O evento de abertura nacional do plantio da soja, na última sexta-feira, em Jaciara, destacou painéis de discussão sobre o déficit de armazenagem e perspectivas de mercado mas, também, registrou a preocupação por conta da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito da inconstitucionalidade do marco temporal. (Ouça áudio da ERW sobre o assunto logo adiante)
O marco temporal, mesmo já tendo sido aprovado no Senado Federal, ainda não é assunto pacífico.
O presidente da Frente Parlamentar de Agropecuária na Câmara dos Deputados, Pedro Lupion (PP do Paraná, foto à esquerda), falou à imprensa nacional que o momento é grave porque o Brasil está presenciando a relativização da propriedade privada.
O mesmo Pedro Lupion traduziu, em suas palavras, uma grande preocupação que chega para toda a sociedade, não apenas aos produtores rurais, mas também para qualquer cidadão, por conta da insegurança jurídica que se instalou no País.
Na mesma oportunidade, o presidente da Aprosoja Brasil, Antônio Galvan (foto à direita), ressaltou que uma super safra de soja costuma trazer problemas de preço e de armazenagem, mas que o grande gargalo do setor, agora, é outro: o risco de perda de propriedade pelo entendimento do STF.
O assunto compôs o conteúdo do programa Paralelo 14, veiculado de segunda a sexta-feira na Enfoque Rádio Web, no serviço de transmissão de áudio via Internet com a tecnologia streaming.
Ouça o trecho do programa com o tema:
Paralelo 14
O Paralelo 14 é um programa da Enfoque Rádio Web veiculado de segunda a sexta-feira, das 10h00 às 12h00, de cunho jornalístico e opinativo.
Com apresentação do jornalista Sergio Roberto Reichert, o programa também traz como destaque empresas, produtos e serviços, temas de interesse difuso e outras informações de interesse geral para Tangará da Serra e região Sudoeste de Mato Grosso.
Para acessar a rádio web, basta acessar o site Em foque Business e clicar no botão da parte superior da página.
Para acessar a rádio web, basta acessar o site Em foque Business e clicar no botão da parte superior da página, conforme imagem abaixo.
O agronegócio mato-grossense encerra o mês de junho sob o impacto de dois temas que, embora distintos, convergem para a mesma preocupação: a segurança e a previsibilidade da produção. De um lado, chuvas atípicas em pleno mês de junho ameaçam a qualidade da colheita do algodão; do outro, o anúncio de estudos da Petrobras para dobrar a produção nacional de fertilizantes reacende o debate sobre a histórica dependência externa brasileira de insumos estratégicos.
Os temas são abordados na coluna “Circuito Rural”, do jornalista mato-grossense especializado em agronegócio Olmir Cividini, de Tangará da Serra.
Chuvas em junho: o alerta na colheita do algodão
Mato Grosso, que cultivou cerca de 1,4 milhão de hectares de algodão nesta safra, foi surpreendido por episódios climáticos fora do padrão para esta época do ano. Antes dessas chuvas, a expectativa de produtividade média era de 304 arrobas por hectare, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA). No entanto, acumulados superiores a 20 milímetros em diversas regiões produtoras colocam em risco a qualidade da fibra e dificultam a entrada de maquinário em campo.
A colheita do algodão é uma fase extremamente sensível à umidade. O excesso de chuva não apenas atrasa o cronograma, mas pode provocar o escurecimento da fibra e a proliferação de doenças, impactando diretamente o valor de mercado do produto. Levantamentos técnicos ainda estão sendo realizados para mensurar o tamanho real do prejuízo, mas o alerta já está ligado para o produtor, que vê no clima um fator que foge completamente ao seu controle.
Fertilizantes: dependência que preocupa
Enquanto o campo lida com o clima, em Brasília e no Rio de Janeiro, a pauta é a soberania nacional. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou recentemente que solicitou estudos para dobrar a capacidade nacional de produção de fertilizantes. Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes utilizados em sua agricultura, uma vulnerabilidade estratégica que ficou evidente com as recentes crises globais.
A análise histórica é reveladora: nas últimas cinco décadas, a produção brasileira de soja saltou de 9 milhões para 180 milhões de toneladas — um crescimento de quase 2.000%. Se o país sabia que sua agricultura crescia nesse ritmo, por que optou por importar a maior parte dos insumos em vez de ampliar sua própria capacidade produtiva? A resposta passa por investimentos elevados, necessidade de gás natural a preços competitivos e infraestrutura logística. Por muito tempo, foi economicamente mais vantajoso importar do que fabricar internamente.
O problema é que a lógica econômica nem sempre coincide com a lógica estratégica. O Brasil já alcançou a autossuficiência na produção de petróleo bruto em 2006, mas ainda importa combustíveis porque a capacidade de refino não acompanhou a demanda. Com os fertilizantes, o desafio é semelhante. Até que ponto determinadas cadeias produtivas devem ser analisadas apenas pela ótica do custo imediato? Em casos de insumos estratégicos, a segurança de abastecimento e a soberania nacional podem justificar investimentos que, à primeira vista, não parecem os mais rentáveis, mas que garantem a sustentabilidade da maior potência agrícola do planeta.
Olmir Cividini é jornalista e colunista do Enfoque Business em Tangará da Serra.
(*) Ouça o Circuito Rural na íntegra no áudio abaixo: