvez seja o ponto mais importante de toda essa história.
Na prática, a Moratória pode ser considerada legal, mas isso não significa que ela vá simplesmente voltar a funcionar como antes. A própria Abiove já sinalizou que o pacto não será retomado no formato anterior e que eventuais novos acordos terão de respeitar as regras estabelecidas pelo Estado.
Para a Famato e a Aprosoja Mato Grosso, o resultado representa uma vitória do produtor que cumpre a legislação brasileira. E a argumentação das entidades é bastante objetiva: se o produtor respeita o Código Florestal, possui autorização para produzir e está regular perante os órgãos ambientais, não deveria ser submetido a uma espécie de segunda legislação, criada por empresas privadas. A Famato fala em restauração da ordem jurídica no campo. Já a Aprosoja lembra que ainda ficaram questões importantes sem resposta, principalmente sobre os prejuízos eventualmente causados aos produtores e os efeitos da Moratória sobre a concorrência.
Do outro lado, a Abiove comemora justamente o reconhecimento da legalidade do acordo e continua defendendo seu legado ambiental e comercial. E há um dado apresentado pela própria entidade que merece atenção. Segundo levantamento da Serasa Experian, entre as safras 2023/24 e 2025/26, o plantio de soja em áreas desmatadas depois de julho de 2008 na Amazônia cresceu 37,2%, o equivalente a 101 mil hectares. Para a Abiove, esse crescimento mostra que, sem a Moratória, pode aumentar o estímulo para produzir em áreas que estavam fora do acordo.
E é exatamente nesse ponto que começa a discussão mais importante daqui para frente.
O fim da Moratória não pode significar que o produtor que cumpre a lei passe a ser tratado como criminoso por critérios privados que vão além da legislação brasileira. Mas também não pode significar que o Brasil abandone os compromissos ambientais que ajudaram a abrir mercados e construíram a imagem de uma agricultura cada vez mais sustentável.
O mundo mudou. O comprador internacional quer saber de onde vem a soja, como ela foi produzida e se respeita critérios ambientais. Portanto, o produtor precisa de segurança jurídica, mas também precisa estar preparado para uma realidade em que sustentabilidade e rastreabilidade deixaram de ser apenas uma exigência ambiental e passaram a ser uma condição de acesso a mercados.
Talvez, por isso, a principal consequência dessa decisão não esteja exatamente no que o STF decidiu, mas no que o setor terá de construir daqui para frente. A velha Moratória ficou para trás. Agora será preciso encontrar um modelo que consiga conciliar produção, legislação, preservação ambiental e acesso aos mercados.
Porque o Supremo encerrou a batalha jurídica sobre a validade da Moratória, mas abriu uma nova disputa sobre qual será a régua ambiental da soja brasileira daqui para frente.
(*) Olmir Cividini é jornalista em Mato Grosso
(*) Ouça a coluna na íntegra, veiculada na manhã desta sexta-feira na Serra FM:
A eliminação precoce da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 não representou apenas uma derrota esportiva. Para muitos analistas e torcedores, o fracasso em campo expôs uma crise institucional que, há anos, afeta a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Em comentário contundente na Rádio Gaúcha, o jornalista Pedro Ernesto Denardin deu voz a uma percepção cada vez mais presente nos bastidores do esporte: a de que o futebol brasileiro passou a conviver com uma crescente influência política em seus processos decisórios.
Entre Brasília e a bola
Parte desse debate envolve a atuação de Francisco Mendes, o Chico Mendes, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Vice-presidente da Federação Mato-grossense de Futebol (FMF), Chico é apontado por críticos como um dos articuladores da ascensão de Samir Xaud à presidência da CBF. A proximidade entre Xaud e o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado por Gilmar Mendes, alimenta interpretações sobre a existência de conexões políticas e institucionais que ultrapassariam os limites tradicionais do esporte.
Embora não haja participação formal do ministro na administração da CBF, a associação entre seu nome, o de seu filho e a atual direção da entidade tornou-se tema recorrente no debate público. Para comentaristas esportivos e lideranças políticas, a estrutura de poder construída nos bastidores do futebol brasileiro contribui para ampliar a sensação de distanciamento entre a cúpula da confederação e as demandas do torcedor.
Pedro Ernesto: crítica não se dirige apenas a nomes ou sobrenomes específicos, mas ao modelo de gestão .
A sombra sobre um “filho da terra”
Natural de Diamantino, Gilmar Mendes ocupa posição de destaque no cenário jurídico nacional há mais de três décadas. Em Mato Grosso, sua trajetória desperta sentimentos ambivalentes. Se, por um lado, representa a ascensão de um mato-grossense ao mais alto escalão do Judiciário, por outro, suas decisões no Supremo frequentemente dividem opiniões e alimentam críticas vindas de diversos setores da sociedade.
Esse desgaste de imagem, antes restrito ao campo jurídico e político, passou a alcançar também o futebol. A percepção, compartilhada por parte da opinião pública, de que interesses externos ao esporte exercem influência sobre a CBF fortalece narrativas que associam a crise da Seleção Brasileira aos arranjos de poder que cercam a entidade.
Muito além do campo
A eliminação da Seleção não pode ser explicada apenas pela composição de diretorias ou pelas relações políticas existentes nos bastidores do futebol. Problemas estruturais, decisões técnicas equivocadas, planejamento esportivo e questões administrativas também ajudam a compreender o momento vivido pelo futebol brasileiro.
Ainda assim, a discussão levantada por Pedro Ernesto Denardin toca em uma questão sensível: até que ponto a governança da CBF está alinhada com os interesses do esporte e da torcida? A crítica não se dirige apenas a nomes ou sobrenomes específicos, mas ao modelo de gestão que, na avaliação de seus opositores, privilegia articulações políticas e institucionais em detrimento da meritocracia esportiva.
O melancólico baile da eliminação, portanto, transcende o placar e os noventa minutos de jogo. Ele expõe dúvidas sobre a condução do futebol brasileiro e reacende o debate sobre transparência, representatividade e critérios de gestão em uma das instituições mais influentes do país. Para muitos torcedores, a reconstrução da Seleção talvez dependa menos da escolha do próximo treinador e mais da capacidade de a CBF recuperar a confiança daqueles que, dentro e fora dos estádios, ainda enxergam o futebol como patrimônio nacional.