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Distrito do Sucuri: princesinha de Cuiabá

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Por: KAENE ALMEIDA

O Distrito do Sucuri é mais do que um simples pedaço do mapa de Cuiabá. É um lugar onde a história, a cultura e a natureza se entrelaçam, formando a verdadeira essência da identidade cuiabana. Em seus caminhos e memórias repousam as antigas olarias que, tijolo por tijolo, ajudaram a construir as casas que abrigam gerações.

Meu avô foi oleiro e, por isso, conheço de perto o valor dessa arte que molda não apenas o barro, mas também a alma do nosso povo.

As olarias do Sucuri eram o coração pulsante da construção local. Com mãos habilidosas e dedicação incansável, os oleiros fabricavam tijolos que sustentaram não apenas paredes, mas sonhos, histórias e tradições. Esses tijolos carregam, em suas texturas, a memória da nossa cidade, a conexão com a terra e o trabalho digno dos nossos antepassados. Preservar essa herança é essencial para que as futuras gerações compreendam suas raízes e sintam orgulho de quem são.

Ao lado desse legado, corre majestoso o rio Cuiabá, que há séculos abraça o distrito com suas águas generosas. O rio não é apenas um recurso natural, é um símbolo vivo de vida, fertilidade e continuidade. Suas margens foram palco de encontros, festas e celebrações que atravessam o tempo, mantendo viva a relação entre o homem e a natureza. É impossível pensar no Sucuri sem sentir o pulsar desse rio que o envolve.

E foi justamente às margens do rio Cuiabá que também se construiu um dos maiores símbolos de fartura e sobrevivência do povo do Sucuri. Dali vinham as piquiras, pequenos peixes que, nas mãos sábias da comunidade, eram muito mais do que alimento. Elas eram fritas e transformadas em gordura, um verdadeiro tesouro da época.

Essa gordura se tornava moeda de troca. Em tempos em que não havia transporte, quando ônibus não existiam e carros eram raridade, o povo caminhava longas distâncias, muitas vezes a pé, levando consigo aquilo que produziam com esforço e sabedoria. Seguiam rumo à baixada, aos distritos da Guia, de Baús e às redondezas, onde trocavam esse alimento por outros mantimentos.

Era um tempo de resistência, de coletividade e de inteligência popular, em que a escassez era enfrentada com criatividade e a sobrevivência nascia da união entre os povos. Esse sistema de trocas não era apenas uma necessidade: era um elo entre comunidades, um movimento que fortalecia laços e mantinha viva a dignidade de quem vivia da própria terra e do próprio rio.

O Distrito do Sucuri possuía dois principais meios de renda:

  • A pesca, favorecida pelo rio Cuiabá, que banha a região;
  • A olaria, atividade que também se destacava como importante fonte econômica local.

O distrito era conhecido por suas festas e pela fartura à mesa, características marcantes de uma comunidade acolhedora e generosa. As festas de santo sempre tiveram papel central, perpetuando-se na história e mantendo viva a tradição cultural do povo.

Falando em celebrações, as festas tradicionais de junho, dedicadas a São João Batista e Nossa Senhora de Aparecida, são momentos de fé, união e pertencimento. Mais do que eventos, essas celebrações são manifestações vivas da cultura, onde se preservam as crenças, os sabores e as cores da nossa terra. Entre danças, comidas típicas e rezas, o espírito do Sucuri se revela em sua forma mais pura e inspiradora.

Nos últimos cinco anos, o Distrito do Sucuri ganhou um novo motivo de orgulho: o restaurante Maria Izabel. Com sua proposta de valorizar a culinária regional, o Maria Izabel não apenas serve pratos, ele resgata memórias, exalta tradições e fortalece a identidade cuiabana. O reconhecimento nacional, com o peixe premiado pela Abrasel, comprova a riqueza e o talento da gastronomia local. O restaurante se torna, assim, um elo entre o passado e o presente, uma ponte viva entre tradição e contemporaneidade.

No entanto, diante de tantas transformações, o Sucuri enfrenta um desafio importante: a crescente instalação de condomínios que, muitas vezes, surgem desconectados da história e da essência do lugar. Não é raro que novos moradores desconheçam o significado das ruas, das casas e até do próprio nome do distrito. Essa desconexão pode enfraquecer aquilo que torna o Sucuri único. Por isso, torna-se fundamental valorizar, preservar e transmitir nossa cultura, nossas histórias e nosso modo de viver.

O Distrito do Sucuri é uma joia que merece ser cuidada com amor, consciência e respeito. Ele nos ensina que a verdadeira riqueza está nas nossas raízes: no trabalho dos oleiros, na força do rio, nas festas que celebram nossa fé e nas mesas fartas que traduzem nossa identidade.

Que possamos seguir construindo, tijolo por tijolo, uma comunidade que honra o seu passado enquanto caminha com dignidade rumo ao futuro.

(*) Kaene Almeida é cuiabana, gastróloga, nascida e criada no berço cultural da gastronomia cuiabana.

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Saúde Mental, Rock e Metal Extremo: Quando a dor encontra uma voz

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(*) Amanda Schirmer Reichert

Durante muito tempo, o rock e o metal extremo foram vistos apenas como gêneros musicais agressivos, sombrios ou até mesmo problemáticos. No entanto, para muitas pessoas, eles representam exatamente o contrário: um espaço de acolhimento, identificação e sobrevivência emocional.

Quando falamos sobre saúde mental, geralmente pensamos em silêncio. Pensamos naquilo que guardamos para nós mesmos, nas dores que não conseguimos explicar e nos sentimentos que parecem impossíveis de colocar em palavras. Foi justamente nesse espaço que o rock e o metal encontraram seu lugar. Enquanto boa parte da sociedade prefere evitar assuntos como depressão, ansiedade, luto e sofrimento psicológico, esses gêneros decidiram encará-los de frente.

Para quem vive ou já viveu momentos difíceis, ouvir uma música que fala sobre dor pode ser uma experiência estranhamente reconfortante. Não porque ela resolve os problemas, mas porque nos faz perceber que alguém, em algum lugar, sentiu algo parecido. Existe um alívio em descobrir que não somos os únicos enfrentando determinados pensamentos ou emoções.

O metal extremo, especialmente, possui uma intensidade que muitas vezes traduz sentimentos que não cabem em uma conversa comum. Os vocais agressivos, os riffs pesados e as atmosferas densas funcionam como uma linguagem para emoções que frequentemente permanecem presas dentro de nós. O que para algumas pessoas parece apenas barulho, para outras é uma forma de expressão profundamente humana.

Muitas bandas transformam experiências reais de sofrimento em arte. Falam sobre perdas, traumas, crises emocionais e batalhas internas sem tentar romantizar a dor. Pelo contrário, mostram suas consequências, seus conflitos e, em alguns casos, a difícil tentativa de seguir em frente. Essa honestidade cria uma conexão poderosa entre artista e público.

Bandas como Bring Me The Horizon, Lorna Shore, Linkin Park, The Amity Affliction, entre outras tantas, transformaram a dor em arte, o sofrimento em letras e riffs pesados.

Além da música em si, existe também a comunidade construída ao redor dela. Em shows, festivais e grupos de fãs, muitas pessoas encontram algo que nem sempre conseguem encontrar em outros lugares: pertencimento. É comum perceber que, por trás da aparência pesada e das letras sombrias, existe uma comunidade marcada pela empatia e pela compreensão mútua.

Por isso, acredito que o rock e o metal extremo possuem um papel importante na discussão sobre saúde mental. Eles ajudam a quebrar tabus, incentivam conversas necessárias e oferecem uma forma de expressão para sentimentos que muitas vezes permanecem escondidos. Nem toda dor pode ser curada por uma música, mas algumas delas podem se tornar mais suportáveis quando encontramos uma canção que parece entender exatamente o que estamos sentindo.

(*) Amanda Schirmer Reichert (foto) é acadêmica de Jornalismo na Unemat/Tangará da Serra. 

(Foto/imagem principal criada por IA)

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