O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, anunciou na semana passada que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou comunidades indígenas a desenvolver agricultura mecanizada e monocultura em seus territórios.
Em Mato Grosso, a decisão abre novas perspectivas para as etnias Paresi, Nambiquara e Manoki, da região de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Tangará da Serra. A partir da autorização, as comunidades poderão cultivar soja e milho sem risco de multas ou embargos ambientais.
As lideranças indígenas comemoraram a medida. Entre elas está Arnaldo Zunizakae, presidente da Coopihanama, cooperativa que administra a produção agrícola das aldeias. Ele destacou que a decisão garante melhorias na qualidade de vida e contribui para a permanência dos povos em seus territórios.
Fávaro também ressaltou que, além da autorização do Ibama, os agricultores indígenas poderão acessar linhas de crédito do Plano Safra para financiar a produção.
Tangará da Serra
Em Tangará da Serra, as terras indígenas correspondem a 53% da área total do município, que possui aproximadamente 11,3 mil km². A maior é a Terra Indígena Pareci, onde estão localizadas as aldeias Katyalarekwa e Serra Dourada, a cerca de 125 quilômetros da área urbana. Já a Aldeia Formoso, integrante da Terra Indígena Rio Formoso, fica a 85 quilômetros do centro da cidade.
Parte das comunidades já produz grãos nessas áreas. O trabalho é acompanhado por programas de capacitação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que oferece cursos de operação e manutenção de máquinas agrícolas e de aplicação de herbicidas.
Em Campo Novo do Parecis, a 400 quilômetros de Cuiabá, a produção indígena já ocorre há 15 anos. Nas terras das etnias Manoki, Nambiquara e Paresi, mais de 17 mil hectares são destinados ao cultivo de grãos. Segundo as lideranças, 95% do tratamento da lavoura é feito sem agrotóxicos.
Potencial econômico
As reservas indígenas em Tangará da Serra somam cerca de 6 mil km², o equivalente a 600 mil hectares. Para efeito de comparação, o município conta atualmente com pouco mais de 176 mil hectares cultivados com soja e milho.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) de Tangará da Serra em 2021 foi de R$ 5,58 bilhões. Desse total, 25% — ou R$ 1,395 bilhão — correspondeu ao valor adicionado pela agropecuária.
Se apenas 10% da área indígena fosse destinada ao plantio — respeitando a reserva legal mínima de 35% no Cerrado — seria possível ampliar em quase 30% a área agrícola do município. Nesse cenário, considerando as produtividades da soja e do milho (respectivamente 66 sc/ha e 126 sc/ha) e as cotações atuais desses produtos, a agropecuária poderia acrescentar, somente na comercialização da safra, quase R$ 500 milhões ao PIB local, elevando-o para praticamente R$ 6 bilhões.
Cenário de El Niño pode atrasar a soja 2026/27 e reduzir a janela para milho safrinha e algodão em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis
O plantio da soja 2026/27 avança lentamente em Mato Grosso, enquanto produtores aguardam maior segurança climática para colocar as sementes no solo. Na edição de 30 de setembro da coluna Circuito Rural, o jornalista Olmir Cividini informou, com base em dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), que pouco mais de 4% da área prevista, de aproximadamente 13 milhões de hectares, havia sido semeada até o fim de setembro. O índice está cerca de dois pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.
A cautela está relacionada à atuação do El Niño e à possibilidade de períodos de estiagem. Embora as chuvas estejam retornando a Mato Grosso, a distribuição ainda é irregular e nem todas as regiões receberam volume e sequência suficientes para garantir a germinação e o estabelecimento das lavouras.
O cenário merece atenção especial em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis, onde estão importantes polos agrícolas, como Campo Novo do Parecis e Sapezal. Para essas áreas, o último trimestre de 2026 pode combinar calor acima da média, precipitações mal distribuídas e maior risco nas decisões de início da safra.
Melhoras na segunda metade de outubro
Os institutos meteorológicos indicam pancadas de chuva nos próximos dias, inclusive com possibilidade de precipitações mais fortes em algumas localidades. Os volumes, porém, podem variar significativamente entre municípios e propriedades.
A expectativa apontada na coluna é de que a regularidade das chuvas apresente sinalização mais confiável somente na segunda metade de outubro. Ainda assim, os modelos climáticos indicam possibilidade de um último trimestre com precipitações abaixo da média em Mato Grosso.
Outubro aparece como mês de transição e irregularidade. A umidade começa a retornar, mas as pancadas da primeira quinzena podem ser isoladas, enquanto as temperaturas permanecem elevadas, com máximas entre 38°C e 40°C em vários pontos. Em novembro, o período chuvoso tende a se firmar, embora ainda possam ocorrer falhas. Dezembro deve concentrar volumes mais consistentes, mas com temperaturas acima do padrão histórico.
Calor intenso e baixa umidade aumentam a evapotranspiração, o estresse térmico das plantas e o risco de queimadas e incêndios florestais, além de dificultarem o estabelecimento inicial das lavouras.
Escalonamento como solução
O principal risco para o produtor é iniciar o plantio após uma chuva isolada e enfrentar, em seguida, um período de sol forte e ausência de precipitações. O chamado veranico pode reduzir a umidade do solo, prejudicar a germinação, provocar a morte de sementes e comprometer o desenvolvimento das plântulas.
O escalonamento da semeadura pode reduzir essa exposição. Em vez de concentrar toda a operação após a primeira chuva, o produtor pode distribuir o plantio e acompanhar a consolidação da umidade no perfil do solo, com apoio de orientação técnica e das atualizações dos órgãos de pesquisa e monitoramento.
A estratégia ganha importância em Tangará da Serra e no Chapadão dos Parecis, onde perdas de estande ou necessidade de replantio podem pressionar o calendário e elevar os custos de produção.
Pressão na segunda safra
A coluna também chamou atenção para a possibilidade de a estiagem começar mais cedo em 2027, especialmente entre o fim de março e o início de abril.
A hipótese está associada a determinados comportamentos do El Niño e não constitui uma previsão fechada. Em anos com esse padrão climático, abril, normalmente marcado pela transição entre o período chuvoso e o seco em Mato Grosso, pode apresentar comportamento mais seco.
No campo, a data de 30 de abril também representa o encerramento da janela ideal de plantio do milho safrinha,
“Clima não é relógio e não permite previsões tão simples”, ponderou Cividini. Ainda assim, a possibilidade precisa entrar no planejamento, principalmente porque um eventual atraso na soja pode empurrar a colheita e estreitar a janela de plantio do milho safrinha e do algodão.
Uma segunda safra implantada mais tarde ficaria mais exposta à redução das chuvas no outono, com possíveis reflexos sobre produtividade, replantio, custos e cumprimento de contratos de comercialização.
O desempenho do agronegócio regional não depende apenas da produção dentro da porteira. A coluna também destacou o trabalho da Comissão de Logística da Aprosoja Mato Grosso, que percorreu mais de 8 mil quilômetros pelo Estado para identificar pontos críticos, acompanhar obras e verificar as condições das rodovias, inclusive das concedidas à iniciativa privada.
Entre os problemas relatados estão falhas na conservação do pavimento, sinalização deficiente, drenagem inadequada e excesso de vegetação nas margens, comprometendo a visibilidade em acessos e trechos de circulação.
A comissão produziu dez relatórios, encaminhados à Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), conforme a responsabilidade de cada trecho.
Para regiões produtoras como Tangará da Serra e o Chapadão dos Parecis, a combinação de clima irregular e estradas problemáticas pode ampliar os riscos. Atrasos no plantio, colheita concentrada, transporte de grãos e chegada de insumos exigem planejamento logístico.
Como resumiu Cividini na coluna, “no campo, a produção começa com a semente, mas o resultado econômico termina na estrada”.
Monitoramento será decisivo
O cenário para o último trimestre de 2026 recomenda planejamento, não paralisação. O produtor deverá acompanhar previsões atualizadas, umidade do solo e condições locais, considerando que chuvas de verão podem apresentar diferenças significativas mesmo entre áreas próximas.
A organização de máquinas, sementes, insumos e mão de obra será importante para aproveitar as janelas de umidade quando elas se confirmarem. Práticas de conservação do solo e manejo que favoreçam a retenção de água também podem reduzir os efeitos de períodos curtos de estiagem.
Para o agronegócio de Tangará da Serra e do Chapadão dos Parecis, o ponto central é não confundir a primeira chuva com o início definitivo da estação. Com o El Niño no radar, o plantio escalonado, a leitura das condições do solo e a atenção ao calendário da segunda safra podem ajudar a limitar perdas e preservar o potencial produtivo.