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Opinião

Dia da Consciência Negra: Uma marca para a união e a persistência na luta contra o racismo estrutural

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  • Por: Luciana Oliveira Pereira

Em 20 de novembro completam-se 11 anos da promulgação da lei que homenageia Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência do período da escravidão brasileira.  

Inicialmente, a Lei n° 12.519/2011 não foi feita para estabelecer um feriado – uma escolha que coube aos municípios e estados, mas uma data para se contrapor ao 13 de Maio, Abolição da Escravatura, que sem nenhuma intervenção do Estado, relegou os pretos a sua própria sorte. Naquele momento, não houve nenhum tipo de processo de transição da vida de escravo para de homens e mulheres “livres”. Por isso, tanto se fala na dívida histórica do Brasil com os seus afrodescendentes. 

Apesar de tantos anos da “abolição” a comunidade de pretos e pardos, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2019, compõe 56,2% da população, ou seja, a maioria dos brasileiros. Contudo, as desigualdades e problemas socioculturais enfrentados por essa maioria da parcela da população não vêm sendo solucionados. 

Vivemos numa sociedade racista, classista, elitista e recentemente, desnudou-se também que ela mantém traços nazifascistas. Tudo isso dificulta que tenhamos um convívio mais harmônico e igualitário entre todas, todes e todos os brasileiros, independente de raça, gênero, classe… 

A comunidade negra que luta por respeito e dignidade há quase 500 anos em nosso país, ainda é a que mais morre. O Atlas da Violência 2021 mostrou que os negros representam 77% das vítimas de homicídio. No Brasil, a probabilidade de uma pessoa negra ser assassinada é 2,6 vezes maior do que àquela não negra. Os dados levantados contam que enquanto a taxa de homicídios (por 100 mil habitantes) de negros no Brasil, em 2019, foi de 29,2, a da soma dos amarelos, brancos e indígenas chegou a 11,2. 

O percentual de assassinatos de negros é um número que persiste nos levantamentos e se configura como uma herança histórica do período colonial. 

Mas o preconceito também atinge o acesso à saúde da população preta. Em entrevista ao Portal Drauzio Varella, o médico e pesquisador em saúde da população negra da UFRJ, Fleury Johnson, explicou no ano passado, que o adoecimento dessa população está balizado em três pilares: escravatura, racismo institucional e estrutural.  

Os negros compõem majoritariamente a população mais pobre do país e vivem nas periferias, sem acesso a melhores condições de vida, assim como a lazer, cultura, bem como às estruturas de saúde. Vivem sob um sistema que hierarquiza suas relações econômicas, mas também políticas, sociais e espirituais. 

As limitações econômicas, resultado dos salários mais baixos ou subempregos, a que a maioria do povo negro está destinado, numa sociedade ainda com valores escravocrata, lhes permite acesso apenas a uma alimentação mais calórica e com poucos nutrientes – porta de entrada para doenças como o diabetes, o colesterol e a pressão alta, entre outras. 

Nos últimos anos temos visto a ampliação do preconceito contra as religiões de matriz africana, ou seja, não há sequer liberdade para a prática da fé do povo preto, o que traz conflitos não só físicos, mas emocionais e psicológicos a um povo que vive sob estresse constante. Tudo isso contribui para a ausência de uma saúde plena.  

Na educação é preciso garantir o acesso e a permanência de nossas crianças e jovens nas escolas e nas universidades. A Política de Cotas é uma grande conquista, mas é necessário fortalecê-la, pois ela tem oportunizado a transformação de vidas e comunidades a partir da conquista do diploma do ensino superior.  

Outro aspecto fundamental é fazer valer a lei nº 10.639/ 2003 que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Deve fazer parte do conteúdo programático das escolas o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, entre outros pontos, que resgatarão a contribuição desse povo para a sociedade brasileira, valorizando sua cultura para romper o racismo desde cedo da vida de nossas crianças, sejam elas de que raça for. 

O trabalho pelo fim do racismo e do preconceito requer vontade, união e tempo, mas precisa ser realizado agora. O que percebemos é uma constante limitação de direitos, nas mais diversas áreas da vida em sociedade, uma violência física e psicológica contra a população negra do país. Fruto de uma completa falta de empatia e conhecimento histórico do que esse povo sofreu. Retirado do seu país, família e afetos, para serem tratados como coisas, torturados e massacrados pela ganância dos senhores do engenho. O pior é que esse povo negro ainda sofre muito na atualidade, às vezes, com a mesma violência de antes. 

Mas do que marcar um dia para lembrar a luta e a resistências dos escravos no Brasil, o 20 de novembro merece toda a nossa atenção, não só para refletirmos sobre as injustiças e os diversos problemas sociais, como o preconceito e a desigualdade salarial ou o desrespeito aos corpos e a presença física dos pretos em ambientes ditos “privilegiados”; o que incomoda a elite e fere o direito dos pretos de transitar “livremente” em diferentes ambientes. 

A data deve demarcar a continuidade da luta por políticas públicas de inclusão social, digital, educacional; políticas de acesso ao cuidado e à saúde do povo negro; o estabelecimento de políticas estruturantes de combate à violência contra jovens e mulheres pretas; o fomento do debate dentro das escolas desde a primeira infância, contra o racismo e o preconceito, entre tantas ações urgentes e necessárias, principalmente, quando vemos se levantarem retrocessos de valores civilizatórios, que aparentemente, estavam sendo consolidados no Brasil. 

O combate ao racismo estrutural é uma tarefa da sociedade, que exige a união de pretos, brancos, pardos, povos originários e todos que querem uma sociedade mais justa, digna e igualitária; que vêm a sua comunidade como espaço de convivência fraterna, harmônica e responsável para as futuras gerações. Precisamos honrar toda luta e sofrimento de Zumbi dos Palmares, mas também de nossos ancestrais que vêm sobrevivendo a esse Brasil desigual e injusto. Chega de sofrer, é hora de viver, de ser feliz. 

  • A autora, Luciana Oliveira Pereira, é jornalista em Cuiabá

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Saúde Mental, Rock e Metal Extremo: Quando a dor encontra uma voz

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(*) Amanda Schirmer Reichert

Durante muito tempo, o rock e o metal extremo foram vistos apenas como gêneros musicais agressivos, sombrios ou até mesmo problemáticos. No entanto, para muitas pessoas, eles representam exatamente o contrário: um espaço de acolhimento, identificação e sobrevivência emocional.

Quando falamos sobre saúde mental, geralmente pensamos em silêncio. Pensamos naquilo que guardamos para nós mesmos, nas dores que não conseguimos explicar e nos sentimentos que parecem impossíveis de colocar em palavras. Foi justamente nesse espaço que o rock e o metal encontraram seu lugar. Enquanto boa parte da sociedade prefere evitar assuntos como depressão, ansiedade, luto e sofrimento psicológico, esses gêneros decidiram encará-los de frente.

Para quem vive ou já viveu momentos difíceis, ouvir uma música que fala sobre dor pode ser uma experiência estranhamente reconfortante. Não porque ela resolve os problemas, mas porque nos faz perceber que alguém, em algum lugar, sentiu algo parecido. Existe um alívio em descobrir que não somos os únicos enfrentando determinados pensamentos ou emoções.

O metal extremo, especialmente, possui uma intensidade que muitas vezes traduz sentimentos que não cabem em uma conversa comum. Os vocais agressivos, os riffs pesados e as atmosferas densas funcionam como uma linguagem para emoções que frequentemente permanecem presas dentro de nós. O que para algumas pessoas parece apenas barulho, para outras é uma forma de expressão profundamente humana.

Muitas bandas transformam experiências reais de sofrimento em arte. Falam sobre perdas, traumas, crises emocionais e batalhas internas sem tentar romantizar a dor. Pelo contrário, mostram suas consequências, seus conflitos e, em alguns casos, a difícil tentativa de seguir em frente. Essa honestidade cria uma conexão poderosa entre artista e público.

Bandas como Bring Me The Horizon, Lorna Shore, Linkin Park, The Amity Affliction, entre outras tantas, transformaram a dor em arte, o sofrimento em letras e riffs pesados.

Além da música em si, existe também a comunidade construída ao redor dela. Em shows, festivais e grupos de fãs, muitas pessoas encontram algo que nem sempre conseguem encontrar em outros lugares: pertencimento. É comum perceber que, por trás da aparência pesada e das letras sombrias, existe uma comunidade marcada pela empatia e pela compreensão mútua.

Por isso, acredito que o rock e o metal extremo possuem um papel importante na discussão sobre saúde mental. Eles ajudam a quebrar tabus, incentivam conversas necessárias e oferecem uma forma de expressão para sentimentos que muitas vezes permanecem escondidos. Nem toda dor pode ser curada por uma música, mas algumas delas podem se tornar mais suportáveis quando encontramos uma canção que parece entender exatamente o que estamos sentindo.

(*) Amanda Schirmer Reichert (foto) é acadêmica de Jornalismo na Unemat/Tangará da Serra. 

(Foto/imagem principal criada por IA)

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