O agronegócio mato-grossense enfrenta um cenário que combina desafios climáticos e novas oportunidades de valorização ambiental. Os temas foram abordados pelo jornalista Olmir Cividini, de Tangará da Serra, em sua coluna semanal Circuito Rural, com destaque para os impactos do fenômeno El Niño e os avanços proporcionados pela regulamentação da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).
Segundo a análise, a confirmação de fenômenos como o El Niño reforça a necessidade de planejamento por parte dos produtores rurais. Apesar dos avanços tecnológicos e das melhorias em gestão e produtividade, o clima continua sendo um fator determinante para o sucesso das safras, exigindo estratégias capazes de reduzir riscos e aumentar a segurança da produção.
Olmir Cividini é o autor do Circuito Rural.
Outro destaque é a regulamentação do PSA, que cria condições para remunerar produtores e demais agentes que contribuem para a conservação e recuperação dos recursos naturais. A medida representa um reconhecimento econômico de práticas sustentáveis já adotadas em muitas propriedades rurais.
A política também fortalece iniciativas voltadas à preservação dos mananciais. Em Tangará da Serra, por exemplo, o município é referência estadual no tema, com experiências pioneiras como o PSA Queima Pé e a legislação específica voltada à proteção dos recursos hídricos.
Para Olmir Cividini, a valorização dos ativos ambientais e a preparação do setor produtivo para enfrentar os desafios climáticos demonstram que desenvolvimento econômico e conservação ambiental podem caminhar juntos, fortalecendo a sustentabilidade do agronegócio mato-grossense.
Cenário de El Niño pode atrasar a soja 2026/27 e reduzir a janela para milho safrinha e algodão em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis
O plantio da soja 2026/27 avança lentamente em Mato Grosso, enquanto produtores aguardam maior segurança climática para colocar as sementes no solo. Na edição de 30 de setembro da coluna Circuito Rural, o jornalista Olmir Cividini informou, com base em dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), que pouco mais de 4% da área prevista, de aproximadamente 13 milhões de hectares, havia sido semeada até o fim de setembro. O índice está cerca de dois pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.
A cautela está relacionada à atuação do El Niño e à possibilidade de períodos de estiagem. Embora as chuvas estejam retornando a Mato Grosso, a distribuição ainda é irregular e nem todas as regiões receberam volume e sequência suficientes para garantir a germinação e o estabelecimento das lavouras.
O cenário merece atenção especial em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis, onde estão importantes polos agrícolas, como Campo Novo do Parecis e Sapezal. Para essas áreas, o último trimestre de 2026 pode combinar calor acima da média, precipitações mal distribuídas e maior risco nas decisões de início da safra.
Melhoras na segunda metade de outubro
Os institutos meteorológicos indicam pancadas de chuva nos próximos dias, inclusive com possibilidade de precipitações mais fortes em algumas localidades. Os volumes, porém, podem variar significativamente entre municípios e propriedades.
A expectativa apontada na coluna é de que a regularidade das chuvas apresente sinalização mais confiável somente na segunda metade de outubro. Ainda assim, os modelos climáticos indicam possibilidade de um último trimestre com precipitações abaixo da média em Mato Grosso.
Outubro aparece como mês de transição e irregularidade. A umidade começa a retornar, mas as pancadas da primeira quinzena podem ser isoladas, enquanto as temperaturas permanecem elevadas, com máximas entre 38°C e 40°C em vários pontos. Em novembro, o período chuvoso tende a se firmar, embora ainda possam ocorrer falhas. Dezembro deve concentrar volumes mais consistentes, mas com temperaturas acima do padrão histórico.
Calor intenso e baixa umidade aumentam a evapotranspiração, o estresse térmico das plantas e o risco de queimadas e incêndios florestais, além de dificultarem o estabelecimento inicial das lavouras.
Escalonamento como solução
O principal risco para o produtor é iniciar o plantio após uma chuva isolada e enfrentar, em seguida, um período de sol forte e ausência de precipitações. O chamado veranico pode reduzir a umidade do solo, prejudicar a germinação, provocar a morte de sementes e comprometer o desenvolvimento das plântulas.
O escalonamento da semeadura pode reduzir essa exposição. Em vez de concentrar toda a operação após a primeira chuva, o produtor pode distribuir o plantio e acompanhar a consolidação da umidade no perfil do solo, com apoio de orientação técnica e das atualizações dos órgãos de pesquisa e monitoramento.
A estratégia ganha importância em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis, onde perdas de estande ou necessidade de replantio podem pressionar o calendário e elevar os custos de produção.
Pressão na segunda safra
A coluna também chamou atenção para a possibilidade de a estiagem começar mais cedo em 2027, especialmente entre o fim de março e o início de abril.
A hipótese está associada a determinados comportamentos do El Niño e não constitui uma previsão fechada. Em anos com esse padrão climático, abril, normalmente marcado pela transição entre o período chuvoso e o seco em Mato Grosso, pode apresentar comportamento mais seco.
No campo, a data de 30 de abril também representa o encerramento da janela ideal de plantio do milho safrinha,
“Clima não é relógio e não permite previsões tão simples”, ponderou Cividini. Ainda assim, a possibilidade precisa entrar no planejamento, principalmente porque um eventual atraso na soja pode empurrar a colheita e estreitar a janela de plantio do milho safrinha e do algodão.
Uma segunda safra implantada mais tarde ficaria mais exposta à redução das chuvas no outono, com possíveis reflexos sobre produtividade, replantio, custos e cumprimento de contratos de comercialização.
O desempenho do agronegócio regional não depende apenas da produção dentro da porteira. A coluna também destacou o trabalho da Comissão de Logística da Aprosoja Mato Grosso, que percorreu mais de 8 mil quilômetros pelo Estado para identificar pontos críticos, acompanhar obras e verificar as condições das rodovias, inclusive das concedidas à iniciativa privada.
Entre os problemas relatados estão falhas na conservação do pavimento, sinalização deficiente, drenagem inadequada e excesso de vegetação nas margens, comprometendo a visibilidade em acessos e trechos de circulação.
A comissão produziu dez relatórios, encaminhados à Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), conforme a responsabilidade de cada trecho.
Para regiões produtoras como Tangará da Serra e o Chapadão dos Parecis, a combinação de clima irregular e estradas problemáticas pode ampliar os riscos. Atrasos no plantio, colheita concentrada, transporte de grãos e chegada de insumos exigem planejamento logístico.
Como resumiu Cividini na coluna, “no campo, a produção começa com a semente, mas o resultado econômico termina na estrada”.
Monitoramento será decisivo
O cenário para o último trimestre de 2026 recomenda planejamento, não paralisação. O produtor deverá acompanhar previsões atualizadas, umidade do solo e condições locais, considerando que chuvas de verão podem apresentar diferenças significativas mesmo entre áreas próximas.
A organização de máquinas, sementes, insumos e mão de obra será importante para aproveitar as janelas de umidade quando elas se confirmarem. Práticas de conservação do solo e manejo que favoreçam a retenção de água também podem reduzir os efeitos de períodos curtos de estiagem.
Para o agronegócio de Tangará da Serra e do Chapadão dos Parecis, o ponto central é não confundir a primeira chuva com o início definitivo da estação. Com o El Niño no radar, o plantio escalonado, a leitura das condições do solo e a atenção ao calendário da segunda safra podem ajudar a limitar perdas e preservar o potencial produtivo.